337. Picassos Falsos: “Bater A Porta”

Nunca espere muita coisa da minha razão
Às vezes posso entrar em guerra comigo mesmo
Nunca espere muita coisa da minha paixão
Raciocinar demais
Pode ser o meu defeito


Uma banda chamada Picassos Falsos merece ser escutada só pela esperteza do nome escolhido para batizá-la… genial!

É certo que, assim chamados ou não, eu acabaria me interessando pelo conjunto – colecionador que sou dos clássicos do BRock. Mas, no fim das contas, os cariocas devem ter providenciado minha última aquisição, assim, espontânea, de algum CD do rock brasileiro oitentista.

Isso aconteceu em meados de 2007, entre a fossa de um belíssimo pé-na-bunda e a perspectiva de um novo namoro, numa época tumultuada também em âmbito formativo-profissional, e no contexto da militância. Talvez por isso (tudo) é que eu não tenha dado a atenção que a coletânea Picassos falsos hot 20 (1999) merecia, embora tenha escutado bastante algumas das faixas.

Esse apanhado de canções mesclava o repertório dos dois primeiros álbuns da trupe liderada pelo vocalista Humberto Effe, Picassos falsos (1987) e Supercarioca (1988). Incompreensivel e desrespeitosamente, a antologia embaralhava os dois repertórios.

O que importava é que as duas primeiras canções que conheci dos Picassos estavam lá, e abrindo o disquinho. “Carne E Osso” – mais tarde, gravada numa versão definitiva por Tony Platão – trazia seu delicioso riff ao baixo, cadência e letra pra lá de sexys e citações a “Se Você Jurar” (Ismael Silva e Nilton Bastos) e “Cristina” (de Tim Maia e Carlos Imperial). Já “Quadrinhos”, com o refrão “Meu amor, olhe pros lados, / Desde criança, só lemos os quadrinhos dos jornais”, era o pós-punk mais funky que já tinha escutado, o que ocorrera pela primeira vez graças a outra coletânea, o volume sobre rock da CDTeca Folha.

As duas obras, abrindo o caminho para digirir meu interesse a outras canções, meio que resumiam a sonoridade dos Picassos Falsos: um pé fincado no rock inglês, com alguns climas meio góticos e uma indefectível bateria à New Order (cortesia das baquetas de Abílio Azambuja); e outro na música negra, brasileira (com muita influência do samba e de outros ritmos afro, como o afoxé e outros batuques) ou internacional (incluindo o soul e o funk, desenhados com competência pela guitarra rítmica de Gustavo Corsi e pelo baixo grooveado de Caíca, depois, substituído por Romanholli).

Uma das canções que mais gostei, nas vezes em que escutei descompromissadamente aquela coletânea, foi “Bater A Porta”. Ali, tinha de tudo um pouco, entre os elementos que enunciei acima, e mais: muita distorção, células rítmicas inspiradas no baião (!) e uma letra que é pura pós-modernidade.

A canção, composta por Effe, traz alguns versos que me remetem a outra obra mais ou menos contemporânea, “Nada Tanto Assim”, do Kid Abelha. Tanto na esperta letra de Leoni, como na obra tocada pelos Picassos, aparece um sujeito incapaz de processar tantos estímulos da indústria cultural a seu redor. Ali, era o refrão “Eu tenho pressa e tanta coisa me interessa / Mas nada tanto assim”; aqui, “Ligo a TV / Ligo o rádio / Ligo tudo / Mas não me ligo em nada / Estou mudo”.

O grande sacada dos Picassos – e elemento ausente na obra do Kid – é a captação de outra característica da pós-modernidade: o sentimento de se estar, sempre, num estado de alheamento, apartado, solitário. Assim, observe na letra que, sem se sentir representado pela mídia de massas, resta ao sujeito da canção esperar a compreensão (e a compaixão) da pessoa amada – que não chega, efetivamente, a dar as caras na narrativa, o que coloca em evidência a sensação de isolamento impingida à voz que canta: “Fico parado esperando / Quem sabe / O rápido ruído / De alguém como você / Bater à porta”.

O próprio título da canção joga com todas as ambiguidades relacionadas a esse estado de insulamento: afinal, é “Bater À Porta” (a ação de alguém que viria ao socorro do sujeito da canção) ou “Bater A Porta” (conformar-se, ainda que agressivamente, com o retraimento)?

picassos-falsos.jpg
Picassos Falsos: muita brasilidade no BRock.

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