338. Ednardo: “Ausência”

Tu lembras, a rua estreita, estrada tão antiga
E eu mostrava a ti uma cantiga
Uma cantiga antiga do lugar


De toda a turma – ou melhor, “Pessoal” – do Ceará, Ednardo foi um dos que menos escutei. Paradoxalmente, é também o artista sobre o qual eu mais teria a falar, em comparação, por exemplo, a Belchior e Fagner.

Sua estreia solo, O romance do pavão mysteriozo (1974), é um álbum que dosa perfeitamente lirismo, psicodelia e reverência à musicalidade cearense, daí meu interesse pela obra. Inspirado livremente n‘O romance do pavão misterioso (romance de cordel atribuído a João Melchíades Ferreira da Silva mas, ao que parece, escrito por José Camelo de Melo Rezende), trata-se de um disco conceitual, cujo enlace entre suas 12 faixas é o que me motiva a tomar uma de suas canções como tema de hoje.

Já no encarte, o próprio Ednardo explicita o caráter narrativo do LP e a forma como as canções se relacionam com o cordel (quase) homônimo:

O Pavão é uma coisa bonita que “voa”. “Voa” assim como eu enxerguei que ele voasse. Quando li o romance tudo estava daquele jeito → escrito. Todas as piruetas que o rapaz fez para livrar a moça do castelo do conde, resultaram num sentimento final anti-repressivo, livremente bonito, sem preocupações, porque o começo de cada coisa já contêm o seu fim.

E eu topei fazer este disco assim, como uma estória, para que ele se impregnasse e fosse irmão desse mesmo sentimento final:

O Vôo, o Rapaz, a Moça, o Pavão, (e eu), sem assumir nenhuma pose “fox-lórica” e/ou  “folclórica”.

O desenho do pavão [vide abaixo] foi um jogo de paciência, minha atividade lúdica enquanto o disco não vinha, enquanto não dava o carneiro.

pavao-mysteriozo.jpg

Então O romance do pavão mysteriozo parte da expectativa, do enunciador (que é o próprio Ednardo), de ganhar uma bolada no jogo do bicho, de forma a garantir uma passsagem para o “Sul”. É a narração da faixa de abertura, “Carneiro”: “Amanhã se der o carneiro / O carneiro / Vou m´imbora daqui pro Rio de Janeiro / As coisas vêm de lá / Eu mesmo vou buscar”.

O sonho de voar até o Rio é realizado e a partida é dolorosa. Na pele da mãe do artista, o enunciador de “Avião De Papel” o encoraja (“Vai, meu filho, vai / Que Deus lhe dê boa sorte, fortuna e felicidade”), ao mesmo tempo em que lança uma súplica cortante: “Só não esqueça de voltar pra ver / O que restou desse lugar / Que o sol e a chuva / E os homens práticos / Vão modificar”.

A dupla “Mais Um Frevinho Danado” e “Ausência” representa os opostos, respectivamente, solar e lunar, de um mesmo processo: a despedida definitiva da terra onde o sujeito enunciador se criou, primeiro, festejando numa frevança (que, junto da alegria, traz inevitavelmente a ressaca), depois, ouvindo tristemente o lamento paterno, na forma de uma valsa tão triste quando bela.

Simples e absurdamente linda – e por isso a tomo como teja de hoje –, “Ausência” traz mais versos devastadores: “Tu lembras, a rua estreita, estrada tão antiga / E eu mostrava a ti uma cantiga / Uma cantiga antiga do lugar / Na rua, na paz da lua, o sonho se fazia / E sem querer então eu esquecia / Que já não temos tempo pra sonhar”. Gosto muito dos versos, cheios de aliterações, nos dois tercetos finais: “Sorrias, e a tua voz a cada instante amiga / A um só tempo em um abraço estreito / Fazia vida ao violão num jeito de se fazer amar / Sorrias, e a tua voz, estranho, estrada, amiga / Perdeu-se ao longe na partida / E não ficou ninguém em seu lugar”.

Aliás, é interessante como esse “miolo” do álbum soa aliterante; com efeito, o acúmulo de consoantes, fonossemanticamente, causa a sensação de jornada árdua, áspera, cheia de obstáculos – ao contrário da fluidez dos vogais. A faixa que se segue a “Ausência” é “Varal”, e repare nos versos (novamente, belíssimos, ainda que intrincados): “No umbral da porta já torta / A sombra, o sombrio olhar / E no olhar coisas mortas / Que ninguém virá velar”. Aqui, o tema parece ser a dificuldade de ambientação na nova terra, com sua gente de passos afobados (“No varal a roupa ao vento / E no vento a voz da rua / E na rua o transitar / Gente apressada a passar”), mais a desilusão de não encontrar as tão sonhadas oportunidades para o florescimento do sucesso, reduzidas a pura monotonia: “Na parede o calendário / No calendário outro dia / E no dia a mesma espera / De nada esperar um dia […] / E esse dia tão normal / Tão normal, tão normal / E esse dia tão normal / Tão normal, tão normal”.

Mas um novo mundo, lentamente, se abre: “Dorothy L’amour” (composta por Fausto Nilo e Petrucio Maia) traz o encantamento de se apreciar (e se apaixonar por) uma atriz famosa (possibilidade interditada naquele saudoso interior cearense), ainda que num contexto em que impera o sentimento de desolação (tratado em “Desembarque”).

De qualquer forma, algo se move, e parece que o artista-retirante/retirante-artista ao menos encontrou uma interlocutora, uma amante que é tratada, eufemisticamente, de outra forma: “Meu corpo sabe melhor / Do nosso abismo noturno / Amiga / Daquela noite comprida / Que poderia ser / Simplesmente dormida” são os versos da melancólica “Trem Do Interior”.

O tema da noite vem com tudo: estaria Ednardo falando da ditadura? Hipótese plausível. Um cabeludo nordestino perdido no Sudeste deve mesmo chamar muito a atenção, em tempos de AI-5. Captura, interrogatório, tortura – tudo isso é possível e, por essas lentes, “Alazão (Clarões)” adquire um contorno trágico, ainda que acene para uma esperança solar: “De qualquer jeito é cedo / De qualquer jeito há medo / De qualquer jeito / A força vem do braço / Ou da palavra sai / Corre / Toca o alazão, meu pai / Na poeira cinzenta, o sol / E o cavalo vai / Na poeira cinzenta, o sol / E o cavalo vai”.

A trilogia final do álbum traz uma sequência matadora, inaugurada pela versão de “A Palo Seco”, de Belchior – que, por alguns meses de 2005, escutava diariamente, embasbacado com a pegada rock que a balada do velho Bel tinha adquirido na releitura de Ednardo –, seguida de “Água Grande” e o grande desfecho com “Pavão Mysteriozo”.

A primeira das três atira várias pistas em direção ao ouvinte, com as chaves interpretativas para esse momento do disco. A principal dica está nos versos metalinguísticos (“Por conta desse destino / Um tango argentino me vai bem melhor que um blues” e “Mas quero é que esse canto / Torto, feito faca / Corte a carne de vocês”), indicando que o sujeito enunciador, agora, se estabeleceu: consegue compor, gritando em português seus versos cortantes.

Do trabalho, vem certo reconhecimento: uma nova viagem, uma nova oportunidade para o crescimento e o sucesso, agora para São Paulo – cidade mais cosmopolita que o Rio e ainda mais cruel com os retirantes. Esse é o tema de “Água Grande”, que abre com o espanto de se perceber atirado ao mais inóspito dos ambientes: “A primeira vez que eu vi São Paulo / Da primeira vez que eu vim, São Paulo / Fiquei um tempão parado / Fiquei um tempão parado / Esperando que o povo parasse / Esperando que o povo parasse / Enquanto apreciava a pressa da cidade / A praia de Iracema / Veio toda em minha mente / Me banhando da saudade / Me afogando na multidão / Eu vim, São Paulo / Se afogando na multidão / Eu vi São Paulo”.

No fim das contas, após um longo e tortuoso percurso, o herói de O romance do pavão mysteriozo é coroado com o sucesso, o voo: tornou-se um “pássaro formoso”, a desbravar os céus e a acumular histórias pra contar. Ao mesmo tempo, permanece o temor diante da ditadura (e repare, novamente, na palavra “noite”): “Pavão misterioso / Pássaro formoso / No escuro dessa noite / Me ajuda a cantar / Derrama essas faíscas / Despeja esse trovão / Desmancha isso tudo, oh! / Que não é certo não…”. Em outro momento, o receio de perecer nos porões da repressão é externado praticamente sem meias palavras: “Pavão misterioso / Nessa cauda / Aberta em leque / Me guarda moleque / De eterno brincar / Me poupa do vexame / De morrer tão moço / Muita coisa ainda / Quero olhar…”. E, afinal, a provocação: “Pavão misterioso / Pássaro formoso / Um conde raivoso / Não tarda a chegar / Não temas minha donzela / Nossa sorte nessa guerra / Eles são muitos / Mas não podem voar…”.

Linda a transmutação do carneiro em pavão… e clássico absoluto da canção brasileira.

ednardo.jpg
Ednardo: as agruras do artista popular numa vigorosa estreia solo – em plena noite da repressão.

O espírito do som – vol. 1 (2015) traz uma jovem Cássia Eller, em registros caseiros, ensaiando uma carreira artística. No conjunto de canções recuperadas das boas e velhas fitas cassete, uma bela e minimalista versão de “Ausência”. Aprecie:

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