339. Ivete Sangalo: “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim”

Meu coração, sem direção
Voando só por voar
Sem saber onde chegar
Sonhando em te encontrar
E as estrelas
Que hoje eu descobri
No seu olhar
As estrelas vão me guiar


Em 1999, meus domigos eram relativamente musicais, ao menos nas horas que rodeavam o almoço. Sintonizado na TV Cultura, sempre assistia ao excelente Bem Brasil, apresentado no Sesc Interlagos, com shows ao vivo que, muitas vezes, acabei gravando em VHS. E depois da refeição, o mesmo canal transmitia, diretamente da Rede Minas, o programa de variedades sonoras Alto-falante, exibido até hoje.

Num dia, talvez em 10 de outubro, o Alto abriu com a explicação de que, naquela edição, o programa lembraria Renato Russo (e chuto a data porque, sendo 11 de outubro uma segunda-feira, caberia homenagear o líder da Legião Urbana, morto havia três anos). Fã da banda de Brasília, corri para pegar uma fita com espaço para gravação e segurei o botão rec até o início da matéria.

A homenagem foi estruturada em duas partes. Na primeira, foram entrevistados diversos artistas, que discorreram sobre o legado de Renato e sobre o cenário da canção popular brasileira após sua ausência. A seguir, exibiu-se o videoclipe de “Angra Dos Reis”, um clássico da iconografia da banda, com fartas imagens de Renato e companhia nos arredores da famosa usina nuclear.

Não encontrei nenhum registro desse Alto-falante no YouTube, mas não faz mal: lembro do programa de cabeça.

Então, na parte das entrevistas, seguiram-se vários depoimentos, com uma edição esperta que os ilustrava com separatas de videoclipes de outros artistas, corroborando as falas dos entrevistados.

Roberto Frejat afirmou, meio genericamente, que a geração do BRock se diferenciava por, simplesmente, não vislumbrar o lucro fácil – o que era uma meia-verdade, considerando que, ainda naquele mês, a 89 revista rock publicava uma edição com o próprio Renato Russo na capa e aspas gigantescas: “Eu quero é grana!”.

89-revista-rock-legiao.jpg

Philippe Seabra, da Plebe Rude, foi mais específico. Antes da aparição de imagens do videoclipe de “Proteção”, do segundo álbum da banda (Nunca fomos tão brasileiros, 1987), o vocalista e guitarrista refletiu:

– Quando a Plebe começou, quando a Legião começou, quando os Paralamas começaram… a gente não sabia o que era mercado. Não havia sequer o conceito de mercado.

Prosseguiu o músico:

– Hoje, uma banda que tá começando já se imagina na televisão, já se imagina num videoclipe.

E vieram imagens dos rappers do Câmbio Negro, então, conhecendo a fama com “Esse É Meu País” – de fato, um exemplo de produção esmerada na elaboração de um vídeo musical. Mas a postura anti-sistema dos brasilienses (raríssimo caso de conjunto de hip-hop que, do Planalto Central, conheceu alguma fama para além das terras candangas) não merecia que sua música confirmasse o depoimento do rude plebeu, na minha opinião.

Seguiu-se a fala mais incisiva e polêmica, fazendo parecer que os líderes da Plebe e do Barão Vermelho, em seus relatos, estavam mesmo pisando em ovos. O crítico musical Luís Antônio Giron declarou:

– O que se vê na música brasileira hoje é de uma pobreza abissal. É algo meio primitivo, cheio de onomatopeias, uga-uga

E sua fala foi ilustrada com imagens da Banda Eva, então com uma jovem Ivete Sangalo à frente, cantando “Arerê”: “Arerê / Um lobby, um hobby, um love com / Você / Ê, ê”.

Finalizando a reportagem, o crítico reaparecia, apostando que aquela “má fase”, de nossa música, haveria de ser superada, já que nossa tradição musical sempre foi “muito rica” – “Pelo menos essa é minha esperança!”, ressalvava Giron.


Então, na ingenuidade de meus 14 anos, comprei esses discursos que, até certo ponto, podem ser considerados populistas. Afinal, é fácil afirmar que as novas gerações possuem um nefasto comprometimento com as forças do mercado, quando já se colhe os louros de uma carreira consolidada, não é mesmo?

E hoje penso novamente sobre a matéria em questão, cada vez que me flagro refletindo sobre o que ocorre com a canção popular atual.

Não quero, aqui – e como já fiz em outros posts – refletir detidamente sobre o assunto, pois me falta tempo, no momento, para sistematizar alguma posição a respeito.

Apenas chamo a atenção para um fato curioso: a mesma Ivete cuja imagem fora utilizada para confirmar o discurso acusador de um suposto primitivismo na produção musical de então, naquele mesmo 1999, estreava em carreira solo com o álbum Ivete Sangalo, puxado por… “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim”, obra composta pelo líder dos Paralamas do Sucesso, banda mencionada na fala de Philippe Seabra.

A canção (em que Herbert Vianna tomava Paulo Sérgio Valle como parceiro) era, afinal, lindíssima, maculando-se apenas por certa breguice açucarada no arranjo tocado por Ivete. E, anos mais tarde (2011), a cantora a registraria num DVD gravado ao lado de ninguém menos que Caetano e Gil – artistas que, considerando sua produção artística como um todo, sempre estiveram para muito além do primarismo do rock do Barão, da Plebe, dos Paralamas e da Legião.

A pequena anedota ilustra uma máxima bastante antiga: o mundo dá voltas, e uma análise ancorada em categorias estanques, apartada da história e focada na superfície dos fenômenos – exatamente como se apresentaram os depoimentos de Frejat, Seabra e Giron – corre o risco de ser rapidamente superada, soando caricata ou, simplesmente, ridícula.

ivete-sangalo.jpg
Ivete Sangalo: iniciando com o pé-direito uma carreira muito além do alegado primarismo da axé-music.

Existem infinitas versões para “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim”, e vou destacar apenas as gravações mais marcantes.

A primeira é a que aparece no mencionado Especial Ivete Gil Caetano, que traz a emocionante participação da plateia e um arranjo mais sóbrio e classudo, nesse interessante dueto entre a rainha do axé e Caê:

Mais tarde, “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim” repareceria num arranjo bossa-novista, no Acústico em Trancoso (2016). Vale a escuta:

A releitura do próprio autor, Herbert Vianna, apareceu em Victoria, álbum solo que o paralama lançou em 2012. Ali, a canção é conduzida num arranjo que é o exato oposto da versão de Ivete Sangalo: a passionalização exacerbada cede lugar a um contido dedilhado ao violão, que sustenta um registro vocal grave, beirando a tematização. Há seguidas modulações na harmonia, que quase obstaculizam o canto de Herbert, com seus reconhecidamente limitados dotes vocais. Não deixa de ser uma gravação linda, e que pode agradar mesmo aos fãs de Sangalo:

Por fim, destaco a versão do Biquíni Cavadão (que ganhou um post, aqui no blog, pouquíssimo visitado), em seu álbum de homenagem a Herbert, Ilustre guerreiro (2018). A banda de Bruno Gouveia – que foi, inclusive, batizada pelo líder dos Paralamas – faz de “Se Eu Não Te Amasse Assim” um inimaginável rock, com guitarras distorcidas, refrão pesado e tudo. Confesso que gosto! Confira:

2 comentários

    1. Sim, a crítica do Giron era ao axé e congêneres. É que, ao fazê-la, ele adotou uma postura bem mais agressiva e direta. O pessoal do BRock foi mais “político”, digamos.
      O tempo mostrou que ninguém estava exatamente correto ou errado. Mas, de fato, a canção brasileira dos meios hegemônicos se tornaria um amontoado de onomatopeias dali em diante.
      Grato pelo comentário.

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