340. Little Quail and the Mad Birds: “Família Que Briga Unida Permanece Unida”

Minha mãe me bate
O meu pai me espanca
Meu irmão mais velho
No quarto me tranca


A educação brasileira está sob ataque, e já há algum tempo.

As investidas sobre o território da formação humana se dão em duas frentes, ambas organizadas a partir do conceito de vigilância: o movimento em prol da chamada “escola sem partido”, que propõe um patrulhamento na esfera ideológica, de forma a evitar uma suposta doutrinação das crianças por parte dos mestres; e a proposta de institucionalização (se é que cabe essa palavra) da chamada educação domiciliar (ou homeschooling, como queiram), na tentativa de manter os educandos em casa, sob o argumento (entre outros) de que a escola é um contexto de violência. Vigilância da mente e do corpo.

Foi muito interessante propor a meus alunos de Políticas Educacionais que apresentassem um seminário sobre a tal educação em domicílio. Sem que eu mesmo os orientasse, os estudantes apresentaram os argumentos favoráveis e contrários à proposta, encerrando o seminário com um conjunto de informações objetivas e, infelizmente, indiscutíveis. Reproduzo abaixo dois gráficos por eles apresentados nesse momento:

dados-violencia-familiar

Os dados acima demolem a farsa de que o homeschooling se preocupa em resguardar os estudantes da violência física e simbólica supostamente imposta nas instituições escolares. Como se observa nas duas “pizzas” acima, as vítimas da violência infantil sofrem abusos, em cerca de 95% dos casos, por parte de seus familiares (pai/mãe, padrastro, avô, tio, familiares de 2º grau). Ainda, os abusos ocorrem, em quase 80% das situações, em ambientes… domésticos (e na escola em somente 4% dos casos).

Sim, o âmbito familiar pode – e geralmente é – muito violento. Até porque, convenhamos, é fácil tirar pai e mãe do sério. Mas essa violência “educativa”, digamos, é só a ponta do iceberg, e toda sorte de abusos podem ocorrer em casa. Ontem mesmo foram divulgados dados (não digo assustadores, pois já nos habituamos à barbárie) sobre o crime de estupro, atestando que a cada 20 minutos uma menina é estuprada no Brasil. Ao que parece, em mais de 40% dos casos, o abuso ocorre na própria residência da vítima.

Quem fala, aqui, não é um esquerdista que deseja o fim da família (e da tradição, da propriedade privada, etc.). Amo o lar em que fui criado e posso dizer que, se recebi um tesouro ao encarnar, foi o maravilhoso conjunto de pessoas que me aceitou como filho, neto, sobrinho, primo. Apesar da historicidade da instituição familiar (como o bem mostrou Engels em A origem da família, da propriedade privada e do Estado), penso que tudo seria mais fácil se todos tivessem nascido num lar assim, não importando sob qual arranjo familiar.

Mas é inegável que a família também é o espaço, por excelência, para a reprodução do senso comum – que pode ser cruel e desumanizante, em muitos casos; e posso falar com a autoridade de quem foi criado de forma a naturalizar, por exemplo, a homofobia e até certo grau de racismo… e que sacrifício é, ao crescer, despir-se dos preconceitos!

Enfim, há coisas esquisitas no terreno familiar. Os Titãs já haviam notado isso no fantástico Cabeça dinossauro (1986), justamente em “Família”. Mas a canção é ambígua: ao cantar os versos “Mas quando a filha quer fugir de casa / Precisa descolar um ganha pão / Filha de família se não casa / Papai, mamãe não dão nenhum tostão”, Nando Reis pode tanto estar denunciando o ridículo desse tipo de organização humana (ainda baseada no patriarcado), quanto se divertindo a respeito de algo tão inaceitavelmente disparatado, a essa altura da história da humanidade.

Foi uma (injustamente) esquecida banda de Brasília, o Little Quail and the Mard Birds, quase uma década mais tarde, quem daria forma a uma crítica mais contundente sobre o ambiente familiar – sem perder o humor, mas também sem quedar tão em cima do muro. Em “Família Que Briga Unida Permanece Unida”, o vocalista e guitarrista Gabriel Thomaz (que recebeu mais reconhecimento à frente de seu Autoramas, tratado aqui) narra a vida infernal de um “irmão mais novo”, numa dinâmica familiar movida a chutes e pontapés: “Lá em casa a porrada rola solta / Irmão mais novo apanha por nada / É só fazer qualquer coisinha / Que toma logo na cabeça umas porrada”.

A canção é uma espécie de punk blues e faz refletir, ao mesmo tempo em que diverte, com o pegajoso refrão (que transcrevi na epígrafe do post). Vale notar que outra banda, o Sex Noise, trataria do mesmo tema numa faixa relativamente bem conhecida no circuito punk dos anos 1990 – o mesmo contexto que deu suporte à curta existência do Little Quail, que durou entre 1988 e 1997: “Franzino Costela”. Os versos “Meu pai me batia com vara de vergalhão, vara de araçá e cabo de vassoura / Eu apanhava todo dia! / Minha mãe me batia com vara de vergalhão, vara de araçá e cabo de vassoura / Eu apanhava todo dia! / Um dia fiquei cansado de tudo e fui pra casa da minha vó / E ela me bateu com vara de vergalhão, vara de araçá e cabo de vassoura / Eu apanhei a vida inteira!” podem até soar engraçados, mas são seríssimos, a foram difundidos pela releitura que os Inocentes propuseram para a canção, em O barulho dos Inocentes (2000):

Enfim, o tema é importante, afronta a sabedoria popular, incomoda muita gente poderosa e, certamente, fará qualquer leitor deste post pensar em seus anos de criança.


Sobre o Little Quail, só posso dizer que o álbum em que consta nosso tema de hoje, Lírou Quêiol en de Méd Bârds (1994), é um clássico do rock alternativo noventista, e traz muitos outros atrativos. (Curiosidade: a bolachinha foi lançada pelo selo Banguela, dos mencionados Titãs).

A sonzeira é simplesmente punk mas, como o exemplo de “Família Que Briga Unida…” deu a entender, há nuances: “Aquela” (que seria gravada pelos Raimundos no derradeiro álbum com Rodolfo Abrantes, Só no forévis, de 1999) é quase pop, há hardcores genialmente tolos (como a divertida “Silly Billy” e o clássico supremo “1, 2, 3, 4”, com sua letra poliglota: “Um, dois, três, quatro / Não tem cinco / Não tem seis / Parou no quatro / Um, dois, três, quatro / One, two, three, four / Un, deux, troi, quatre / Ichi, ni, san, shi / Eine, zwei, drei, vier“), ska (“Mamma Mia”) e punkabilly (“Essa Menina”, “Azarar Na W3”).

O disco traz também zoeiras impagáveis (tente ficar indiferente à “Sex Song”) e uma inacreditável versão punk para o “Samba Do Arnesto” de Adoniran Barbosa.

Para ouvir em família!

little-quail-and-the-mad-birds.jpg
Little Quail and the Mad Birds: sonzeira punk noventista afrontando o senso comum.

Gabriel Thomaz divulgou faixas da primeira demo “oficial” do Little Quail, de 1992. Não deixe de escutar a primeira versão de “Família Que Briga Unida…”:

E, no mesmo lançamento, uma tosquíssima gravação ao vivo:

2 comentários

  1. Coincidentemente estou vivendo um dos piores momentos com minha mãe,até parece que teve momento fácil;e com meu pai,que já se foi,também era muito difícil,mas é tudo muito lindo.
    Faltou o grupo citar a vara de amora,esta eu conheço muito bem.

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    1. Pelo jeito deve conhecer mesmo! Eu já estava bem arrumado com as boas e velhas cintas. Fui uma criança levada o suficiente para levar surra até da avó.
      Grato pelo comentário e, de coraão, que esse momento ruim com a mãe passe logo.

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