341. Hyldon: “Eleonora”

Fruta do pomar
Violeta do jardim de rosas
Tarde de abril
Linda entre nuvens ciganas


Em 1996, o Kid Abelha ocupou as FMs pra valer, com “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda (Casinha De Sapê)”. Gostava muito de escutar aquela cadência do reggae, mas nem desconfiava que o novo hit de Paula Toller e companhia pertencesse a outro autor.

Pois um dia, sintonizando na mesma estação, a canção apareceu com uma sonoridade antiga, cantada por uma voz meio preguiçosa. Corri pra contar o achado ao meu velho:

– Pai, tocou aquela música do Kid Abelha, mas com outro cantor!

– Ah, sim, deve ser o Hyldon. A música é dele, na verdade.

E fiquei encantado com a descoberta, pensando que nunca mais teria a oportunidade de escutar a versão original da cativante canção. Mas, logo no ano seguinte, ganhei uma coletânea de sucessos dos anos 1970 que, entre as faixas finais, trazia o tal Hyldon com, justamente, “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda (Casinha De Sapê)” (e a antologia coligia outras canções que abordei aqui: “Gîtâ” e “Aquele Abraço”). Ouvi a faixa repetidíssimas vezes.

Na virada para 2001, comprei um CD que apanhava diversos números ao vivo tocados no festival Pop Rock Brasil 2001. O disquinho me surpreendeu: a qualidade de gravação era excelente e, ali, constavam muitas raridades. Dê um conferes:

pop-rock-brasil.jpg
Quase todos os registros eram raros, e alguns assim permanecem até hoje. As versões acústicas de “Bichos Escrotos” e “Wonderwall” constam apenas nesse disco. Até então, somente “Núcleo Base” e “Garota Nacional” haviam recebido gravações ao vivo, nas respectivas discografias das bandas, e em versões quase idênticas às que constam nessa coletânea. “Astronauta De Mármore” e “Pra Ser Sincero” já tinham recebido releituras ao vivo oficiais; coincidentemente, as duas eram acústicas, e aqui ressurgiam em registros elétricos, matadores e, diria, definitivos. “Sobre O Tempo” seria gravada ao vivo oficialmente em duas ocasiões, mas ambas com arranjos diferentes do original, que era reproduzido na versão desse simpático CD.

Como se vê na imagem, a faixa 7 era “As Dores Do Mundo”, tocada pelo Jota Quest. E essa foi, então, a segunda canção que conheci de Hyldon.

Eu demoraria muitos anos para conhecer outras obras do cantor soteropolitano, quase todas do álbum de onde provinham as duas primeiras canções que escutei de sua lavra. Afinal, Na rua, na chuva, na fazenda (1975) é nada menos que um discaço, e se basta.

Tanto que estou há semanas planejando este post sobre Hyldon, sem conseguir escolher algum destaque desse belo e subestimado LP. Gostaria, por exemplo, de ter tomado a própria faixa-título como tema, tentando comentar algo sobre sua curiosa harmonia, e sobre o famoso riff do “tchu-tchuru-tchu” – que, refletindo o percurso narrativo da letra, acumula uma tensão sobre o acorde de B♭Maj7, dissipada lindamente no retorno ao acorde da tonalidade, Ré Maior. Mas pensei que alguma faixa menos conhecida mereceria ganhar mais destaque, aqui.

É certo que há outros clássicos, no álbum, para além de “Na Rua, Na Chuva…” e “As Dores Do Mundo”. “Na Sombra De Uma Árvore” e “Vamos Passear De Bicicleta” (uma de minhas favoritas, já que sou um ciclista convicto, da terceira geração de “pedalantes” entre os Mori) chegaram a ganhar algum reconhecimento, e foram bastante regravadas.

Gosto muito, também, da dinâmica e, principalmente, da guitarra (em timbre e levada) na metalinguística “Guitarras, Violinos E Instrumentos De Samba”. Samuel Rosa, em “Do Ben” (de Siderado, disco do Skank lançado em 1998), assim elogiava os dotes rítmicos de Jorge Ben Jor: “Sua mão direita vale ouro”. Ao escutar a faixa de abertura do álbum de Hyldon, pensei comigo: “Jorge tem um rival à altura!”

Adoro também a pegada rocker, épica e, quem diria, soturna – quase à Black Sabbath das antigas, fosse embalado mais por guitarras do que por cordas –, de “Quando A Noite Vem”. Aqui, brilha não apenas o compositor, mas também o conjunto que o acompanha, o excelente Azymuth. O destaque mesmo fica para o baixo de Alex Malheiros, em primeiro plano aqui e nas demais faixas, para deleite do ouvinte.

No fim das contas, vou escolher “Eleonora” como faixa de hoje – é sério, cheguei até aqui sem ter me decidido! –, que soa como uma linda e plácida contemplação hippie. A faixa é puro deleite e desejo de comunhão com a natureza, tomada como personagem principal (e representada por diversos de seus elementos: frutas, flores, mar, vento, astros e o indefectível beija-flor – por sinal, dono da ação em outras canções já tomadas aqui, como esta, esta, esta e esta). O andamento é cadenciado, sossegado, mas sem sugerir qualquer procedimento melódico que indique passionalização. Afinal, estamos no território do /ser/, imperando a tematização.

Quanto à letra, gosto muito da resolução do sujeito enunciador em “Esquecer as coisas tristes / E viver deveras esse amor”. Noto também uma menção a “nuvens ciganas” – seria uma referência à “Nuvem Cigana” de Lô Borges, que Milton Nascimento cantou em Clube da esquina (1972)? E além dessa possível referência, considero que “Eleonora” poderia, tranquilamente, se passar por uma obra de Tim Maia em sua fase “racional”, como “Imunização Racional (Que Beleza)”.

Infelizmente, Hyldon, também um soulman de primeira, ainda não é tão valorizado quanto aquele inesquecível Sebastião – embora, ao contrário dele, tenha sobrevivido aos anos 1990, continuando na ativa até hoje.

Bom, sempre é tempo.

hydon.jpg
Hyldon: no soul e no balanço samba-rock (entre uma psicodelia e outra), aguardando o merecido reconhecimento.

Em Na rua, na chuva, na fazenda – a origem (2015), Hyldon relê, despojadamente ao violão, o repertório de seu álbum de estreia. Ali, “Eleonora” aparece lindíssima (para escutar, desloque-se para o instante 2’41”):


E é impressão minha ou “Hora Do Mergulho”, que abre o disco Simples de coração (1995), dos Engenheiros do Hawaii, foi inspirada em “Eleonora”? Tire a prova:

4 comentários

  1. De Hyldon eu lembro bem de ”Casinha de Sapê”,a música com nome de mulher eu desconhecia,e,sim,tem uma levada parecida com a dos Engenheiros do Havaii.

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    1. Outra coincidência enorme: nunca tinha escutado nenhum DJ botar um Hyldon pra tocar (sem ser “Na Chuva…”), e aconteceu isso nesta exata semana. Foi “As Dores Do Mundo”. Gostei tanto que fui até agradecer ao moço.

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