342. Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene: “Peixinhos Do Mar”

Vento que vem de Lisboa
Vento que vem pelo mar
Laço de fita amarela
Na ponta da vela
No meio do mar


Há alguns dias, falei aqui de Baco Exu do Blues, sem problematizar a alcunha escolhida pelo artista: afinal, permeando seus raps, há algo de… blues?

A resposta é sim e não. Explicitamente, há apenas uma ou outra passagem que, forçando um pouco a barra, podemos associar ao som negro que foi elaborado ao sul dos Estados Unidos, na produção cancional do rapper baiano. Por outro lado, sendo Baco Exu do Blues, justamente, rapper e baiano… tudo o que ele faz é blues.

Isso porque a palavra “blues” pode significar muitas coisas. Em sentido restrito, se refere à música que, cancional ou não, calca sua organização melódico-harmônica ao redor de uma pequena nota que, somada à escala pentatônica, acresce a ela também um ar de tristeza, de lentidão, de disjunção: é a chamada blue note.

Mas, em sentido amplo, blues é toda música negra que tem como origem o lamento, falando (direta ou indiretamente) da triste sina que é carregar o mundo nas costas, literalmente, sem receber o devido reconhecimento por esse enorme sacrifício. Assim sendo, blues é rap (também), e muitas outras coisas.

Em Dente de ouro (1996), o pessoal do Blues Etílicos parece ter sacado isso, propondo uma releitura impressionante para uma velha cantiga de roda de capoeira, a própria “Dente De Ouro”. Entre um fraseado na gaita e outro, e tomando como base a cadência rítmica do berimbau, a banda carioca colocou, na boca do povo, um bocado de história do povo negro brasileiro.

No mesmo ano, o soteropolitano Dinho Nascimento lançou Berimbau blues, álbum que explora ao extremo a proposta incorporada pelo Blues Etílicos. Fiquei sabendo dessa obra muito tempo mais tarde, em 2011, durante os estudos e práticas da disciplina Fundamentos da Capoeira, que cursei na Universidade Federal de São Carlos.

Em 2012, por feliz coincidência – e estando muito envolvido com a música afro-brasileira –, não hesitei em ir para Araraquara assim que soube que Dinho faria um espetáculo com a Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene, que lançara em 2010 o álbum Sinfonia de arame, em que atuou como regente.

Não tenho palavras para descrever o espetáculo que presenciei – junto dos amigos do Sankofa Capoeira, que tive a felicidade de trombar lá –, naquele começo de noite de agosto (ou setembro?). Fiquei emocionadíssimo com a forma como Dinho, de fato, conseguia organizar o som inerentemente desafinado do instrumento (afinal, proposto para a música modal) para sustentar belas melodias, entoadas por todos os músicos.

Na confluência de gungas, berra-bois e violinhas, ficava evidente que, se a capoeira é jogo e luta ao mesmo tempo, a música também o é: em resumo, trata-se da boa e velha dialética (ou luta?) entre pulso e altura, tão maravilhosamente embaralhados nas canções escutei naquele momento.

Uma das obras que mais me emocionou, ali, foi “Peixinhos Do Mar”, conhecida por ter sido gravada por Milton Nascimento, a partir de uma elaboração de Tavinho Moura sobre um tema do domínio público. No arranjo da Orquestra de Berimbaus, pareciam delimitar-se dois conjuntos de vozes conduzindo a canção: os portugueses de além-mar, com suas armas de pólvora; e a resistência afro(brasileira), desprovida de outros recursos para além dos corpos (dos) guerreiros. Mas, ao final, o tema adquire um tom festivo, celebrando essa grande síntese afro-europeia que é nosso povo.

E não deixe de escutar todo o restante de Sinfonia de arame, com destaque para a linda e emocionante releitura de “Aquarela Do Brasil”.

orquestra-de-berimbaus-do-morro-do-querosene.jpg
Dinho Nascimento à frente da Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene: jogo de música lutada.

A mencionada versão de Milton Nascimento aparece em Sentinela (1980), e é obrigatória! Na ficha técnica, o grupo Uakti e seus intrumentos de fabricação própria, o violonista Hélio Delmiro regendo o coro, e o próprio Tavinho Moura, cantando e tocando violão. Ouça:

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