344. Di Melo: “Conformópolis”

A cidade acorda e sai pra trabalhar
Na mesma rotina, no mesmo lugar
Ela então concorda que tem que parar
Ela não discorda que tem que mudar
Mas ela recorda que tem que lutar


Conheci Di Melo tocando uma canção sua – coisa que não posso afirmar de nenhum outro artista. Era a comemoração pós-defesa de mestrado do parça Seo Jorge e eu estava ali de passagem, pois o dia seguinte seria meu primeiro sábado num novo emprego, naquele tumultuado 2014. Em certo momento, meu violão mudou de mãos, e acabei agarrando um pandeiro. Um colega do mestre recém-defendido, moço que cheguei a ver mais uma vez, puxou um som muito bacana, cujo refrão falava em “quilariô”. Sem fazer samba, apenas uma batida que lembrasse vagamente um balanço soul-funk, fui acompanhando o violonista. Ao final, acabei esquecendo de perguntar de quem era o número que acabáramos de tocar.

Algumas semanas depois, trombei o som de Di Melo por acaso, talvez escutando uma playlist de Cristiane, não sei bem. E reconheci a marcante canção, “Kilariô”, desse cantor pernambucano que, após anos de ostracismo, voltava a ser lembrado massivamente.

Foi bem depois que acabei escutando o clássico álbum de onde provinha “Kilariô” (a faixa de abertura), Di melo (1975). E, esperando encontrar ali outras obras semelhantes – como a quase histérica “A Vida Em Seus Métodos Diz Calma” e o balanço samba-rock de “Pernalonga” –, acabei me deparando com muitas surpresas.

A primeira delas foi a terceira faixa, “Aceito Tudo”, que a Julia gostaria que eu tematizasse. Sim, daria pra falar algo sobre a curiosa canção, que tem um desenvolvimento imprevisível e, inicialmente, se baseia em versos praticamente recitados por Di Melo. Gostaria, inclusive, se relacionar a sequência de notas que o baixo percorre, nesse começo da faixa, com o desenho cromático que Baden Powell incorporou à harmonia de um dos mais famosos afro-sambas que compôs com Vinícius de Moraes, “Canto De Ossanha”. O colega blogueiro Túlio Villaça explorou as implicações desse desenho harmônico inusitado, num post maravilhoso, dizendo que

no Canto de Ossanha, a substituição do acorde dominante gera uma sequência de acordes suspensos em sétima descendo em meios tons, formações harmônicas que nos induzem ao modalismo, ou seja, o uso de uma escala diversa das escalas maior ou menor, preponderantes na música ocidental, mas comuns na chamada música folclórica, como também nas diversas culturas não européias – africana inclusive.

E, a seguir, o escritor, explorando essa vinculação da obra não aos canônes da organização melódico-harmônico-lírica da música ocidental, mas uma ordem musical diversa, afirma que disso decorre

um pensamento diverso – não apenas uma estética, mas uma ética diversa, que se reflete nas letras de Vinícius, e que é muito menos distante de nossa realidade do que podemos supor […].

Enfim, penso que esse é um começo de conversa para se interpretar “Aceito Tudo”.

Mas outra faixa de Di Melo me impactou mais que ela, justamente a seguinte, “Conformópolis”, composta por Waldir Wanderley da Fonseca. A letra é composta por apenas três estrofes, com cinco versos cada, e vale a pena repassarmos uma por uma.

A primeira está reproduzida na epígrafe deste post, e deixa claro (como se o título já não deixasse) que o tema da canção será a rotina de uma grande cidade.

Já a segunda estrofe trata de especificar que não é de qualquer metrópole que estamos falando: é da própria São Paulo. Pois observe os versos: “Condução lotada, apertada, de pé / A cidade desce no Largo da Sé / Mecanicamente ela mostra ter fé / Na proximidade de um dia qualquer / E na Liberdade ela toma um café”. Ah, triste sina a dos paulistanos! Encontrar a sonhada Liberdade apenas quando se desce uma estação antes (ou depois, dependendo da origem) da Sé, na Linha 1 – Azul do metrô! Mais triste ainda é reparar que tais versos, do início dos anos 1970, parecem descrever precisamente a realidade dos dias atuais: até hoje, quem desce na Sé precisa sofrer espremido no coletivo, diariamente. Até hoje! E até quando?

Por fim, a estrofe derradeira gera um impacto para o qual o ouvinte não está preparado: “Escritório, chefe, o cartão pra marcar / O magro sanduíche engolido num bar / Ela então desperta, ela tenta gritar / Contra o que lhe aperta e que lhe faz calar / Mas ela deserta começa a chorar”. É o ponto alto da dramaticidade: a própria cidade percebendo o absurdo que (a) enreda e ensaiando, até, alguma reação – logo sufocada pela necessidade de se manter as engrenagens rodando. O que nos remete ao enunciador de “Cotidiano”, de Chico Buarque, que também desperta, como a cidade-personagem de “Conformópolis”, só para aperceber, num átimo, que a luta é vã: “Todo dia eu só penso em poder parar / Meio-dia eu só penso em dizer não / Depois penso na vida pra levar / E me calo com a boca de feijão”.

O interessante da faixa é o enquadramento formal da canção. Se em “Cotidiano” Chico escolheu um procedimento relativamente simples de repetição temática – empregando espertamente dois acordes diminutos para, entre as estrofes, impor ao ouvinte uma crescente sensação de incômodo e de absurdo sartriano, essencial para a captação da mensagem política da canção e do disco que a abriga, Construção (1971) –, Di Melo se vale de um expediente diverso: ele se ancora no gênero.

Pois “Conformópolis” não é um samba, não é um soul, não é um rock (gêneros em que cabem conteúdos eufóricos ou disfóricos, a depender de outras variáveis): é uma milonga. Ou melhor, um tango milongado. A partir dessa escolha estilística, o cancionista consegue circunscrever mais facilmente a processo de produção ativa de significados por parte do ouvinte. Melhor dizendo, esse processo é, assim, restringido, sendo conduzido pelo próprio cancionista: a tragédia – implicada na tensão inerente ao gênero – é inevitável.

Enfim, a “Conformópolis” de Di Melo é em tudo oposta à “Anarkilópolis” de Raul Seixas. Lançada postumamente na coletânea Anarkilópolis (2003), a obra que teria originado o hit “Cowboy Fora-Da-Lei” é, também, uma “canção de gênero” – se assim podemos chamá-la –, que se vale do clima de um saloon para falar uma cidade que é, ela própria, fora-da-lei:

“Conformópolis” ou “Anarkilópolis”… em qual você preferiria viver?

Voltando a “Conformópolis”, destaco ainda, na canção, a participação de um bandaneon, que desenha lindos fraseados entre os versos. Ao menos uma dessas frases foi chupada de um clássico do tango, “Adiós Nonino”, de Astor Piazzolla. Curiosamente, as citações a Piazzolla retornam em outra faixa de Di Melo, essa, um tango legítimo: “Semente”.

Com efeito, o próprio Di Melo relata que, na gravação do álbum (com a participação de Hermeto Pascoal), apareceu esse músico argentino que, segundo consta, tocava com o célebre bandaneonista. Ao que parece, o nome do instrumentista se perdeu, pois ninguém que participou da gravação se lembra dele.

Mais um álbum clássico no 365 Canções Brasileiras, que se prepara para a despedida.

di-melo.jpg
Di Melo: dono de um dos mais bacanas discos setentistas da canção brasileira, felizmente, em processo de redescoberta.

O pessoal do coletivo Comando Selva 22 – juntando Dropê Comando Selva, Lepô Selva, Big Papo Reto, MV Hemp, Rico Neurótico e Bocão13 – trabalhou um rap espertíssimo em cima “Conformópolis”. O videoclipe é muito bem produzido e a faixa integra o álbum Entre nós – lado B (2017). (Curiosa e coincidentemente, o álbum contém a faixa “Pergunte Ao Seu Orixá”, produzida sobre o “Canto De Ossanha”, mencionado neste post). Veja:


A curiosidade fica por conta da faixa “Conformopolis”, dos franceses Clay And Friends. Apesar de a faixa aparentemente não se relacionar à canção homônima de Di Melo, sua introdução em tudo se parece com a introdução de “Aceito Tudo”, também mencionada neste post. Compare o som estrangeiro…

…com o brazuca:

3 comentários

    1. Essa redescoberta do Di Melo, que é geral, ainda vai render muita coisa boa, tenho certeza. Tem muitas boas canções, ali, que podem ser regravadas pela nova geração de cancionistas.
      Grato pelo comentário.

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