345. Cérebro Eletrônico: “Os Astronautas”

Os astronautas
Foram subindo
Pro espaço Astral
Subindo, subindo, subindo
Pro alto, pro espaço
Subindo, subindo, subindo
E acabou o oxigênio
Eles lá se remoendo
Descendo


Acabei de ter uma conversa com um motorista de aplicativo, altamente filosófica. A certa altura, o moço disse confiar que, ao terceirizarmos nossas funções psíquicas para os aparelhos celulares, estamos caminhando para uma vida mais burra.

É interessante notar que, no caminho, eu já vinha pensando na escrita deste post, que deveria tratar do Cérebro Eletrônico. Banda que retirou seu nome de uma excelente canção (e álbum) de Gil, cuja letra parece descrever exatamente o cenário previsto pelo parceiro ao volante: “O cérebro eletrônico faz tudo / Quase tudo / Quase tudo / Mas ele é mudo / O cérebro eletrônico comanda / Manda e desmanda / Ele é quem manda / Mas ele não anda / Só eu posso pensar / Se Deus existe, só eu / Só eu posso chorar quando estou triste / Só eu / Eu cá com meus botões de carne e osso / Eu falo e ouço”.

Quanto à banda, a conheci no 2º Festival Contato, em frente ao Mercado Municipal de São Carlos. A tarde estava levemente nublada, tinha a companhia de dois irmãos (Scooby e Brunão) e, aos poucos, fui encontrando alguns conhecidos. Algumas garotas, muito jovens (muito mesmo), se aproximaram e puxaram conversa. Não esqueço o diálogo até hoje:

– Essa aqui é minha amiga Sofia.

– “Sabedoria” em grego – digo olhando para a garota –, você sabia?

– Sim, sabia! Você é legal.

Dali a pouco, sobe ao palco essa curiosa banda. Gostei do som, pulei, dancei um pouco. Os rapazes acabavam de lançar Pareço moderno (2008) e, portanto, a maioria das canções era desconhecida da plateia.

Me amarrei mesmo em “Os Astronautas”, que parecia engraçada, muito psicodélica, algo ingênua também. Mais tarde, foi uma enorme surpresa descobrir que a canção fora composta e gravada em parceria com André Abujamra (os créditos da banda cabem ao guitarrista Fernando Maranho, ao baterista Gustavo Souza e ao vocalista Tatá Aeroplano). Na faixa, André encarna o próprio coisa-ruim! Imperdível.

Outra “coincidência” a ser compartilhada é esta: ao propor o post sobre “Os Astronautas”, pensei em duas referências, “Os Alquimistas Estão Chegando Os Alquimistas”, de Jorge Ben (cujos versos “Os alquimistas estão chegando / Estão chegando os alquimistas” sempre me vêm à mente quando escuto o início da letra de Tatá e de Abujamra, disposta na epígrafe do post); e no Júpiter Maçã, representante de uma vertente psicodélica mais contemporânea (e de quem já falamos aqui), continuada com a música do Cérebro.

Pois a canção que se segue a “Os Astronautas”, em Pareço moderno, é uma bossa psicodelíssima justamente de Flávio Basso (o próprio Júpiter), “Talentoso”. Soa como homenagem/desafio ao “Desafinado” de João Gilberto (mencionado na letra – assim como Sérgio Sampaio é mencionado na faixa de abertura do álbum, “Pareço Moderno”, e em seu encerramento, com a explícita “Sérgio Sampaio, Volta”). Ou melhor, soa como se o próprio pai da bossa-nova tivesse se jogado pra valer num balde de ácido, e corrido ao violão.

Enfim, entre boas e ótimas referências, Pareço moderno é um discaço, grande clássico do rock dos anos 2000. Explore para além de “Os Astronautas”, aquela canção que me fez prestar atenção no Cérebro Eletrônico – e hoje, me faz pensar na falta que uma banda dessas nos faz.

cerebro-eletronico.jpg
Cérebro Eletrônico: rock e psicodelia pós-tropicalista, ancorada em excelentes referências.

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