346. Renato Milagres: “Lendas Da Mata”

O saci rodopiou
Ventania na palhoça
Sinhazinha bambeou
Deu mironga lá na roça


Renato Milagres faz parte de uma nova geração de sambistas, que segue mantendo aquecido o mais brasileiro dos ritmos.

Seu álbum de estreia, Ofício sambista (2017), alinha 12 faixas de compositores bastante presentes nas boas rodas, embora o público em geral nem sempre os (re)conheça.

A faixa de abertura, por exemplo, é “Alma Boêmia”, um dos grandes hits de Toninho Geraes (e é também a primeira canção que conheci do sambista, de quem já falei aqui), gravada recentemente por Diogo Nogueira – todos bambas contemporâneos. Já a faixa seguinte, “Cuca Quente”, escutei pela primeira vez na voz de Zeca Pagodinho, pois consta também em Vida da minha vida (2010). E, falando em Zeca, um detalhe que não deve ser negligenciado: Renato é simplesmente seu sobrinho.

Então é isso: com um sangue (samba?) nobre na veias, o cantor mantém um pé na tradição do Cacique de Ramos, mas com o compromisso de olhar sempre adiante, fortalecendo essa enorme comunidade de bambas, quase anônimos, que vem compondo com regularidade e muita paixão.

Conheci o álbum de Renato logo que foi lançado, pois fui tocado por uma de suas faixas mais fortes, “Lendas Da Mata”. Da lavra de outro nome que vem se estabelecendo junto a uma nova geração de compositores, João Martins – e composta em parceria com Raul diCaprio –, a canção chama a atenção pela forma como concentra energias: primeiro, com a evocação de um ponto ao orixá das matas (“Quem manda na mata é Oxóssi / Oxóssi é caçador / Oxóssi é caçador”); depois, expondo uma narrativa que exalta o sincretismo espiritualista brasileiro.

Não cogitava abordar o tema de Renato hoje, pois estava com outras ideias na cabeça. Mas uma coincidência (de novo) me levou a repensar o post: no mesmo dia em que pipocaram matérias, na grande imprensa, sobre as “heresias” cometidas pelo Porta dos Fundos em seu recentíssimo especial de Natal, me flagrei pensando sobre um antigo trabalho que escrevi com os parceiros Luiz e Spina, da Universidade Federal de São Carlos, relatando uma intervenção que apresentou movimentos da capoeira a karatekas, na academia onde treinei a luta de Okinawa. Entre uma gota de chuva e outra, depois do café da tarde, percebi que fôramos mesmo ousados, pois se as lutas japonesas simplesmente existem, a capoeira resiste.

Isso se relacionava à questão do especial do Porta, na medida em que os comediantes estão sendo atacados por satirizarem o cristianismo – num país majoritariamente cristão –, em vez de tomarem como objeto de zombaria, por exemplo, a espiritualidade de matriz afro. Mas as religiões, e tudo o mais que diz respeito à cultura afro-brasileira, simplesmente não participam do discurso hegemônico. Pelo contrário, são justamente o alvo preferencial de quem defende o status quo, lutando diariamente não para se propagar, mas para continuar existindo.

Pensando nessas relações, concluí que nosso trabalho de explicitar as similaridades biomecânicas entre movimentos das duas lutas (os chutes martelo e mawashi-geri, por exemplo) foi uma iniciativa, ainda que pontual, relevante e memorável. (E, para coroar a coincidência como uma legítima sincronicidade, eis que, instantes antes que eu mencionasse o trabalho com os amigos da UFSCar aqui no post, recebi um alerta de atualização de meu perfil no Google Scholar, sugerindo justamente a inclusão daquele texto! De arrepiar, não?).

Pois “Lendas Da Mata” sempre me induz a refletir sobre os temas que permeiam essas questões. A canção traz não apenas Oxóssi caçando nas matas, mas fala também dos caboclos com suas pajelanças e cultos na/da floresta, como a Jurema Sagrada, e acrescenta ainda uma boa dose de superstições (o lobisomem que uiva à lua) e folclore (o saci-pererê).

Ou seja, Renato canta tudo aquilo que compõe o saber popular difuso na vida do brasileiro, com suas idolatrias e mistificações, mas que vive a revelar sua (ao menos aparente) eficácia. Afinal, quem nunca fez uma simpatia?

E o interessante é observar que, não obstante sua participação no dia-a-dia de milhões de pessoas, esses saberes entram em franco conflito com a religiosidade cristã, que oficialmente desestimula um contato imediato do fiel com o poder de Deus – sem contar que as escrituras sagradas não recomendam que se repare em outras entidades que não sejam os anjos do Senhor.

Mas, sem se aperceber desse enorme sincretismo na vida cotidiana, e dessas práticas mágicas reproduzidas quase diariamente, o tal cidadão-de-bem ataca um canal humorístico apenas por considerar que ele macula a sacralidade de seu ídolo. Haja contradição!

Daí a importância de alguém como Renato Milagres, um artista do povo cantando para o povo, em fazer ecoar o nome de um orixá, ou de uma criatura folclórica, numa grande reunião comunitária, como o são as rodas de samba. Ora, é mesmo preciso conscientizar a população sobre nossa formação social híbrida, compósita, irremediavelmente mestiça, explicitando os conteúdos do cotidiano que religuem, exatamente essas massas, às suas origens históricas.

Seria um passo importantíssimo, numa frente de luta mais ampla, para superarmos o fanatismo religioso que acomete boa parte de nosso povo – impedido de captar a conveniência desse discurso, centralizador e dogmático, para os dominantes.

renato-milagres.jpg
Renato Milagres: entre um bom pagode e outro, explicitando os conteúdos contra-hegemônicos difusos na sabedoria popular.

A versão do autor, João Martins, é também interessante. O arranjo, cheio de floreios na flauta, me agrada bastante. É que o registro de Renato Milagres é simplesmente mais enérgico, o que faz toda a diferença numa canção que abre com um ponto de umbanda – afinal, o que é da gira sem o axé? Mas é difícil escolher entre uma versão e outra. Pois confira o registro de Martins em Juízo que dá samba (2008):

A gravação ao vivo, conforme a execução de Martins em Samba Social Clube nova geração (2016)acrescenta um pouco dessa pegada pesada à canção. Bacana é a plateia, ao final, acompanhando o ponto a Oxóssi:

Aline Calixto – que deve ter uma ligação muito forte com o orixá, tendo sido tematizada, aqui no blog, justamente com “Oxóssi” – também releu “Lendas Da Mata”, em Meu ziriguidum (2015). Outra boa versão, mas ainda mais cadenciada que a original de João Martins. Com um pouco de esforço, lembra (de leve) a saudosa Clara Nunes. Confira:

4 comentários

  1. Minha mãe (ex-espírita e católica praticante) sempre disse que Jesus era gay (pelo fato de não ter casado,rs) – Eu,pessoalmente não vejo demérito nenhum em um Jesus homossexual,as pessoas confundem homossexualidade com promiscuidade,prostituição etc.

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    1. Pois é, esse Jesus era tudo o que os “cidadãos-de-bem” não gostam: andava com prostitutas e leprosos, os pobre em geral, e ficava pra lá e pra cá com 12 moços, sem nunca ter se casado (e isso depois dos 30).
      O engraçado é que sugerir a homossexualidade de Cristo soa como blasfêmia para essa turma (embora a Bíblia nada diga a respeito, deixando a questão em aberto), mas representá-lo como um loiro de olhos azuis (coisa que um homem mediterrâneo dificilmente seria) não incomoda ninguém!
      Mas, o que importa mesmo é a mensagem do mestre.
      Grato pelo comentário.

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