347. O Terço: “Volte Na Próxima Semana”

Esse tempo não é mais o mesmo
Não é mais o mesmo, não é mais o mesmo
Tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, assim mesmo aqui agora


Embora O Terço preceda o 14 Bis, só fui conhecer o som da banda que lançou Flávio Venturini muitos anos após ter devorado os discos 14 Bis (1979) e 14 Bis II (1980).

Isso porque esse último álbum que mencionei era encerrado com uma faixa maravilhosa, “Pedras Rolantes (Nas Ondas Do Rádio)”:

A canção era toda permeada por referências (talvez desde o título, que nos remete às “Pedras Rolando” dos amigos Beto Guedes e Ronaldo Bastos): além da óbvia menção aos Stones (que ainda eram homenageados com uma citação instumental ao riff de Jumpin’ Jack Flash”), apareciam ali a asa branca de Gonzagão, os Beatles (“O banquete dos mendigos / Nos campos de morango / E Lucy no céu com seus diamantes”), tropicalistas (com uma menção a Gil no verso “O domingo no parque”) e as próprias origens esquinenses dos 14 Bis, com os versos “Companheiro do vento / Criatura da noite / Uma nuvem cigana / Olhando o tempo passar”.

Pois, influenciado por esses versos, fui escutar o tal álbum Criaturas da noite (1974) do Terço. Afinal, dali viriam, para o 14 Bis, o mencionado tecladista e vocalista Flávio Venturini e o baixista Sérgio Magrão. E a sensação foi (em boa parte do álbum) a de estar diante de outras canções do 14 Bis, como se O Terço, àquela altura, já estivesse abrigando uma banda nascente em seu ventre.

Por outro lado, havia no álbum um lado que parecia não ser tão explorado pela banda que ficou famosa cantando a versão original de “Canção Da América” (presente de ninguém menos que Bituca). É certo que o 14 Bis já trabalhou com temas instrumentais, progressivos e quase hard rock (como a própria “Pedras Rolantes”), e que Criaturas da noite tinha canções completamente 14-biseiras (“Queimada” e a própria “Criaturas Da Noite”, ambas belíssimas), mas o disco me surpreendeu com uma pegada metaleira em duas faixas (sem contar o progressivíssimo tema de encerramento, “1974”).

Eram a abertura (“Hey Amigo”, clássico absoluto até hoje) e um legítimo heavy metal, guitarras dobradas e tudo, “Volte Na Próxima Semana”.

Na verdade, para além desse dado histórico – terá sido, essa última canção, o primeiro verdadeiro metal gravado no Brasil? –, gostei da letra que, contrariando a temática épica e elaboradíssima das canções do gênero, é… punk! (E está quase completamente disposta na epígrafe do post).

Muito antes do Sepultura, Minas já abrigava um som da pesada.

o-terço.jpg
Magrão, Venturini e Sérgio Hinds: núcleo duro d’O Terço, pioneiros do progressivo (e do heavy) no Brasil.

“Volte Na Próxima Semana” é tão cosmopolita que ganhou uma respeitável versão em inglês, “I’ll Come Back”. Tenho certeza que muito britânico deve ter escutado e pensado se tratar de alguma boa banda progressiva de sua terra:

Anos mais tarde, em 2005, seria lançada a gravação de um show d’O Terço no teatro João Caetano, em 1976. Em Ao vivo – 1976, aparece uma versão cheia de punch para “Volte Na Próxima Semana”:

4 comentários

    1. É que tem muitos cancionistas dos anos 1970 que não são associados comumente ao rock, embora pertençam a esse universo, como Belchior, Beto Guedes e Sá, Rodrix e Guarabyra. A dica é: encontre um fã dos Beatles e encontrará um roqueiro!
      Grato pelo comentário.

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  1. Apesar de ter componentes mineiros em um periodo, O Terço é uma banda do Rio de Janeiro, formada por Jorge Amiden, Sergio Hinds e Vinicius Cantuária. Pouco tem a ver com Minas Gerais.

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    1. De fato, acho que posso ter induzido a ideia errônea de que O Terço foi uma banda mineira, embora isso não apareça de forma explícita no texto – disse apenas que Minas abrigou a banda.
      No entanto, em minha defesa, ressalto que essa formação (Hinds, Magrão e Venturini) foi, sem dúvidas, a mais célebre da banda. E as presenças de Magrão e, sobretudo, de Venturini, contribuíram muito para vincular a sonoridade d’O Terço ao projeto estético do Clube da Esquina.
      É certo que, dessa formação, mineiro mesmo é apenas Flávio Venturini. Magrão, como Hinds, nasceu no Rio. Porém, em entrevista recente, o próprio Hinds sugeriu não se identificar tanto assim com o estado em que nasceu, já que viveu muito mais tempo em… São Paulo.
      Então, eu também relativizaria a afirmação de que O Terço é uma banda do Rio de Janeiro – embora seja uma afirmação conceitualmente correta.
      Essa questão geográfica é sempre interessante de se debater. Milton Nascimento não é mineiro, mas, ainda assim, mantém uma identificação muito maior com a música de Minas Gerais, do que com a música do Rio, onde nasceu. O mesmo vale para Fernanda Takai, que nasceu no Pará – e perceba que a integrante do Pato Fu pouco se reportou à música paraense em sua trajetória artística. Analogamente, temos a Legião Urbana, cuja primeira formação tinha dois cariocas, um paulista e um belga (!)… e, ainda assim, sempre foi considerada uma banda de Brasília. Já os Paralamas do Sucesso, cujo embrião se formou em Brasília (com um carioca e um paraibano), sempre foi, para todos os efeitos, uma banda do Rio.
      De toda forma, obrigado pelo comentário, pelas reflexões e pela visita.

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