348. Caboclada: “E Aí, Beleza?”

O cumprimento é uma questão de nobreza
E o que é nobre, não é somente riqueza
Riqueza não é só ter o dinheiro pra comprar
Você daqui e eu de lá


Na virada para os anos 2000, havia um ator muito simpático, participante de vários informes publicitários. Era um tal de Márcio Werneck, que ficou mais reconhecido, àquela época, cantando o jingle do programa Brasil Alfabetizado:

Um dia, assistindo à TV Cultura – provavelmente, era o programa jovem Turma da Cultura –, eis que me deparo com esse cabra empunhando uma guitarra, e à frente de uma banda igualmente simpática. Era a Caboclada, conjunto que misturava rock com ritmos regionais brasileiros.

Por algumas semanas, a banda passou a frequentar a grade da programação daquele bom e velho canal 11, nos tempos em que ele ainda era um refúgio para a efervescência cultural brasileira (ainda que voltada para as massas) e para um debate político minimamente qualificado.

A banda acabara de lançar o EP Catrevagem digital (1999), cuja canção de abertura, e séria candidata a hit, era “E Aí, Beleza?”. Lembro de ter ficado vidrado na faixa, com sua batida funkeada, e uma letra da qual eu não poderia concordar mais: “o cumprimento”, ainda que coloquial, “é uma questão de nobreza”.

Ontem mesmo, aliás, trombava pela enésima vez um colega docente, na universidade, que jamais se dignou a dirigir o olhar para mim. Isso porque trabalhamos em corredores paralelos, no mesmo andar. Quando passa ao meu lado, desvia o olhar para o alto ou para o lado oposto. Nada tira da minha cabeça que, porque pareço mais aluno do que professor (já que não ligo muito para trajes formais mesmo no ambiente universitário, preferindo as surradas regatas, os shorts de corredor e os tênis desgastados), a pessoa se recusa a se rebaixar dando um simples “bom dia” a um reles mortal, que não pode ostentar a realeza do título de doutor. Mas que bobagem!

E, pelo contrário, como é gostoso receber um olá ou um acenar com a cabeça, mesmo por parte de quem nem conhecemos, não é mesmo? Por sinal, os alunos fazem muito isso, mesmo sem ter passado por minhas classes e, provavelmente, sem desconfiar que o magrelo aqui, com pinta de corredor mulambento, seja docente. Nessas horas, e como diz a letra de “E Aí, Beleza?”, dá pra sacar quem é verdadeiramente nobre, e quem não é.


Bom, a questão é que, há 20 anos, o acesso a discos e canções não era algo trivial como o é atualmente, de sorte que só pude escutar o EP da Caboclada… hoje.

Lembrava sim da pegada meio à Jorge Ben das canções – e a psicodélica “Pare Para”, entre o Nordeste brasileiro e o Oriente, sampleia o conhecidíssimo “tem que dançar, dançando” que abre a obra-prima benjoriana A tábua de esmeraldas (1974) – e em como a Caboclada, às vezes, soava como um Skank mais paramentado (“Muleque Trabalhador” parece uma segunda parte de “Esmola”). Dava para apreender claramente, também, a influência do Karnak e, não à toa, André Abujamra foi o produtor de Catrevagem digital.

Mas, enfim, havia ficado distante da banda, e provavelmente sem que ao menos tenha pensado nela nos últimos 10 anos. Nesta semana que finda, me ocorreu que deveria trazer “E Aí, Beleza?” aos leitores. E só posso dizer que foi uma delícia reencontrar Werneck e aqueles sons do início de minha adolescência, que jaziam esquecidos na cacholinha.

Passo a desconfiar, inclusive, que deve haver outras canções na mesma situação, alojadas bem no fundo do inconsciente. Pena que o projeto do 365 Canções Brasileiras já está acabando, restando pouco tempo para que eu investigue essa possibilidade, e compartilhe outros sons pouco badalados, mas de muita originalidade (como é o caso da Caboclada).

Pois é, a fase do “e aí, beleza?” ficou lá atrás, e este blog se aproxima do “falou, até mais” – para meu alívio e, em certa medida, desespero também.

caboclada.jpg
Márcio Werneck: simpatia e nobreza à frente da Caboclada.

Em Domínio público (2003), a Caboclada reaparece com um som mais orgânico, relendo os números de Catrevagem digital e acrescentando outros mais. “E Aí, Beleza?” aparece, então, em sua forma definitiva, muitíssimo bem produzida:

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