350. Os Borges: “Voa, Bicho”

Andorinha voou, voou
Fez um ninho no meu chapéu
E um buraco bem no meio do céu
E lá vou eu como passarinho
Sem destino nem sensatez
Sem dinheiro nem pra um pastel chinês


Gosto das andorinhas, de seu voo anárquico, de sua plumagem de um azul escuríssimo e reluzente. Gosto quando, em São Carlos, posso observá-las enquanto tomo banho e, na verdade, sei que elas é que são as espiãs. E gosto de ver o gato Perseu – este, um grande malandro, pois trocou voluntariamente de lar e vive conosco há exatos dez anos – doidinho para caçá-las, enquanto elas, se desviando do inofensivo felino, acrescem em excentricidade seu voo.

Passarinhos fantásticos esses, que nos acompanham no cotidiano e na escola – pois me lembro de um deprimido Bandeira a se comunicar com eles: “Andorinha lá fora está dizendo: / – Passei o dia à toa, à toa / Andorinha, andorinha, minha canção é mais triste: / – Passei a vida à toa, à toa”. E me recordo também da personagem Lola, de Learte, uma criação cartunesca sua veiculada no caderno “Folhinha”, da Folha de S. Paulo:

lola.jpg

(Bom, na verdade, se Lola dialoga com o público infantil por conta da ludicidade de suas estórias, são os adultos aqueles que mais podem se beneficiar, filosoficamente, dessas viagens passarinhescas, como atesta a tira acima – uma de minhas favoritas não só da Lola, mas de toda a produção da Laerte).

Quando escutei “Voa, Bicho”, pela primeira vez, pensei em tudo isso: na esperteza das bichinhas, em seus voos libertários e na ousadia desatinada que se associa ao seu existir.

Com efeito, a canção composta pelos irmãos de Lô Borges, Telo e Márcio, e lançada no álbum coletivo da família (Os Borges, 1980), toma justamente o voo das andorinhas como sinônimo de uma liberdade a ser usufruída sem amarras.

Gosto da forma como a letra – provavelmente, toda de Márcio, sobre aquela que foi justamente a primeira música de Telo – entrelaça essa liberdade natural, valor inegavelmente positivo, com dois óbices ao seu completo desenvolvimento: “Andorinha voa feliz / Tem mais força que minha mão / Mas sozinha não faz verão”.

Pois repare que a força da mão, ao segurar o passarinho, não é posta como entrave para sua fuga. Em outras palavras, a luta individual tem lá sua eficácia. Mas, de que adianta, se restrita a um único indivíduo? Afinal, o dito popular já diz, há tempos, que uma andorinha só não faz verão (e, aqui, lembro de uma aula de Língua Portuguesa, ainda no ensino fundamental, com o enigma: como posicionar a vírgula nessa máxima? Uma andorinha, só não faz verão, afirmando que a andorinha, afinal, pode quase tudo; ou uma andorinha, só, não faz verão, reforçando a necessidade de nos irmanarmos com nossos semelhantes?).

A curiosidade fica por conta da seguinte interpretação, tomando o contexto em que a canção foi apresentada: estaria Márcio Borges falando sobre a própria família Borges, com seus passarinhos soltos no mundo, especialmente Lô? Seria a andorinha, na canção de Telo e Márcio, o mais ilustre dos filhos de Maria Fragoso Borges e Salomão Borges?

os-borges
Os Borges, com Lô ao violão e Solange ao centro: família musical, andorinhas que não voam sozinhas.

“Voa, Bicho” recebeu algumas regravações, todas interessantes.

O cantor Biafra (antes de vir a assinar seu nome como Byafra), em Despertar (1981), deu voz a alguns compositores esquinenses. Numa versão cheia de balanço, “Voa, Bicho” aparece valorizando os dotes vocais do cantor, especialista em agudos e, além disso – estando para sempre associado à icônica “Sonho De Ícaro” –, muito à vontade numa temática aérea:

Mais tarde, em Pietá (2003), Milton Nascimento resgatou esse número do clássico disco dos Borges, convidando a afilhada musical Maria Rita para encenar o dueto que, na versão original, é conduzido por Telo e Solange Borges. Faz todo sentido: os únicos cantores que participam de Os Borges sem ostentar o sobrenome da família foram Bituca e Elis Regina, mãe de Maria Rita. (E, aqui no blog, chegamos a tematizar a faixa de que participa a Pimentinha, “Outro Cais”, canção irmã de “Cais”, que inaugurou o projeto). Essa nova versão de “Voa, Bicho” é bonitinha e chegou a tocar nas FMs, integrando a trilha sonora da novela global Chocolate com pimenta (2003). No piano, o próprio Telo. Confira:

E mesclando os arranjos de Os Borges Pietá, Telo Borges apresenta “Voa, Bicho” em Telo Borges (2016). O dueto é reconstruído, agora, com a presença da cantora mineira Luiza Lara:

2 comentários

    1. Depois que li o post, percebi que faltou uma vírgula no primeiro exemplo sobre o verso (“Uma andorinha, só não faz verão”).
      Tem um outro exemplo muito famoso, sobre Alexandre se consultando no Oráculo de Delfo (ou algo do tipo):
      – Vais à guerra, morres, jamais voltarás vivo.
      – Vais à guerra, morres jamais, voltarás vivo.
      Alexandre interpretou conforme a segunda forma e conquistou todo o mundo helênico.

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