351.Paulo Ricardo: “A Cruz E A Espada”

Havia um tempo em que eu vivia
Um sentimento quase infantil
Havia o medo e a timidez
Todo um lado que você nunca viu


Quando tinha de 13 para 14 anos, ganhei, roubei ou furtei – não lembro – uma fita cassete de meu tio Silvio que trazia, num dos lados, parte do álbum Rádio pirata ao vivo (1986), do incensado RPM.

Entre as faixas gravadas, estavam a heróica “Revoluções Por Minuto”, “Rádio Pirata” (com a clássica citação a “Light My Fire” dos Doors, talvez meu primeiro contato com a banda de Jim Morrison) e uma canção cujo título dramático me atirou a escutá-la com interesse: “A Cruz E A Espada”.

O problema é que a qualidade da gravação era precaríssima, e acabei abandonando a fitinha após poucas audições.

No ano seguinte, adquiri (com uns dez mangos suadamente juntados) a coletânea dupla Bis (2000) de Renato Russo, logo que foi lançada (e sim, os CDs dessa série eram incrivelmente baratos, ainda mais considerando que eram todos duplos). Ali, a segunda faixa do CD 1 era justamente “A Cruz E A Espada”, num dueto com Paulo Ricardo.

É difícil escolher entre a versão do RPM e a regravação da obra, lançada originalmente em Rock popular brasileiro (1996), álbum em que o ex-líder do RPM rendia tributo aos seus colegas de geração e aos artistas que o influenciaram (gente setentista do quilate de Raul, Rita, Caetano e Beto Guedes).

A gravação original chama a atenção para o plácido arranjo bossa-novista, bom momento para acalmar os ânimos e respirar um pouco, nos animadíssimos shows do RPM – pelo menos até o intenso refrão, com desconcertantes fraseados de Luiz Schiavon nos teclados.

Já o dueto entre os astros do BRock tem, em primeiro lugar, um valor documental, justamente por reunir dois artistas que, entre um encontro e outro, vivenciaram sentimentos que vão da rivalidade odiosa à admiração mútua.

Além disso, o arranjo de 1996 – no que é, provavelmente, o último grande registro vocal de Renato, capturado poucos meses antes de sua prematura partida – tem como marca a intensidade das interpretações e a elevação do drama vivido pela voz que canta.

Com efeito, a canção traz um sujeito que, em suas descobertas adolescentes sobre o mundo dos relacionamentos, se vê espremido entre o necessário abandono da inocência (dominada pelo “medo e a timidez”) e o ingresso no cinismo dos descartáveis encontros “adultos” (e não apenas efêmeros, como também abomináveis, vide os versos “E agora é tarde, acordo tarde / Do meu lado, alguém que eu não conhecia / Outra criança adulterada / Pelos anos que a pintura escondia”).

Daí o padecimento do personagem, carregando a culpa por, afinal, ter escolhido viver, mui pós-modernamente, suas aventuras “românticas” – que, se proporcionam um prazer momentâneo, também reforçam a ausência de sentido do viver hedonista. Eis o homem escravo de sua libido, incapaz de resolver o dilema entre “a cruz e a espada”: sou eu que controlo meu prazer, ou ele que me controla? Ou, como canta o sujeito, “Agora eu vejo / Aquele beijo / Era mesmo o fim / Era o começo / E o meu desejo / Se perdeu de mim”.

Segundo consta, Paulo Ricardo convidou Renato para gravar a nova versão de “A Cruz E A Espada” pelo fato de que, num encontro casual durante os anos 1980, o vocalista da Legião Urbana lhe confessar que gostaria de ter composto a canção. Escolha acertadíssima, por parte de ambos: afinal, a própria biografia de Renato se ajusta perfeitamente à tragédia sugerida pela obra do RPM.

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Renato Russo e Paulo Ricardo: amigos, rivais e nomes maiores do BRock.

A versão orignalíssima de “A Cruz E A Espada”, composição de Schiavon e do próprio Paulo Ricardo, está no lado-A do LP de estreia do RPM, Revoluções por minuto (1985):

Quando o RPM se reuniu em 2002, gravando um especial para a MTV – e rendendo o álbum RPM 2002, que hoje me arrependo (levemente) de ter adquirido, dada a irregularidade do repertório –, “A Cruz E A Espada” foi incluída como um momento intimista do show. Ali, o RPM reproduz o arranjo de Rock popular brasileiro e recupera os vocais de Renato. Necrofilia da arte ou homenagem bem intencionada? Você é quem decide:

Eu teria várias curiosidades, em termos de releituras, para trazer aqui: desde sertanejos tentando reproduzir um décimo da emoção dos registros do RPM ou do dueto com Renato (como diria o Capitão Nascimento, “Nunca serão!”), até o próprio Paulo Ricardo cantando, languidamente, sua canção em espanhol.

Prefiro mostrar só uma: a versão para bebês, disponível em Rock your babies: o melhor do rock brasileiro, vol. 3 (2015).  Tendo a repelir esse tipo de produto, e não gostei de outras versões para ninar que escutei por aí. Mas confesso que achei agradável a releitura instrumental e fofa para “A Cruz E A Espada”:

3 comentários

    1. Eu já fui um entusiasta das versões ao vivo, mas hoje percebo que boa parte dos registros de show possuem retoques e overdubs em estúdio, desfazendo a magia da performance única.
      E, depois que passei a usar mais os fones de ouvido (comprei meu primeiro set de “headphones” neste ano!), tenho preferido também a clareza das gravações em estúdio.
      Grato pelo comentário.

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