352. Inezita Barroso: “Marabá”

Marabá, ô Marabá
O diamante mais bonito
Lá no fundo está
Lá no fundo mais profundo lá do Marabá


Em Inezita em todos os cantos (1975), a cantora e apresentadora paulista alinha uma porção de temas, geralmente típicos do folclore, recolhidos nas diversas regiões do país.

O disco abre, surpreendentemente, com um compilado de “Pontos De Ogum”, muito populares da Bahia ao Sudeste, e traz também duas seleções, a “Seleção De Sambas” e a “Seleção De Maracatus”.

Entre um tema do domínio público e outro, estão canções preciosíssimas, do quilate de um “Negrinho Do Pastoreio”, de Barbosa Lessa (que muito me emocionou quando escutei o LP pela primeira vez, pois não imaginava que esse clássico sulista estaria no repertório do álbum), e de uma “Asa Branca” (num arranjo fantástico, que deve ter deixado Gonzagão estupefato).

E, falando em quilate, gosto muito de uma composição em especial, “Marabá”, descrita como um “tema de garimpeiros do Pará recolhido e adaptado por José Mauro de Vasconcellos”.

Merecem ser destacadas duas qualidades da faixa.

A primeira diz respeito à letra, que conta uma narrativa trágica: o afogamento de um garimpeiro, que mergulha no Rio Marabá atrás de um diamante. O interessante é que, em sua abertura, a canção trata de um “diamante mais bonito” que jaz no leito fluvial; e, numa tremenda reviravolta, o ouvinte descobre que a tal joia é nada menos que o coração do garimpeiro Antônio (“rapaz forte, caboclo lá do Norte”).

O outro destaque é musical, e se refere ao canto de Inezita: que tremenda voz tinha essa mulher! Em alguns momentos da gravação, especialmente na introdução e no encarramento (acompanhados de um tilintar flamenco ao violão), seu timbre chega a lembrar o de outra cantora fenomenal, Maria Bethânia.

É interessante observar, aliás, que ambas sempre estiveram muito ligadas às tradições populares e, estilisticamente, suas performances puderam se valer dos dotes interpretativos das artistas, ambas ligadas ao teatro. Mas, em certo momento, ficaria muito claro que Inezita e Bethânia tomariam rumos distintos e quase contraditórios (entre si e mesmo internamente): a paulistana, apesar de ostentar o título de bibliotecária (ou talvez por causa disso), acabaria se inserindo no ofício de recolha e divulgação das tradições folclóricas do Brasil mais profundo, difundidas em seu programa Viola, minha viola; já Bethânia, nascida na pequena Santo Amaro, literalmente ganharia o mundo, tornando seu repertório cada vez mais cosmopolita, e combinando seu canto com uma dramaturgia refinada, quase de salão.

Inezita é prosa e Bethânia é poesia. Duas cantoras de imenso valor que, preocupadas com a memória artística brasileira, se converteram elas mesmas em nosso patrimônio – mais valioso que o tal diamante lá do Marabá…

inezita-barroso.jpg
Inezita Barroso: recolhendo folclore e brasileiros cantos, em todos os cantos.

2 comentários

    1. Ademar, você é que devia fazer o próximo blog 365 Canções! Você encontra algumas definições fantásticas, com a vantagem de serem bem mais concisas que minha prosa prolixa.
      Quanto aos timbres das cantoras, adiciono outra percepção: são bem brasileiros, pois não se ouve, em cantoras estrangeiras, vozes com esse tempero.
      Grato pelo comentário.

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