353. Zélia Duncan: “Antes Do Mundo Acabar”

Antes do mundo acabar
Me deixa te encontrar
Me deixa te dizer
O quanto foi bom, foi incrível


Embora não possa me considerar versado na produção artística de Zélia Duncan, sou certamente um admirador da cantora que saiu de Niterói e ganhou o Brasil a partir de Brasília.

Com efeito, a única canção que tive a coragem de cantar, na presença de minha mãe, foi seu maior sucesso, “Enquanto Durmo” – e, para meu alívio, enquanto eu olhava timidamente para o braço do violão, percebi que minha progenitora permanecia focada na atividade que realizava ao computador, mas cantarolando baixinho a letra.

Lembro também da ocasião em que alguém levou, lá para casa, uma cópia do DVD Sortimento vivo (2002). Assisti ao show algumas vezes, gostando muito de “Alma”, canção de Arnaldo Antunes e Pepeu Gomes que também se tornou um dos grandes hits de Zélia. Mas nunca tinha escutado, por inteiro, qualquer álbum de estúdio da cantora.

Até que, em 2015, Zélia concretizou um projeto ousado: um disco só de sambas, Antes do mundo acabar (2015). No início da audição, veio o estranhamento: será que o peculiaríssimo timbre grave de Zélia daria conta daquele repertório sambista?

De fato, demorei a engrenar na escuta. Mas, ao fim do primeiro terço do álbum, me flagrei diante da questão: como é que Zélia não teve essa ideia (a de imergir pra ver no universo do samba) anteriormente?

Duas faixas, desse primeiro ato do disco, me seduziram: o samba de temática social “No Meu País”, composto e cantado com Xande de Pilares; e o tema de hoje, “Antes Do Mundo Acabar”.

A faixa, que é puro drama desde o título, traz versos de lirismo trágico: “Me deixa te abraçar / Guardar teu cheiro nos sonhos impressos / Nos travesseiros / Quero ser a última pele que você tocou / O amor bomba relógio / Que você não desarmou”.

Eu, que já me vi pensando em como seria o fim do mundo – misturando morbidez com certa curiosidade científica; por exemplo, imagino em como pereceríamos rápida e violentamente caso algo interrompesse a trajetória orbital da terra, ou seu movimento de rotação, por conta do princípio da inércia: tudo na superfície seria atirado para o vazio do espaço sideral instantaneamente, talvez até as águas dos oceanos –, achei a letra desconcertante, lembrando vagamente “O Último Dia” de Paulinho Moska.

Mas, se a temática é semelhante, as duas canções se apresentam, também, como pontos de vista opostos: numa, a dúvida (“Meu amor, o que você faria / Se só te restasse esse dia?”) e infinitas possibilidades de 24 horas de hedonismo (“Andava pelado na chuva / Corria no meio da rua / Entrava de roupa no mar / Trepava sem camisinha”); na outra, o convite/súplica, íntimo, celebrando o amor que finda só por motivo de força maior (“Antes do mundo afundar em si mesmo / Me deixa te olhar sem medo / Antes da saudade me arrastar pro olho do furação / Antes da última catástrofe devastar de vez meu coração”).

Em termos semióticos, em “O Último Dia” imperam os valores extensos, uma objetividade quase matemática, perquiridora e descompromissada. Já “Antes Do Mundo Acabar” sedia os valores intensos, a passionalização, a incerteza, a vivência subjetiva (e derradeira) do amor outrora tão estável (“Antes do mundo acabar / Me deixa te encontrar / Me deixa te dizer / O quanto foi bom, foi incrível”). O amor perfeito, palavra que é, antes de adjetivo, o particípio do verbo perfazer, isto é, fazer por inteiro: começo, meio… e fim.

E, após essa viagem – sim, viajei tudo isso durante a primeira audição de “Antes Do Mundo Acabar” –, fui conferir a ficha técnica do álbum… e qual não foi minha surpresa ao encontrar um certo Zeca Baleiro como coautor da faixa.

Moska, Baleiro, Zélia e afins: que baita geração, essa “nova MPB”. O alardeado esgotamento da boa canção popular brasileira está mesmo longe de acontecer, enquanto nomes como esses permanecerem compondo, produzindo e interpretando.

É capaz mesmo que o mundo acabe muito antes que a qualidade da música brasileira se esgote.

zelia-duncan.jpg
Zélia Duncan: jamais acomodada e muito mais que um belo timbre vocal.

A baiana Mariene de Castro (de quem falamos aqui) gravou “Antes Do Mundo Acabar” em Acaso casa ao vivo (2019). Muitíssimo à vontade no terreiro do samba, a moça registrou uma belíssima versão para a obra de Zélia e Zeca:

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