354. Jards Macalé: “Trevas”

Sol rumo ao sono
Sombras sobre o oceano
Cidades cobertas de névoa espessa
Jamais devassada
Por brilho do sol


Não sei quando ouvi falar, pela primeira vez, do poeta estadunidense Ezra Pound (1885-1972). Mas lembro que seu nome permeava as páginas de um livro que muito me marcou, Ideograma, organizado pelo poeta concretista Haroldo de Campos. Ali, o irmão de Augusto coligia uma série de textos que explicavam o princípio lógico e poético subjacente à escrita chinesa.

Com efeito, se é possível escrever poesia com signos simbólicos (e, aqui, estou usando a terminologia empregada na semiótica de Peirce, outro intelectual estadunidense de invejável envergadura), como se faz em português ou inglês, os textos chineses já são inerentemente poéticos, pois empregam signos que, muitas vezes, são tão ou mais icônicos quanto simbólicos: verdadeiros hieróglifos.

Em outras palavras, a lógica de construção de um único caractere é, por si só, a lógica metafórica e metonímica da poesia. Um exemplo é o ideograma ming (no Japão, mei), que tem a seguinte forma:

ming-mei.jpg

Observe que o caractere é composto por dois “desenhos”: do lado esquerdo, a representação do sol (um círculo com um ponto no meio, todo o conjunto aproximado para uma forma quadrada); no lado direito, a lua (parecida com o sol, mas com uma extremidade curvada, se aproximando da forma da lua minguante). Repare que o caractere como um todo, traduzido como “claro”, “brilhante”, une, portanto, o brilho supremo do dia com a luminosidade da lua: a luz total!

Pois bem, em Verdade tropical, Caetano Veloso, às p. 226-227 da edição comemorativa de 20 anos do livro (São Paulo: Companhia das Letras, 2017), menciona uma porção de poetas associados ao movimento concretista – influência crucial para o tropicalismo –, lembrando que Pound foi “quem lhes deu o conceito de ‘paideuma’, além da aproximação com a escrita chinesa, sua monumental série de Cantos vista como composta à maneira dos ideogramas”.

Essa citação me remeteu à obra que alinha os tais Cantos de Pound, no Brasil, incluídos em Poesia – livro com traduções de, novamente, Haroldo de Campos, além de Décio Pignatari, J. L. Grünewald e Mário Faustino (e tenho aqui em mãos a segunda edição, publicada pela Hucitec em 1985). Achei especialmente bonito o “Canto I”, com sua temática helênica e algo tenebrosa: “Treva a mais negra sobre homens tristes”.

Pois enquanto pensava em qual Jards Macalé abordar aqui – para atender a um pedido bem antigo, e a ideia era trazer algo do álbum inaugural do carioca, Jards Macalé (1972), como “Mal Secreto”, sobre a qual já se falou exaustivamente – vim a escutar seu mais novo trabalho, Besta fera (2019).

Aqui, vale uma digressão sobre o disco. Jards começou 2019 vindo de um verdadeiro inferno astral. Além do ambiente político plenamente desfavorável a qualquer projeto que articule intelecto com estética, o artista acabara de olhar de perto nos olhos da morte, tendo passado por uma longa internação por broncopneumonia no ano anterior.

Tudo isso deixou sua marca no disco, que abre com “Vampiro De Copacabana”, faixa composta com Kiko Dinucci, falando em vultos e “olhos de sangue”. A faixa-título, por sua vez, fala da “ignorância dos homens dessas eras”, enquanto “Buraco Da Consolação” (em parceria com Tim Bernardes) traz os versos: “Vamos pro fundo do poço, / Pois não tem mais nada pra você aqui / Você não via que o mundo está podre / Porque estava cego de amor / Não ouça aquele ditado / Pois a esperança há tempos se foi”. Tem ainda “Limite”, com Ava Rocha: “À beira da beira da beira da janela / Da beira do caos, / À beira do mundo / À beira do poço sem fundo / Tanto faz a beira / A beira da direita, da esquerda e da borda / À beira do suicídio / À beira da despedida / À beira do infinito / À beira do mal, / À beira do bem, da violência, da fome e do sonho / À beira da morte”.

Em resumo, combinando uma sonoridade indie, de guitarras sujas e faiscantes, com o conhecido violão de Jards, entre rocks, sambas e bossas, o disco é mesmo pesado.

Mas (retomando a discussão sobre poesia) eis que me deparo com a faixa “Trevas”, carro-chefe (se é que cabe esse termo) de Besta fera, que desenha um cenário de terra (ou seria água?) arrasada: “Sol rumo ao sono / Sombras sobre o oceano / Cidades cobertas de névoa espessa / Jamais devassada / Por brilho do sol / Chegamos ao limite da água mais funda / Levanto o olhar pro céu / Chegamos ao limite da água mais funda / Levanto o olhar pro céu / Trevas, trevas / Treva a mais negra sobre homens tristes”.

O retrato perfeito do Brasil pós-Jair. E não é que Jards, nesse sombrio número, está citando o próprio “Canto I” de Pound? E, para efeitos de comparação (e também para compartilhar um poema lindíssimo), reproduzo (de Poesia, p. 149-151) os versos traduzidos pelos concretistas:

canto-i.jpg

(E, acima, o “De modo que:” encerra bruscamente o poema, reproduzindo a ideia de inacabamento da expressão original, so that).

Achei tudo isso muito interessante. A canção em si, claro, mas também outras questões: o fato de Macalé, mais de 50 anos após a emergência do tropicalismo, resgatar as influências do movimento encabeçado por Caetano e Gil, apondo nela um sentido bem mais contemporâneo e realista; a enorme contradição entre a biografia de Pound (que simpatizou com o nazi-fascismo) e o próprio ideário libertário e quase anárquico da tropicália; e o paralelo entre o florescimento de uma joia artística justamente em meio a um cenário de caos e desagregação, tanto na escala micro da individualidade do cancionista, quanto num plano mais amplo, relacionado ao conturbado momento político brasileiro.

Besta fera é um réquiem para o país que escolheu viver sob as trevas e a brutalidade da Idade Média, e mostra da aparentemente inesgotável criatividade de um gênio que, ainda bem, não nos abandonou nestes tempos difíceis.

jards-macale.jpg
Jards Macalé: retomando a estética (pós) tropicalisa para falar de trevas e bestas feras.

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