355. Beto Guedes│Danilo Caymmi│Novelli│Toninho Horta: “Manuel, O Audaz”

Se já nem sei o meu nome
Se eu já não sei parar
Viajar é mais, eu vejo mais
A rua, luz, estrada, pó
O jipe amarelou


Escutei “Manuel, O Audaz”, pela primeira vez, aos 14 anos. Então, não havia entendido muito bem qual a proposta da canção, nem seu contexto de origem – sabia da existência de um tal Clube da Esquina, é verdade, mas não imaginava quais (en)cantos constituíssem sua substância.

Quando, aos 18, tive meu primeiro contato mais intenso com a obra de Lô Borges, reencontrei a simpática canção, permanecendo com a ideia de que o tal Manuel fosse um português amigo dele ou de Bituca, ou algo assim. Só mais tarde fui entender que o personagem era, na verdade, o jipe de Fernando Brant!

Márcio Borges em Os sonhos não envelhecem (8. ed. São Paulo: Geração Editorial, 2013), conta um pouco sobre o temperalmental motorizado:

Manuel, o Audaz, era o jipe que Fernando comprara para substituir o desafortunado Aparelho, nome próprio de um velho DKW-Vemag cheio de manias e truques para funcionar que só Fernando sabia dominar. O jipe não ficava atrás. Por duas vezes “fugira” do dono, isto é, estacionado por Fernando na porta da casa de Leise, que morava numa ladeira íngreme, descera sem piloto rua abaixo, de marcha a ré, parando na parte plana da rua sem causar danos de qualquer espécie. Por uma vez, vá lá, mas duas… isso merecia duplamente uma canção em homenagem a tamanha autossuficiência e liberdade. E essa foi a terceira música que fez com Toninho: “Manuel, O Audaz” (p. 207-208).

A letra fala da liberdade proporcionada pelo instrumento de locomoção, ressaltando o “ar livre, corpo livre”, com um achado poético quase proverbial, e sempre belíssimo: “Aprender, ou mais: tentar”.

Segue-se o “refrão”, se assim podemos chamá-lo: “Manuel, o Audaz / Manuel, o Audaz / Iremos tentar / Vamos aprender, vamos lá”. Mais esquinense, impossível. Em versos tão simples, estão diversas marcas do Clube, como o senso de irmandade (repare nos verbos na primeira pessoa do plural), a caminhada (“vamos lá”) e a impossibilidade de que não reste, desse empreendimento coletivo, pelo menos alguma experiência positiva (o aprendizado ou, ao menos – melhor seria dizer ao mais –, a tentativa).

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A turma do Clube da Esquina a bordo de Manuel, o Audaz, em lindo clique de Cafi. A foto é apresentada na seção de ilustrações ao final de Os sonhos não envelhecem.

“Manuel, O Audaz” apareceu, pela primeira vez, numa obra que pode ser lida como o lado-B do clássico Clube da esquina (1972) de Lô e Milton Nascimento. Trata-se do álbum homônimo e coletivo, assinado por Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta, lançado em 1973. O disco, tão raro quanto clássico (incluindo a maravilhosa foto do falecido Cafi, que flagra os quatro músicos espremidos num banheiro – por sinal, moderníssimo, no sentido arquitetônico do termo), abre com uma impressionante canção de Beto e Márcio Borges, “Caso Você Queira Saber” (gravada, mais tarde, por Cássia Eller) e se desenvolve, a seguir, por meio de faixas que exploram gêneros diversos, como o folk, o rock, o progressivo e o jazz.

Além dos quatro cancionistas de sua rubrica, a bolacha traz ainda as participações do já mencionado Lô Borges, dos tecladistas que integrariam o 14 Bis anos mais tarde (Vermelho e Flávio Venturini), além de Nelson Angelo, Robertinho Silva, Paulo Jobim e Nana Caymmi.

Aliás, a presença dos filhos de Dorival, no projeto, é mais uma mostra do espírito extremamente gregário do Clube, que logo conquistaria a simpatia de muitos baianos. Em que pese a resistência inicial de Caetano à estética difundida na obra de Bituca, em breve os dois artistas estariam compondo juntos (“A Terceira Margem Do Rio”, que merecia aparecer aqui no blog), e os Doces Bárbaros (Caê mais Gil, Gal e Bethânia) incluiriam, em 1976, “Fé Cega, Faca Amolada” (de Beto e Milton) em seu álbum. Além desses elos entre o Clube da Esquina e tropicalistas e os Caymmi, deve ser lembrada a importância de outra baiana, Simone, responsável por lançar muitas das canções esquinenses.

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Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta: cultivando o espírito gregário do Clube da Esquina.

Existem diversas versões para “Manuel, O Audaz”.

Conheci a canção pelo registro de Toninho Horta com a participação de Lô Borges, que encerra o álbum Toninho Horta (1989). As maravilhosas guitarras são divididas entre Toninho e o incrível Pat Metheny (acredito que já empunhando sua Ibanez “Signature”):

No mesmo ano, a paraense Jane Duboc incluiu “Manuel, O Audaz” em seu álbum de estreia, Languidez. O registro, em clima setentista, é lindo, adornado por muitas cordas:

Flávio Venturini, em O trem azul (1998), deu uma cara mais modernosa à canção:

O mineiro Affonsinho, em Esquina de Minas – dois lados da mesma viagem (2003), refaz “Manuel, O Audaz” em clima folk, com uma bonita versão voz-e-violões:

Também em clima desplugado, Eduardo Braga apresenta sua versão para a canção de Fernando Brant e Toninho Horta em Pós-acústico (2018):

Existem também as versões instrumentais.

O pianista japonês Noboyuki Nakajima, em Passacaille (2011), fiel ao arranjo original, propõe uma releitura linda e comovente:

Falando em piano, a PianOrquestra gravou um arranjo delicado e, novamente, lindíssimo para “Manuel, O Audaz”, em Dez mãos e um piano preparado (2013):

O baixista brasileiro Nô Correa, em Ser tão Minas (2019), também fez bonito em sua versão instrumental:

A curiosidade fica por conta da versão em coreano, presente no álbum de Toninho em parceria com Jack Lee, From Belo to Seul (2000):

2 comentários

    1. Estávamos ouvindo uma dessas versões instrumentais, eu e meu pai, quando ele perguntou quem era o Manuel. Surpreso ao saber que era o jipe, o comentário dele foi idêntico ao seu!
      Grato pela visita.

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