356. Elizeth Cardoso: “Barracão”

Vai, barracão
Pendurado no morro
E pedindo socorro
A cidade a seus pé


Vinícius de Moraes, em “Carta Ao Tom 74”, assim se dirige ao famoso amigo Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim: “Rua Nascimento Silva, 107 / E você ensinando pra Elizeth / As canções de Canção do amor demais“.

Apesar dessa referência ter me deixado intrigado desde a primeira vez em que escutei o sucesso do Poetinha e do parceiro Toquinho, fui conhecer Elizeth não por conta de sua inserção no nascente movimento da bossa-nova, mas por ela ter perpetuado uma canção maravilhosa: “Barracão”, de Oldemar Magalhães e Luiz Antônio (ou, mais precisamente, Antônio de Pádua Vieira da Costa).

E, a bem da verdade, confesso ter ouvido Canção do amor demais (1958) mais por obrigação pois, a mim, bastava aquele magnífico registro da carioca acompanhada de ninguém menos que Jacob do Bandolim, seu Época de Ouro e o Zimbo Trio, num célebre espetáculo conjunto.

O recital gerou o LP Conjunto Época de Ouro, Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim, Zimbo Trio (1968), que traz o enorme registro (com cerca de sete minutos) de uma das mais contundentes canções de uma tradição tão relevante quanto necessária: o samba de apelo social e de exaltação da cultura do morro.

Já falamos, aqui no blog, de um grande representante do gênero, se assim podemos chamá-lo, Zé Keti, com “Opinião” – que, ao lado de sua “A Voz Do Morro”, é uma das passagens obrigatórias do clamor plebeu na canção popular. Mas, sem precisarmos forçar muito a barra, é possível encontrar ecos dessa tradição cancional em São Paulo, que também tem seus morros: é na obra de Adoniran Barbosa e nas gravações dos Demônios da Garoa que encontraremos produções cuja temática está no exato meio caminho entre “Barracão” e “Opinião” ou “A Voz Do Morro”, como a célebre sequência sobre a questão habitacional (ainda longe de ser equacionada), “Saudosa Maloca” e “Abrigo De Vagabundos”, além de “Luz Da Light” (essa, numa toada mais irônica e ainda mais bem-humorada, elementos menos evidentes na produção de Zé Keti).

O que me espanta, para além da atualidade de “Barracão” (com seu refrão cantado a pleníssimos pulmões por Elizeth, “Barracão de zinco / Tradição do meu país / Barracão de zinco / Pobre é tão infeliz”), é uma questão pessoal: como essa canção – justamente nesse registro –, que tanto me comoveu desde a primeira audição, sequer fui cogitada para este blog, até então? Pois foi por acaso que, na semana que passou, me deparei com ela e, para meu mais completo espanto (fiquei verdadeiramente bestializado, sem exageros), percebi que ainda não tinha escutado a canção neste ano! Loucura.

Uma outra recordação que guardo de “Barracão” é o momento em que começamos a ensaiá-la no conjunto de samba. Pois, num belo dia, o Pedro “Uai-Fai” Vieira chegou com uma cifra impressa em três vias, distribuiu os papéis aos violões e decretou: “Vamos tocar essa hoje”. Começamos a arranhar a canção, naquele incomum tom de Sol Menor (perfeito para sua letra passional, sofrida mesmo) e ela saiu, surpreendentemente, inteira, na primeira tentativa. E, quando percebemos que estávamos já quase reproduzindo a gravação de sete minutos do LP de 1968, os três violões, cúmplices do cantor/cavaquinista, e sem nada combinar, apenas se entreolharam e já foram puxando “Juízo Final” de Nelson Cavaquinho, coincidentemente no mesmo tom. Nascia aí um de nossos melhores pot-pourris (que fazia mesmo muito sucesso – pelo menos entre nós músicos! –, ao lado de “Samba Da Volta/Como Dizia O Poeta/Regra Três”, obrigatória sequência de homenagem a Vinícius e Toquinho).

Achei que éramos geniais, até me deparar com o mesmo pot-pourri numa outra roda de samba (infinitamente mais animada que as nossas) poucos meses depois.

“Barracão”, no entanto, permanece como uma canção amada, como o é, para mim, sua divina intérprete.

elizeth-cardoso.jpg
Elizeth Cardoso: da era do rádio, passando pelo choro e o samba-canção, até a bossa-nova, uma intérprete divina e inigualável.

Existem muitas versões para “Barracão” (inclusive, diversas edições para a mesma gravação de Elizeth, como a que abre o post, que resume em quatro os sete minutos da faixa original).

Para fazer justiça a um sambista inexplicavelmente ausente em nossas postagens, compartilho apenas a gravação de Noite Ilustrada, que abre o LP Samba sem problemas (1970):

6 comentários

  1. Belíssimo tema, muito bem escrito, a música Barracão foi divinamente cantada pela Elizeth Cardoso acompanhada por Jacob do bandolim e conjunto Época de Ouro em gravação ao vivo no Teatro João Caetano em 1968 em Show pra arrecadar fundos para o Museu da Imagem e Som, MIS.

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    1. Grato pelo comentário! E obrigado também por acrescentar essa informação fundamental, que eu ignorava completamente. Muito bacana a Elizeth e os chorões terem participado de uma campanha pelo MIS, que permanece até hoje cumprindo um papel fundamental no setor audiovisual brasileiro.

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    1. Exatamente! O jornalista Mauro Ferreira, em seu blog no G1, fez um texto sucinto e primoroso sobre o centenário de Elizeth. Se não o leu, procure, irá gostar!
      Grato novamente, Leonardo.

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