357. Lenine e Marcos Suzano: “Leão Do Norte”

Sou o coração do folclore nordestino
Eu sou Mateus e Bastião do Boi Bumbá
Sou um boneco do Mestre Vitalino
Dançando uma ciranda em Itamaracá


Deveria mesmo pautar Lenine aqui?

Afinal, no 365 Canções original, o colega Leonardo Davino já havia discorrido sobre algumas obras do cantor e compositor pernambucano. Isso, de certa forma, me deixou acanhado – e, somando-se ao fato de que julgo conhecer pouco da carreira e da produção do artista, se tornou quase um impedimento para um post leniniano.

Por outro lado tenho, a meu favor, algumas cartas na manga. Primeiro, acho “Jack Soul Brasileiro” uma das melhores canções já compostas, uma mais do que merecida (e honrosa) homenagem a Jackson do Pandeiro. Em segundo lugar, é bom lembrar que Lenine é um dos mais desembaraçados autores no âmbito das letras cantadas no Brasil, contabilizando mais de 500 canções. Ou seja, há temas de sobra para trazermos ao 365 Canções Brasileiras. E tem também a questão bairrista: o pernambucano, formado em engenharia química, lançou em 2015 o álbum Carbono – e essa rara familiaridade com os elementos químicos o torna uma figura pra lá de simpática a mim e a muitos outros filhos de Lavoisier.

E, para além de tudo isso, tem o fato: estive num show de Lenine, em 2012, que foi uma das experiências musicais mais indescritíveis por que passei. Excursionando com o disco Chão (2011), o músico elaborou um espetáculo de imersão nos sons da natureza, espalhando caixas de som por todo recinto e fazendo a plateia se sentir, de fato, pisando o chão desse Brasil. Diria que a experiência foi até um pouco desconfortável, e certamente inesperada. Mas só pela ousadia de tê-la propagado, Lenine merece uma canção em nosso modesto projeto.

Assim, trago hoje “Leão Do Norte”, uma das mais incríveis homenagens cantadas ao estado do Pernambuco. A canção aparece lá pelas tantas em Olho de peixe (1993), segundo álbum de Lenine, lançado nada menos que dez anos após a estreia do cantor em disco, com Baque solto. Se essa bolacha primordial era assinada por Lenine e Lula Queiroga, o disco seguinte traz também a rubrica do percussionista Marcos Suzano.

Na verdade, Olho de peixe é tão de Lenine quanto de Suzano, que rouba a cena o tempo todo. A proposta do disco parece ser exatamente essa: apresentar arranjos minimalistas, que façam sobressair os poucos instrumentos presentes (em geral, as canções são movidas apenas a voz, violão e percussão), sem tentar soterrar as faixas com camadas e mais camadas de sons.

“Leão Do Norte”, nesse sentido, é exemplar, sendo difícil imaginar algum outro resultado para a canção, senão o alcançado pelo arranjo que valoriza o fragmentado riff de Lenine ao violão, mais o pandeiro de Suzano, fazendo (admiravelmente) as vezes de bateria.

A letra é bastante explícita e, aqui, cabe uma curiosidade pessoal. Muito impressionado com a forma como ela colige referências folclóricas, tradicionais e literárias, imaginei que o único letrista brasileiro capaz de elencar tantos nomes (de ritmos, festas, escritores, compositores – e com todo o respeito ao Lenine) seria Paulo César Pinheiro.

E… bingo! “Leão Do Norte” é uma insuspeita parceria desses dois prolíficos compositores, como fui descobrir algum tempo depois que a escutei pela primeira vez.

Gosto muito da forma como o sujeito da canção faz desse conjunto de tradições – e vale o destaque: populares e eruditas – a substância de seu próprio ser, afirmando que é tudo isso: “Sou mamulengo de São Bento do Una / Vindo num baque solto de um maracatu / Eu sou um auto de Ariano Suassuna / No meio da Feira de Caruaru”.

Sortudos dos pernambucanos, envoltos nessa uma riqueza cultural sem tamanho, e tão bem representados na canção popular brasileira.

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Lenine e Marcos Suzano: cantando e tocando o Brasil como síntese do popular e do erudito.

Existem muitas regravações de “Leão Do Norte”, várias delas, inacessíveis. Assim, destacarei aqui apenas os registros de maior importância.

A experiência que relatei, quanto ao show Chão, originou uma série de vídeos que registram números da turnê. Sob direção de Flora Pimentel e Bruno Giorgi, a coleção audiovisual Chão ao vivo é composta por 22 faixas, sendo “Leão Do Norte” uma delas. Confira o novo arranjo, com guitarras proeminentes, sobre uma cama de efeitos:

Em The Bridge – Lenine & Martin Fondse Orchestra – live at Bimhuis (2016) aparece uma versão quase sinfônica para a canção:

Foi Elba Ramalho quem tornou “Leão Do Norte” mais conhecida, já que Olho de peixe é um título relativamente obscuro, na discografia de Lenine. Ela, por outro lado, fez questão de nomear um de seus álbuns com a canção. A gravação presente em Leão do Norte (1996), fiel ao arranjo original, mas embalada como um frevo psicodélico oriental (cortesia das cítaras de Robertinho de Recife), traz a participação do próprio Lenine:

Por fim, destaco a versão do conjunto Som da Terra, em Passeando pelo Brasil (30 anos) (2005), que põe à frente de “Leão Do Norte” uma ótima banda de pífanos (ou melhor, pifes):

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