358. Cidade Negra: “O Erê”

Pra entender o Erê
Tem que tá moleque
Tem que conquistar alguém
E a consciência leve


Tenho uma boa, ou melhor, uma ótima recordação relacionada ao som do Cidade Negra.

Era 1994, dezembro, calor. O ano havia sido agitado: Plano Real, eleições, mortes de Senna e Tom Jobim, Copa do Mundo/tetra, O rei leão. Naquele início de verão, nada como descansar no clube. (Aliás, não imagino como minha mãe conseguia pagar a anuidade daquilo, até porque visitávamos o espaço, de fato, anualmente. Devia ser uma mixaria).

Naqueles dias, vivíamos a enorme expectativa de que, em poucas semanas, meu pai voltasse do Japão, após passar quase três anos ralando duro como dekassegui. Estávamos mesmo felizes. Minha mãe, então, organizou três dias seguidos de piscina no clube, só eu e ela, nada de primos, tios, avós ou coleguinhas. A rotina era acordar cedo, passar protetor solar no corpo, pegar o carro e, em cinco minutos, estar na portaria.

Curiosamente, não lembro do que conversávamos, nem se fazíamos algo além de nadar (tipo ir aos brinquedos do clube), nem do que almoçávamos ali (se é que o fazíamos). Lembro de chegarmos meio mortos em casa, por volta das 15 ou 16h, do cheiro das flores que cresciam em alguns arbustos (que encontro pela cidade até hoje, sem saber o nome da espécie) e de uma canção que tocava nos auto-falantes do clube todos os dias: “Onde Você Mora?”.

A obra era o single do álbum recém-lançado do Cidade Negra, Sobre todas as forças (1994), e conquistou minha simpatia imediata. Anos depois, permaneceria pensando nela, buscando entender se havia mesmo certa licença poética quanto ao emprego do advérbio “aonde”, ou se Toni Garrido estava cantando mesmo “a onde”, como “até onde” (e o “até” com o sentido de “inclusive”).

Em 1996, a banda lançou O erê, um álbum ainda mais encantador que Sobre todas as forças, e cheio de hits. Estavam ali “Firmamento” (e gostava muito da versão que Orlando Morais gravou em Sete vidas, disco de 1999, que jaz perdido entre as coisas de minha mãe), “Luz Dos Olhos” (faixa imbatível do mesmo autor de “Onde Você Mora?”, Nando Reis, já sugerindo que os Titãs estavam ficando pequenos demais para suas próprias composições), a linda e intensa “Realidade Virtual”, e o tema de hoje, “O Erê”.

Trata-se de uma de minhas canções favoritas do Cidade, composta por Garrido, o guitarrista Da Gama, mais o compositor Bernardo Vilhena (famoso por suas parcerias com Lobão nos anos 1980, como “Vida Louca Vida”, “Vida Bandida”, “Chorando No Campo” e “Revanche”). Na instrumentação, os violões são pilotados por ninguém menos que Liminha.

A faixa não tem muitos segredos, e fala sobre a criança que habita cada um de nós. Pode ser lida, portanto, como uma atualização de “Bola De Meia, Bola De Gude”, de Milton Nascimento e Fernando Brant.

No clássico esquinense, a letra de Brant confessava: “Há um menino, há um moleque / Morando sempre no meu coração / Toda vez que o adulto balança / Ele vem pra me dar a mão”. Já a obra do Cidade propõe: “Pare e pense no que já se viu / Pense e sinta o que já se fez / O mundo visto de uma janela / Pelos olhos de uma criança”, certificando-nos de que “O Erê é a criança / Sincera convicção / Fazendo a vida / Com o que o sol nos traz”.

Apesar da poesia mais truncada, a mensagem é a mesma: ao menor sinal de trevas, não adianta endurecer o adulto que pensamos ser; nessa pragmática (ou seria mesmo uma ética?), mais vale deixar o sorriso, dessa criança interna, iluminar e extrair a gravidade dos fatos (daí a menção à “consciência leve“, nos versos iniciais). Claro, essa visão está muito mais comprometida com as emoções, preterindo o mundo da razão; daí o certeiro refrão: “Você sabe / Que o sentimento não trai / Um bom sentimento não trai”.

A metonímia que associa “erê” a “criança” é só mais um dos charmes da canção. Na verdade, à época em que a obra começou a tocar na FMs, pensava que a palavra era apenas a designação para infante a partir de alguma língua indígena. Só perto dos 30 e poucos é que fui entrar em contato com os erezinhos propriamente ditos, num sonho lindo de viver, que é uma pena ter acontecido quando já havia me desfeito do hábito de fazer meus registros oníricos.

Enfim, boa canção, de uma banda que ainda me rende bonitas recordações de quando eu mesmo fui um serelepe erê.

cidade-negra
Bino Farias, Lazão e Toni Garrido, remanescentes da formação clássica do Cidade Negra: reggae com faro pop para todo o Brasil.

Entre tantas versões para “O Erê”, vou destacar aqui apenas duas.

Em seu inexplicável Acústico MTV (2002), o Cidade Negra relê a canção com mais cadência:

E o conjunto baiano Ara Ketu, no DVD Ensaios do Ara Ketu (2002), registoru a canção com a participação do próprio Toni Garrido. Ótima versão, confira:

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