360. Berço do Samba de São Mateus: “Sá Marina”

Sá Marina foi embora, nega
Lá pras bandas do arraial
Foi por conta de Zé Bento, nega
Que se foi sem lhe avisar


Vinícius de Morais teria se referido à cidade de São Paulo como “túmulo do samba”. Caetano eternizou a expressão em “Sampa”, e penso que nenhum dos dois compositores tenha levado isso tudo muito a sério. Mas, certamente, houve quem ficasse ofendido.

A verdade é que o samba pulula em São Paulo: das rodas da Vila Madalena, passando pelas baladas mais ou menos alternativas no Centro (que, sim, atendem ao público que ama o gênero – e já vi samba dos bons da Augusta à República), chegando até a Zona Leste. Lá, a tradição sobrevive, sobretudo, por conta de um enorme coletivo de músicos que, a partir de um projeto social, passaram a adotar uma alcunha provocativamente contraposta à antonomásia do Poetinha: O Berço do Samba de São Mateus.

São Mateus é um bairro enorme, com boa comunicação com a região do ABC, por conta de uma linha de trólebus que, diariamente, transporta milhares de trabalhadores de lá para Santo André e São Bernardo do Campo, principalmente. Já tive muitos alunos da região, e fiz algumas amizades, entre trabalhadores que têm São Paulo como cidade-dormitório. Mas, sobretudo, foi uma alegria conhecer alguns dos músicos que vieram a integrar o Berço do Samba, coisa que fiz da melhor maneira possível: frequentando uma boa roda, a poucos metros de casa.

Numa dessas ocasiões, o grande homenageado foi mesmo o próprio Berço do Samba, e a roda perfilou um repertório focado nas faixas que compõem os dois discos lançados pelo coletivo, através do Selo Sesc. Gostei tanto que comprei o primeiro desses álbuns, Berço do Samba de São Mateus (2007), que traz as participações de Beth Carvalho e Almir Guineto.

A edição traz um encarte caprichado, com todas as letras das canções (como é de costume nas cuidadosas produções do Sesc), e abre com um texto “institucional”, seguindo-se um release preciosíssimo de Nei Lopes.

Partindo da expressão de Vinícius, tomada como “brincadeirinha, em busca ou por conta de um efeito”, Nei traça uma breve narrativa histórica sobre o florescimento do samba nos estados do sudeste. Estou com uma severa limitação para transcrever materiais impressos neste momento em que escrevo, mas farei um esforço, pois são palavras que merecem um registro:

Já na década de 1930, os paulistanos criavam suas primeiras agremiações, como o Vai-Vai e o Lavapés. E, na passagem para a década seguinte, o rádio via surgir figuras de importantes autores e intérpretes do gênero, como Risadinha, Vassourinha, Isaurinha Garcia, Demônios da Garoa, Denis Brean etc. Acrescente-se a isso o intercâmbio que desde sempre aconteceu entre sambistas das duas capitais [São Paulo e Rio de Janeiro] como, por exemplo, entre o famoso Pandeirinho da Mangueira e seu “compadre” Germano Mathias.

Vejamos, também, que uma das iniciativas mais sérias do movimento popular nacional – a Frente Negra Brasileira, fundada em São Paulo em 1931 – mantinha, pouca gente sabe, um “conjunto regional”, com violões, cavaquinhos e pandeiros, tocando e cantando sambas em programas das rádios Tupi e Cultura. Por outro lado, veremos que depois de assistir em sua cidade a uma exibição do legendário Paulo da Portela, em 1940, foi que Seu Nenê da Vila Matilde teve a idéia de fundar a escola com a qual até hoje é confundido. E que, dois anos depois, o mesmo Paulo rompia com a direção de sua escola, exatamente após uma apresentação na cidade de São Paulo, juntamente com Cartola e Heitor dos Prazeres.

A partir daí, Nei comenta os subgêneros a que pertencem as faixas do disco (“sambas de primeira”, “velhaguardistas”, “meta-sambas”, “arrasta-povo”) e lembra que o Berço do Samba de São Mateus agremia gente que já havia ultrapassado as fronteiras da Zona Leste, com reconhecimento nacional, caso do Quinteto em Branco e Preto (de que falei aqui) e o conjunto Filhos de São Mateus, além de ter originado a incrível Orquestra de Choro de São Mateus. E assim finaliza o pesquisador e cancionista:

Está claro, pois, que São Mateus, na zona leste paulistana, não é “o” berço do samba. Mas, para nós, não resta dúvida de que o presente registro representa fielmente o “Berço do Samba de São Mateus” e muito do que se faz de melhor no samba de todo o Brasil.

Faço minhas as palavras do mestre, e só lamento que a canção de que mais gostei, daquela roda em homenagem ao Berço, não conste no repertório do CD que comprei no Sesc – curiosamente, na unidade de São Carlos.

Trata-se de “Sá Marina”, composição de Gerson da Banda, Ronny King e Yvison Pessoa (esse, componente do Quinteto). Apesar do nome em comum, a obra não deve ser confundida com a “Sá Marina” que ficou famosa na voz de Wilson Simonal.

Afinal, a personagem cantanda pelo Berço está longe de possuir aquela presença solar, e de causar inveja nos olhares das outras moças, que eram atributos de sua xará mais famosa. Com efeito, a Sá Marina de São Mateus sofre diariamente com a violência doméstica, e resolve simplesmente se refugiar na casa de seus pais, fugindo das agressões de Zé Bento. Nesse sentido, o refrão é tão enérgico quanto comovente: “Chora Sá Marina / Chora o teu sofrer / É triste a tua sina / De apanhar sem merecer / Esquece, Sá Marina / Essa vida nunca mais / Volta pro colo de mãe / Volta pros braços de pai”.

Apesar da temática séria, o Berço do Samba de São Mateus teve o mérito de abordar, em “Sá Marina”, um tema de importância social de forma objetiva, sem soar como denúncia ou militância barata. Qualquer forma de didatismo, nesse contexto, é desnecessária: do povo para o povo, o samba não precisa parecer coisa de diletante; precisa apenas soar.

Vida longa ao samba de São Mateus – e da (Grande) São Paulo como um todo.

berco-do-samba-de-sao-mateus.jpg
Berço do Samba de São Mateus: a tradição e a tradução do samba, na cidade que é a mais completa contradição.

3 comentários

    1. O interessante é observar esse movimento de “roubadas” no morro. Lá já foi o lugar do samba, do punk (de forma bem restrita, é verdade), do hip-hop, e hoje é do funk.
      Grato pela visita.

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