361. Flávio Venturini e Neto Bellotto: “Planeta Sonho”

Aqui ninguém mais ficará
Depois do sol
No final será
O que não sei, mas será
Tudo demais
Nem o bem, nem o mal
Só o brilho calmo dessa luz


Há algum tempo, preparei ao menos dois posts focados em discutir a trajetória de arranjos de uma dada canção (esta e esta). As duas postagens fizeram relativo e inesperado sucesso e eis-me aqui, novamente, tentando repetir o feito.

O tema escolhido será “Planeta Sonho”, um dos grandes hits do 14 Bis e, certamente, uma das obras favoritas minhas, entre todas as canções de conheço. Lembro perfeitamente sobre como fiquei impressionado com a faixa, quando a escutei pela primeira vez, em 14 Bis II (1980).

E me recordo também sobre como foi assistir ao meu primeiro show da banda mineira na companhia de meus pais. Dirigimo-nos para o Sesc, naquela noite de 2006, de carro, ouvindo algumas faixas dos dois primeiros álbuns dos artistas que logo conferiríamos ao vivo. Quando tocou “Planeta Sonho”, minha mãe reparou:

– Essa introdução tem algo de música de casamento, de igreja, não sei…

De fato, havia lido uma matéria que afirmava, em certo momento, que Vermelho – tecladista do 14 Bis e um dos compositores de “Planeta Sonho”, ao lado de Flávio Venturini e de Márcio Borges – recebera uma educação musical católica, e que as escalas utilizadas nos cantos gregorianos o teriam influenciado em diversas de suas composições. Havia, inclusive, um depoimento do músico, atestando que a introdução de “Planeta Sonho” trazia “uma influência modal muito grande”.

Na verdade, não sei dizer se há um modalismo tão pronunciado na característica introdução da obra. Se pensarmos que, na gravação original, o tom é Ré Menor, percebe-se apenas que a melodia introdutória, tocada nos teclados, percorrerá o Modo Jônico em Dó, dominante do relativo Fá Maior.

Mas não é disso que viemos falar hoje, nem da letra da canção – maravilhosa criação de Márcio Borges, pra variar, onipresente compositor do Clube da Esquina, e que trata de um hipotético cenário cósmico para além do fim de nosso Astro Rei, a partir do momento em que acabar de consumir todo o seu hidrogênio (fiquem tranquilos, não estaremos aqui pra ver). Como antecipei, viemos discutir os arranjos.

Assim, na mencionada versão original da obra, o clima é setentista, acenando de leve para as sonoridades dos anos 1980. Como dissemos, a tonalidade está na confortável região do Ré Menor (relativo Fá Maior). Mas os então garotos do 14 Bis não se acomodam: sobem o canto uma oitava acima, numa linda harmonia de vozes agudas e quase femininas. Imagino que, na gravação, todos cantem (os irmãos Flávio e Cláudio Venturini, o baixista Sérgio Magrão e Vermelho), exceto Hely Rodrigues, comedido e compenetrado nas baquetas. A profusão de teclados (strings, piano elétrico, órgão) não deixa muito espaço para outros instrumentos: as guitarras são discretas, acompanhadas de violões arranhando os acordes, e há uma gaita na passagem instrumental iniciada em 2’39”.

Mais ao final da década de 1980, o 14 Bis lançaria sua primeira prensagem de um show, Ao vivo em Belo Horizonte (1987). O tom muda, agora, para um agudo Si Menor (relativo Ré Maior), acrescentando-se uma introdução dedilhada, que prepara o terreno para a melodia “modal” de Vermelho, agora, convertida num riff tocado por teclados e guitarra. Hora de Cláudio Venturini brilhar, até a canção explodir, no primeiro refrão.

Em 1999, a banda embarcou na onda de discos acústicos. No entanto, diferentemente de seus colegas, que registraram repertórios desplugados em shows (geralmente com o selo da MTV), o 14 Bis preparou um belo presente para os fãs, gravando as faixas de Bis em estúdio. “Planeta Sonho” apareceu, ali, numa versão orquestrada, com nova passagem instrumental na introdução e mais uma alteração no tom, agora em Lá Menor (relativo Dó Maior). Ainda, havia pequenas passagens pela escala do acorde relativo espalhadas pela canção, ascendentes ou descendentes: todas, infelizmente, desaparecem. Mas o saldo é positivo e, apesar de econômica (o solo apenas repete a nova introdução), a versão acústica é linda:

No ano seguinte, seria editado o álbum conjunto entre o 14 Bis e o Boca Livre (de que já falamos aqui). Ali, “Planeta Sonho” reaparece com o arranjo de sua primeira versão ao vivo, mas bem aprimorado. De fato, é a versão mais épica de todas, dando uma pequena amostra, ao ouvinte, sobre como os shows do 14 Bis se encerram de forma apoteótica com os solos de Cláudio (coisa que presenciei tanto naquele show de 2006, quanto em 2012, no show que comentei aqui).

A banda lançaria mais uma versão oficial para a canção, em seu primeiro DVD, Ao vivo (2007). Mil problemas com o registro: a timbragem meio pasteurizada, o sumiço das mencionadas “escalinhas” (justificável no novo arranjo acústico, inexplicável nessa reedição do arranjo de 1987) e a participação vocal de Rogério Flausino. Tudo bem que o líder do Jota Quest é um baita fã da música do Clube da Esquina, mas seu estilo vocal simplesmente não tem condições de performar um dueto com um vocalista como Cláudio Venturini. O destaque positivo fica para o baixo de Magrão, tinindo. Ouça (se conseguir):

Tem uma curiosidade, nesse percurso da canção. Na novela Os mutantes: caminhos do coração (2008, Record), uma versão editada, do arranjo acústico de Bis, inseria eletricidade e Milton Nascimento em “Planeta Sonho”:

Flávio Venturini participou do 14 Bis até o álbum ao vivo de 1987. Mas permaneceria ligado afetivamente ao conjunto e a seu repertório. Em seu Ao vivo (1992), o músico reeditava o arranjo do disco de 1987, com ótimos vocais e muito punch. Excelente versão.

À época em que o 14 Bis preparava o arranjo acústico de “Planeta Sonho”, Flávio também rearranjava a obra, dessa vez, com uma pegada eletrônica, em O trem azul (1998). As cítaras da introdução sugerem um clima oriental que, afinal, não se concretiza. Bom, há quem goste desse tipo de inovação:

Então é isso? Acabou o “Planeta Sonho”? Pois foram tantas alterações ao longo dos anos: no tom, nos detalhes (a “escalinha”!), na instrumentação, nos vocais, até no gênero (de um pop-rock progressivo ao techno)…

Um alento. Deve-se tirar o chapéu para a versão tocada no magnífico show Encontro marcado (2017), em que o 14 Bis, acompanhado nostalgicamente de Flávio Venturini, acaba se tornando a banda de apoio dos amigos Sá e Guarabyra. O registro reedita, mais precisamente, o arranjo ao vivo de Flávio em 1992.

E eis que, já nos acréscimos do jogo, Flávio ressurge com o álbum DoContra – Paraíso (2019). Ali, o artista relê os grandes sucessos de sua trajetória (do antológico Clube da esquina 2, de 1978, passando pela carreira solo iniciada ainda nos anos 1980, em sua passagem pelo O Terço e, claro, o 14 Bis) acompanhado de um quinteto de baixos (!), o  DoContra, oriundo da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais e liderado por Neto Bellotto. A faixa (que abre o post) encerra o disco e simplesmente realiza meu sonho: retorna a canção ao tom original (é verdade que Flávio, agora, precisa baixar o registro vocal em uma oitava). A César o que é de César!

Dá vontade de agradecer pessoalmente.

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Flávio Venturini: se os sonhos não envelhecem, o “Planeta Sonho” também não.

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