362. Skamoondongos: “A Festa”

Hoje eu não vejo mudanças
Na verdade, nada vi mudar
Não haverá, desta forma não haverá
No Congresso é tudo uma festa
Você banda e nada lhe resta
Não haverá, desta forma não haverá
Mas você não faz parte dessa festa
Muitos entram e ninguém sai


Gosto de ska como gosto de aves, de Fórmula 1 e do zen-budismo: observo de longe, acompanho quando posso, eventualmente levo para casa alguma publicação a respeito.

Verdadeiramente, apenas um álbum em minha discoteca pode ser considerado um disco DE ska: o Segundo (1997) da banda paulista Skamoondongos. Não sei como vim a adquiri-lo (provavelmente, em alguma feira de artigos usados) e ignoro, mais ainda, o porquê de ter demorado tantos anos até resolver escutá-lo do início do fim.

Só sei que gostei imediatamente, e posso atribuir a rápida simpatia a dois fatores, não relacionados à maneira como o ska, o ritmo propriamente dito, é tocado no álbum.

Primeiramente, me chamou a atenção o que seria o lado-B do álbum, que concentra uma grande quantidade de faixas que buscam aproximar o som dos Skamoondongos de seu contexto – ou seja, este Brasilzão. Assim, temos lá “Brasil Em Dois Tons” (que abre com os versos “Olha a macumba na boca da favela / Olha o menino com sebo na canela / A lá o samba que vem descendo o morro / É a cultura, a cultura do meu povo”, depois mandando um “Salve Chico, Gonzaga, salve Mestre Salú”), “Boêmio Raga” (iniciado com guitarras que emulam um berimbau), seguida de “Ska Com Maracatú” (“Skamoondongos tá na ‘house’ / Mostrando pra vocês / Que o racismo, aqui não tem vez / Vamos nos unir, nos divertir / Cantando e dançando / Agora é nossa vez!”) e a quase instrumental “Skanudos” (em homenagem a Antônio Conselheiro).

Em segundo lugar, gostei da forma como a banda demonstra consideração para com seus padrinhos punks do BRock. Afinal, Segundo é produzido pelo inocente Clemente Nascimento, que registra participação vocal em várias faixas. E nada me tira da cabeça que a faixa de abertura, “Pobre Plebeu”, aluda à Plebe Rude, referência do (pós-)punk de Brasília. (Coincidentemente, os Skamoondongos chegaram a tocar “Medo”, do Cólera, faixa regravada pela Plebe em Enquanto a trégua não vem (2000), sendo que o próprio Clemente se tornaria um rude plebeu a partir do álbum R ao contrário (2006)). Para além disso, uma surpresa, que se tornou nosso tema de hoje: a regravação de “A Festa”, faixa de encerramento do segundo disco da banda 365 (de que já falei aqui), Cenas de um novo país (1989).

Afinal, quem gravaria o 365? Que eu saiba, somente os próprios Inocentes resolveram lembrar de seus colegas de Guarulhos, regravando o hit “São Paulo” em O barulho dos Inocentes (1999). Por conta disso, criei o maior respeito pelos Skamoondongos.

Quanto à canção em si, “A Festa”, composta pelo baterista Miro de Melo e pelo guitarrista Ari Baltazar, traz uma letra simplérrima (integralmente transcrita na epígrafe do post) que, muito punkamente, desce a lenha no Congresso Nacional. Vixe, quantas vezes devo ter ouvido a canção, após percorrer todas as demais faixas de Cenas de um novo país, em solitários passeios noturnos de carro por São Carlos…

E o bom é que, na versão dos Skamoondongos, a canção tem preservado seu riff de guitarra, ganhando apenas volume com uma instrumentação mais incorpada. Coisa de fã.

skamoondongos.jpg
Os Skamoondongos à época de Segundo: ska com brasilidades e reverência ao lado punk do BRock.

A versão original de “A Festa” traz os bons vocais de Carlos Finho:

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