363. Egberto Gismonti: “Ciclone”

Inclinando a cauda
Inclementemente vem,
Ciclone claudicante
Assalta, sobressalta
O arrebol
Que noite negra noite atroz
Num lusco-fusco, susto em nós
O medo algema o coração
Ingrato e grave o temporal
Faz grita-grita oração
Pela noite, irrompe a ventania
Ah! Noiva nua em alva luz
Leito claro, beijo louco
Grito rouco ecoando
Ecoando…


Fiz um esforço danado para fazer valer a criação do botão “Faça seu pedido” no menu que paira sobre o blog. Como afirmei há alguns dias, busquei contemplar todos que enviaram sugestões de temas ao 365 Canções Brasileiras, embora nem sempre tenha sido possível – por falta de espaço, por não haver o que dizer, ou por incompetência minha.

E, nos dias finais deste interminável 2019, eis que surge um pedido derradeiro, fruto de um encontro improvável. Senta, que lá vem estória.


Quando as pessoas descobrem que sou professor, sempre vem a inevitável pergunta, como se a docência, por si só, fosse uma profissão por demais vaga – ou, analogamente, como um verbo que exige complemento: “Professor de quê?”. Sempre me seguro para não responder que tal questão, onde trabalho, não se aplica (afinal, passei os últimos meses me revezando entre as aulas de Políticas Educacionais, História da Educação e… Estrutura da Matéria). A depender do contexto, replico com uma piadinha suja (e prefiro poupar os leitores de ouvi-la, embora, talvez, já tenham advinhado qual seja). No fim das contas, digo apenas que leciono “química”; afinal, é o que consta em meu diploma de licenciado.

O que nem todos sabem é que meu exercício do magistério começou, oficialmente, com o yoga. Foram quase cinco anos acordando cedíssimo (4h30 era um bom horário para não me atrasar) para dar continuidade à linhagem de meu padrinho, reza a lenda, introdutor do yoga em São Carlos. E foi um tempo de muito aprendizado, falhas (sobretudo as de caráter, principalmente por conta de certos excessos na vida noturna, até certo ponto, incompatíveis com o caminho da união entre corpo e mente) e – talvez o melhor de tudo – muitos encontros.

Passaram pelos mats algumas centenas de alunos, gente nova (estudantes de gradução da USP e da UFSCar), gente nem tão nova assim (lembro que Ana chegou a levar sua mãe para as práticas, e de Julio Cesar, provavelmente meu estudante de maior idade), gente com seus defeitos na coluna ou alguma outra região (e, cá entre nós, quem nasceu com corpo perfeito? Eu mesmo tenho uma vértebra capenga, minha indefectível dermatite e precisei extrair um dente supranumerário – nutro, assim, a tese de que todos somos mutantes, em maior ou menor grau), gente com dores, gente apenas a fim de relaxar e se conhecer, gente que ia paquerar os outros praticantes… Gente, enfim, que me dá saudade.

Pois estava em Santo André na segunda semana de dezembro, tomando o último drink do ano (que quase não era alcoólico, e com certa pressa, afinal, precisava vir escrever aqui no blog), quando encontro, no mesmo bar, Rafaela. No meu caderninho de controle das aulas – com a postura enfatizada no dia, mais a lista dos alunos presentes – consta que a Rafa compareceu, pela primeira vez, no meio de um ciclo de aulas sobre hiperextensões, mais precisamente, em 24 de março de 2015, no dia de bhujangasana (“postura da serpente”). Integrou, portanto, a última leva de meus aprendizes na arte indiana, pois minha aula final (excetuando-se práticas livres que ministrei por aí) ocorreria dali a exatos três meses e um dia.

Imagine a cara de nós, os xarás, ao nos reconhecermos naquele ambiente! Foi mesmo inacreditável; eu não poderia imaginar que ela estivesse morando em Santo André. Botamos rapidamente a conversa em dia e, sabendo que Rafa é instrumentista (chegou a tocar na Orquestra Experimental da UFSCar, um projeto de que gosto muito, no qual até já passou gente da minha família), contei a ela sobre este blog.

– Uau, que ideia legal! Quem você já abordou nos posts?

– Hmmmm… quem você imaginar!

– Ok. Baden Powell?

“Lapinha”.

– Nossa, essa é muito boa! Já falou do Egberto Gismonti?

– Me pegou!

Chegando em casa, mandei um e-mail à Rafa, para nos certificarmos de que ainda tínhamos nossos contatos, encaminhei o endereço do blog e, como resposta, veio a indicação de “Maracatu”, do Egberto. Mas, tão logo processei a informação (ou seja, assim que pude escutar a peça que não conhecia), tive que responder à Rafa que, aqui, só entravam canções, e que os temas instrumentais ficariam para um projeto futuro (já adianto que, em 2020, estou fechado para balanço! O 365 Temas Instrumentais não acontecerá antes de 2021). Rafa também tinha percebido que sua primeira indicação não poderia ser atendida, mas não se deu por vencida: propôs a faixa “Ciclone”, de “um outro disco do Egberto que é muito maravilhoso, nele tem umas músicas cantadas”, Sonho 70 (1970).

E, aqui, escrevendo estas tortas linhas, sinto até vergonha por nunca ter escutado nem “Ciclone”, nem as demais faixas de Sonho 70. Rafa foi mesmo precisa na adjetivação: muito maravilhoso! Álbum belíssimo (e apenas o segundo da carreira do músico fluminense), já me conquistou com a faixa de abertura, “Janela De Ouro”. E, se “Ciclone” me arrebatou, elegi como favorita a misteriosa “Lendas”.

Sob a produção e a direção artística de Roberto Menescal, mais participações vocais de Dulce Nunes, o álbum é assim descrito na dissertação de mestrado de Renato de Barros Pinto (Egberto Gismonti e a poética da semi-erudição. 2015. 93 f. Dissertação (Mestrado em Música) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015):

Sonho 70 (1970) nos traz um artista mais maduro, mais senhor dos recursos composicionais e da orquestra, sem entretanto romper com os paradigmas de seu primeiro trabalho. A instrumentação que utiliza é semelhante, com o acréscimo de algumas sutilezas trazidas por flautim, glockenspiel e guitarra. O baixo e a bateria (o nome de seus executantes não nos é informado) estão incorporados à orquestra, com partes escritas ou roteirizadas. A percussão é geralmente discreta e pontual, e há largos trechos sem sua utilização. A grande novidade fica por conta da inclusão de uma voz (Dulce Nunes) executando melodias instrumentais, um procedimento que se tornaria uma constante na obra do autor (sempre com vozes femininas, vale frisar).

Os contrastes entre as seções formais tornam-se mais pronunciados (conforme podemos observar no intermezzo de “Indi” ou na introdução em compasso ternário de “O Mercador de Serpentes”), o que nos remete à elaboração formal erudita. Em “Indi”, “Mercador de Serpentes” e “Lendas” a melódica nos remete a um vago Oriente. […]

Em termos harmônicos, continua a sobressair o procedimento de construir trechos harmônicos através da justaposição de acordes paralelos. O início de “Indi”, com seu paralelismo de acordes menores, é ilustrativo dessa ocorrência (p. 42).

Ou seja, trata-se de uma das obras das mais elaboradas que já trouxe ao blog. E, logo após esses comentários, Pinto menciona que as letras das canções (cinco, entre quatro temas intrumentais) enveredam por uma “grandiloquência algo ingênua”, citando o exemplo de “Ciclone”. (A propósito, considerando a inacessibilidade dessa letra, transcrevi-a integralmente na epígrafe do post).

Sobre a canção em si, num esforço interpretativo, diria que estamos no terreno da metáfora: Egberto não está tratando dos ciclones em si, de ventos velozes que varrem tudo pelo caminho. A estrofe final deixa claro que o contexto é nupcial: o que arrebata (“Assalta, sobressalta”) o sujeito, inicialmente contido na escuridão noturna de seu quarto, é a insinuação do ato sexual que há de vir. Quando este se revela inevitável, o próprio léxico da canção abandona os termos disfóricos (noite, negra, medo, algema, temporal), cedendo ao polo oposto (alva, luz, claro, beijo). A síntese é o orgástico grito que ecoa (e repare que as palavras “grito” e “eco” são ambivalentes: podem indicar euforia ou disforia. O grito de gol ou de pavor. O eco como permanência eternizada ou como índice de ausência, de vazio. Ou seja, talvez não haja palavras mais precisas, para resumir o ponto mais alto da conjunção amorosa carnal, que os versos finais da canção:  “Grito rouco ecoando / Ecoando…”).

Musicalmente, o piano perfeito de Egberto, mais a instrumentação da orquestra, criam um clima de dramaticidade e urgência, apropriadíssimo para a narrativa proposta pela letra. Afinal, na condução do processo de passionalização, o compositor deposita suas fichas mais na movimentação frásica e harmônica da orquestra, e menos na ocupação das regiões mais altas da tessitura, ou nos alongamentos vocálicos.

egberto-gismonti
Egberto Gismonti: um músico (semi?) erudito que entende, e muito, de canção popular.

Como conclusão do post, avalio que o encontro com a Rafa rendeu um achado musical e tanto, e talvez o último grande desafio interpretativo para este blog, que finda em breve, muito breve.

Acredite se eu disser que, para o dia de hoje, estava previsto um post no mínimo bobinho.

Obrigado por nos salvar, Rafa! E, para não perder o costume, namastê.

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