365. Chico Buarque: “Um Chorinho”

Ai, o meu amor, a sua dor, a nossa vida
Já não cabem na batida
Do meu pobre cavaquinho
Quem me dera
Pelo menos um momento
Juntar todo sofrimento
Pra botar nesse chorinho


Inicialmente, cogitei abordar hoje “Tem Mais Samba”, do álbum inaugural dessa entidade chamada Chico Buarque de Hollanda. Mas, já há algumas semanas, andava me perguntando sobre o porquê de não trazer, para cá, “Um Chorinho”.

De fato, haveria mil razões – ou mil canções – para se preterir a faixa de encerramento de Chico Buarque de Hollanda volume 2 (1967), em prol de alguma outra composição mais elaborada ou (re)conhecida.

Mas, por outro lado, há pelo menos um bom motivo para falarmos de “Um Chorinho” hoje: eu adoro a canção.


Uma divertida anedota conta que Ary Barroso, em seu programa de calouros na Rádio Mayrink Veiga, recebeu um candidato que, diante da pergunta sobre o que iria cantar, respondeu que seria um “sambinha”. A Ary,  faltou apenas soltar fogo pelas ventas:

É o tal negócio, vai cantar música brasileira, é “sambinha”. Se ele viesse aqui cantar um mambo, ele diria “vou cantar um mambo”, não era “mambinho” não, era “mambo” no duro. Mas vai cantar música brasileira, é “sambinha”, na base do deboche.

Outro dia mesmo, estava escutando, em meu gabinete, um belíssimo disco com choros de Radamés Gnatalli, quando surge uma colega de trabalho: “Nossa, que legal, Rafa, você trabalha ouvindo uma musiquinha!” Rapaz, fosse um xingamento à minha mãe, ou uma provocação de anti-corintiano, eu teria ficado menos ofendido.

E o choro é especialmente propício à aplicação do depreciativo (muito mais que carinhoso, é bom que se diga) diminuitivo. Devo até ter escutado uma coletânea de “chorinhos de Waldir Azevedo” ou algo do tipo. O deboche está, infelizmente, institucionalizado. (Quando conto às pessoas sobre o Festival Chorando Sem Parar, quase sempre observo uma cara de interrogação diante da palavra “choro”. Dá-lhe explicar do que se trata, só para ouvir: “Ah, tá, chorinho!” Arrrrrgh!!!)

Ok, mas e o quico, ou melhor, e o Chico?

Como diria o irritante jargão da contemporaneidade, vou passar um pano. Chico pode. Simples assim. E farei mesmo uma defesa do compositor paulista, mas torcedor do Fluminense.

“Um Chorinho” é, na verdade, uma canção metalinguística. E quem está usando o diminutivo não é o próprio Chico – que, numa ocasião em que cantasse pela própria voz, diria mesmo “choro”, vide “Meu Caro Amigo” –, mas sim o personagem da canção. Aliás, boa parte das interpretações dirigidas à obra buarquiana padece desse mal: toma seus textos como se eles exprimissem fielmente a voz do próprio cancionista, quando se sabe, perfeitamente, que o mesmo é também um hábil recolhedor de personas espalhadas pela sociedade, tipos universais – a submissa, o malandro, o deprimido, a orgulhosa, o romântico, a beata, etc.

Além disso, o uso do diminutivo permite o emprego de diversas palavras que rimam: cavaquinho, caminho, sozinho. Tão bem posicionadas, não só rimam, como criam um efeito expressivo interessante: trazem o sentido de modéstia, de pequena obra, o que contribui para aproximar o ouvinte do personagem que, afinal, apesar de compositor, parece ser “gente como a gente”.

E, falando em rima, adoro a forma como a letra pode ser lida fazendo aparecer pequenas rimas encadeadas (“Meu choro é coisa pequena / Mas roubado a duras penas do coração”), valorizando também um esquema pouco comum na canção popular, em que um som do meio da estrofe é retomado apenas em sua conclusão – e com muita assonância, do jeito que gosto: “Mas não faz mal / E quem quiser que me compreenda / Até que alguma luz acenda / Este meu canto continua / Junto meu canto / A cada pranto / A cada choro / Até que alguém me faça coro / Pra cantar na rua“.

A delícia (e também a tragédia) de escutar essa canção é perceber que, entre versos tão assonantes (e com leves aliterações), é quase impossível esperar que alguém, de fato, fará coro aos versos do personagem!

As canções brasileiras são mesmo abençoadas por terem, para si, um artífice como Chico Buarque. E abençoados também somos nós, por delas podermos desfrutar.

chico-buarque.jpg
Chico Buarque: ponto culminante da canção popular brasileira.

“Um Chorinho” integrou a trilha do filme Garota de Ipanema (1967, Leon Hirszman). Nele, Chico faz até uma ponta, cantando e tocando a canção. A versão da trilha sonora oficial (que traz, claro, os nomes de Tom Jobim e de Vinícius de Moraes, além do mencionado Ary Barroso) é um pouco diferente da que consta em Chico Buarque de Hollanda volume 2Na verdade, é a minha preferida, apesar de dispensar a elaborada orquestração do outro arranjo:

E se você gosta mesmo de um bom regional tocando choro, não deixe de escutar a versão intrumental do Choro Moço, que aparece em Chico no choro (2012). Perceba, inclusive, algumas pequenas ousadias no arranjo:

Pra fechar com chave de ouro.

4 comentários

  1. E cá estamos no último post desse projeto! Parabéns! Parabéns! 365 vezes Parabéns! Melhor que concluir o projeto com uma canção tão bonita e um post muito agradável a leitura, foi ter conduzido o mesmo de forma tão bela e dedicada ao longo deste ano! Foi um prazer ter acompanhado. Ainda que de forma não tão assídua quanto eu gostaria, pude prestigiar dia a dia a canção tema por meio dos alertas no meu email. Agora me pergunto, como ficarei em 2020 sem as doses diárias de posts? Fiquei mal-acostumada! rsrs

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    1. Oi, Didi.
      Primeiro, preciso pedir desculpas a você e ao The Mulan: não conseguirei vê-los na próxima reunião da turma (vocês virão para SP, certo?). Não é por desconsideração para com você e nossos amigos, é por força maior. Sinto muito mesmo!
      Em segundo lugar, preciso agradecer pela força que vocês dois me deram no início deste projeto. Aqueles comentários iniciais foram uma enorme injeção de ânimo pois, bem no comecinho, parecia que o 365 Canções Brasilleiras não ia engrenar. Então, como qualquer produto do trabalho humano, este blog é também uma obra coletiva, e vocês podem se considerar coautores dele.
      E lembro também que, láááá atrás, na época em que vocês estavam terminando seus doutorados, começou o Samba de 1ª, que rendeu estórias e posts aqui. Vocês foram dois grandes entusiastas daquela iniciativa que marcou não apenas 2012/2013, mas minha vida. De certa forma, o blog também começou lá.
      Enfim, vocês foram decisivos para este projeto, como são decisivos nesta minha existência.
      Quanto às doses diárias de reflexões cancionais, também sentirei falta, mas em 2021 (no mais tardar, 2022) voltamos com um novo projeto, talvez menos ousado.
      Grande bjo nocês!

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    1. Bom, com seu último comentário, agora posso dizer que o blog termina oficialmente!
      Foi uma alegria muito grande ter você como interlocutor nos últimos meses, Ademar. Espero que nos reencontremos em outros projetos.
      Um grande abraço, meu amigo, um excelente 2020 e, quem sabe, nos vemos novamente em 2021.

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