Bônus – Angela RoRo: “Gota De Sangue”

Não tire da minha mão esse copo
Não pense em mim quando eu calo de dor
Olha meus olhos repletos de ânsia e de amor
Não se perturbe nem fique à vontade
Tira do corpo essa roupa e maldade
Venha de manso ouvir o que eu tenho a contar
Não é muito nem pouco, eu diria
Não é pra rir mas nem sério seria
É só uma gota de sangue em forma verbal


Alguém estava com saudade do 365 Canções Brasileiras?

Eis que surge, repentinamente, este post “bônus”, premeditado para creditar uma canção ao dia 29 de fevereiro.

Afinal, ao longo de 2019, todos tiveram direito a um som em seu dia de comemorar primaveras (e claro, recebi algumas reclamações do tipo “não-gostei-do-tema-escolhido-no-meu-aniversário”, além de uma bem-sacada piada do MP – “Pô, Japa, ‘Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim’ no dia em que faço anos é um tremendo ato falho, né não?”).

Pois bem, os nascidos neste bissexto dia também merecem um post.


Uma ausência imperdoável, ao longo dos 365 posts do ano passado, foi o nome de Angela RoRo, essa fluminense incrível, ora septuagenária, e que já foi definida como “um híbrido entre Janis Joplin e Maysa” (esta também, por sinal, sequer figurou na nuvem de palavras).

Minha primeira memória de uma canção sua foi a regravação do Barão Vermelho para “Amor, Meu Grande Amor”, lançada em Álbum (1996). Demoraria anos, aliás, até vir a conhecer a versão original de RoRo, lançada em seu disco de estreia, o epônino Angela RoRo (1979). Quando isso aconteceu, foi paixão imediata; daí em diante, ficou até difícil não se incomodar com a versão de Frejat e companhia – que, afinal, é até boa, mas não chega aos pés da que é conduzida pela própria compositora.

Quanto ao LP, basta dizer que Angela RoRo é uma obra linda do começo ao fim. Aliás, já desde a capa, trazendo o rosto angelical de uma garota de enormes olhos claros e um estilo meio hippie, meio indígena, aparentemente mais amazonina que Fafá de Belém.

Mas o envólucro engana: nem o conteúdo do álbum mantém qualquer elo, lírico ou instrumental, com as tradições da Amazônia; nem a garota era assim tão inofensiva.

Com efeito, o disco sustenta um lado-A inteiro focado no tema da fossa, com fortíssimo acento blueseiro. E, além das proeminentes teclas de Antônio Adolfo (imagino que seguindo à risca as orientações da própria titular da obra, ela mesma exímia pianista), chama a atenção o timbre de RoRo, como que mesclando os graves de Maria Bethânia com a rouquidão de Marina Lima (que, coincidentemente, estreava fonograficamente também naquele 1979). O ouvinte desprevenido, que imaginou um timbre límpido e agudo emanando daquela presença femininíssima estampada na capa da bolacha, quebrou a cara, pois só encontrou a intrepidez – determinada, ainda que algo tímida – de uma intérprete vocal cheia de personalidade.

A segunda faixa do álbum foi a que mais me impressionou à primeira audição, por isso a tematizo neste post especial. “Gota De Sangue” é uma balada blues voz-e-piano, e dá voz a um sujeito que, no alto de sua embriaguez durante um encontro amoroso casual, exala a irresponsável sinceridade dos ébrios. Há também um quê de atrevimento – primo, talvez, da própria ousadia de RoRo, declarando-se lésbica, com todas as letras e despida de eufemismos, na faixa seguinte, “Tola Foi Você” –, indicado pela profusão de verbos no imperativo.

A verdade dói em quem a profere e em quem a ouve; mas não façamos tempestade num copo d’água. E note que – corroborando essa constatação –, mesmo a melodia sendo tipicamente passional, seu contorno permanece relativamente contido, não se arriscando a grandes saltos intervalares ou a chamativos alongamentos vocálicos. O destaque mesmo recai sobre o encadeamento dos versos “Deixa eu beber teu perfume / Embriagar a razão, porque não volto atrás”, belíssimo pela maneira como o “embriagar” é recitado tão vacilante quanto transitivamente, ligando a euforia alcoólica à disforia lógica.

No fim, é tudo muito simples: esta sou eu, e eis-me diante de você, desejando-te aqui e agora, sem elucubrações. Não é nada, não é nada: importam apenas nossos desejos de conjunção. Como dito, a verdade dói e é essa, nua e crua: sangra sim, mas em gotas; não mata ninguém. Por isso, “Nunca confunda carinho e desejo” e “Beba comigo a gota de sangue final”, pois todo encontro, por mais belo e cinematográfico que pareça, é sempre candidato a ser o derradeiro.

Pérola da canção popular brasileira.

angela-ro-ro
Angela RoRo: ousando um blues não azul, mas vermelho como o vinho.

“Gota De Sangue” foi lançada por Maria Bethânia em Mel (1979), meses antes do debute de RoRo em disco. Na versão cantada pela ídola, é a própria compositora quem martela – nervosamente, diz a lenda – o piano. O arranjo é o mesmíssimo de Angela RoRo. Mesmo assim, vale a escuta atenciosa… e a comparação: qual a sua versão preferida? Não me arrisco a responder por nada neste mundo! Apenas escute o registro bárbaro da baiana:

E como seriam interpretações alternativas para as canções de Angela Roro, mas conduzidas por outros timbres – incluindo os mais agudos? Já imaginou Gal Costa, Elis Regina, a mencionada Fafá, ou talvez Marisa Monte, quem sabe Adriana Calcanhotto, fazendo aquela emoção abafada e rouca alçar altos voos melódicos? Cida Moreira é quem responde, com uma versão incrível para “Gota De Sangue” no registro do show Summertime (1980), gravado na Lira Paulistana:

Das questões acima, a derivação inevitável: um homem cantar “Gota De Sangue”, funcionaria? Isso é você quem me responde, ouvindo a versão de Adriano Cintra para o tributo Coitadinha bem feito: as canções de Angela RoRo (2013). O projeto, idealizado pelo DJ Zé Pedro, aglutina números cantados apenas por rapazes. Confira a releitura de Adriano, que desfaz o arranjo bluesy original:

2 comentários

    1. Ah, Ademar, que saudade dos seus comentários espirituosos! Fiquei imaginando que este post passaria batido. Ainda bem que você apareceu aqui novamente.
      A Angela é bem mais que uma artista polêmica. Parece nunca ter ligado muito para as convenções sociais e para os estereótipos. Acabou pagando um preço caro por suas escolhas na vida pessoal, com reflexos de certa forma injustos em sua carreira como cantora e compositora.
      Enfim, grato pelo comentário!

      Curtir

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