109. O’Seis: “Suicida”

Cismei outro dia e quis me suicidar
Fui me atirar do Viaduto do Chá
A turma que passava não queria deixar
A vida pro meu lado estava má
Consciência pesada me mandava pular
Resolvi então saltei
O carro que passava eu achatei
Minha cabeça se esfacelou
E o chofer lá de dentro gritou


Entre 2009 e 2010, escutei diversas coletâneas que tinha adquirido usadas, como CDs vendidos a dois ou três reais. Algumas delas pertenciam à CDTeca Folha, uma coleção com volumes temáticos – dos quais escutei aqueles dedicados ao rock dos anos 1980, à bossa-nova e ao tropicalismo.

Esse volume da Tropicália intitulava-se Cantando contra o vento e trazia alguns nomes óbvios, como Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé, outros que até poderiam ser incluídos no movimento inaugurado pelos baianos (como os Secos e Molhados e Walter Franco), e uns tais de O’Seis, cantando uma faixa intitulada “Suicida”, que me chamara muito a atenção.

cantando-contra-o-vento.jpg

Gostei bastante desse rock carregado de humor negro (cantando a jornada de um suicida que, depois de se atirar do Viaduto do Chá, percebe que só terá como companhia, dali em diante, outras almas penadas no cemitério), notando algo de familiar na canção. Algum tempo depois, percebi que os tais O’Seis eram uma espécie de embrião de ninguém menos que Os Mutantes.

Como nos conta Rita Lee em sua recomendadíssima Uma autobiografia (Globo, 2016), o conjunto surgiu da improvável fusão de seu trio, as Teenage Singers, com um sexteto rival, os Wooden Faces. A cantora, à época, tinha apenas 19 anos, e as Teenage Singers até já haviam participado de gravações alheias. Após a fusão com os rivais, mais a debandada de três membros (“briga atrás de briga, fofocas e namoricos escondidos, ora saía uma e entrava outro ou entrava outra e saía um”), restou um conjunto composto por Rita (voz), Arnaldo Baptista (baixo), Sérgio Dias Baptista (guitarra), Raphael Villardi (guitarra), Luiz Pastura (bateria) e Maria “Moggy” Olga Malheiros (voz) – os seis.

Sobre a gravação, datada de 1966, nos conta Rita:

Chegamos a gravar um single pela Continental. No lado A, a música “Suicida” (Raphael e Tobé [apelido de Roberto Loyola]), e no lado B, “Apocalipse” (minha e do Raphael), ambas falando de morte, a primeira de um jeito brincalhão, a segunda, mais dramática [e no vídeo que abre o post, você escuta as duas em sequência]. Chegamos a fazer algumas apresentações esporádicas, mas não deu pra segurar os egos por muito temppo, brigas e mais brigas e do O’Seis sobraram três: Arnaldo, Sergio e Eu (p. 59).

Fábio Bridges, no blog Pequenos Clássicos Perdidos, fala um pouco sobre a musicalidade de “Suicida”, ou melhor, do compacto Suicida/Apocalipse:

Musicalmente ainda está longe das experimentações alucinadas que marcariam os trabalhos dos Mutantes (muito embora os instrumentos e toda parafernália do grupo tenham sido construídos pelo genial CCDB, o Cláudio César, irmão mais velho da família Dias Baptista), mas as letras já mostram o sarcasmo, a acidez e o humor típicos dos reis da lisergia tupiniquim.

Em 2012, o compacto – de maior valor histórico do que artístico, é bom dizer – foi reeditado de forma extraoficial (jeito bonitinho de dizer “pirata”) pelo Selo 180. Em 2018, o selo inglês Mr. Bongo fez a mesma coisa.

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O’Seis, com Rita Lee ao centro: registro histórico dos primeiros encontros musicais com os irmãos Dias Baptista.

Não há registros oficiais de regravações de “Suicida”. No entanto, há um encontro extraoficial entre Sérgio Dias e o compositor Raphael Villardi cantando-a nos dias de hoje, generosamente compartilhado no YouTube. Mais um momento histórico! Não deixe de assistir:

Como curiosidade, tem o fato de “Suicida” ter inspirado “Gloria F”, faixa da carreira pós-Mutantes de Rita, presente no álbum Rita e Roberto (1985). Composta pela cantora e pelo companheiro Roberto de Carvalho, a faixa não disserta sobre lado sobrenatural do post mortem: a tentativa de suicídio fracassou e, dos remendos do quase-cadáver, surgiu a personagem Gloria Frankenstein! Mas os versos iniciais da letra, de fato, são quase idênticos a “Suicida”: “Na sexta-feira eu cruzava calmamente o Viaduto do Chá / Por um segundo me bateu uma vontade doida de pular e pulei / A Kombi que passava eu achatei / Meu corpo ensanguentado se esfacelou pelo asfalto”. Ouça, direto do vinil:

2 comentários

  1. A primeira faixa me lembrou bem mais a jovem-guarda que a tropicália – Quanto à autobiografia de Rita-Lee ,fui lendo e rindo,muito engraçada.

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