108. Baden Powell: “Lapinha”

Vai meu lamento vai contar
Toda tristeza de viver
Ai a verdade sempre trai
E às vezes traz um mal a mais
Ai só me fez dilacerar
Ver tanta gente se entregar
Mas não me conformei
Indo contra lei
Sei que não me arrependi
Tenho um pedido só
Último talvez, antes de partir
Quando eu morrer, me enterre na Lapinha


A parceria de Baden Powell e Vinícius de Moraes rendeu um dos mais assombrosos álbuns de todos os tempos, os Afro-sambas (1966), que traz clássicos como “Canto De Ossanha”, “Tristeza E Solidão” e “Canto De Iemanjá” (está, já tematizada neste blog – clique aqui).

O que nem todos sabem é que Baden teve outro grande parceiro de composições, o onipresente Paulo César Pinheiro, com quem, inclusive, elaborou outros afro-sambas. A dupla cunhou diversas canções, coligindo um punhado delas num álbum que praticamente passou batido: As músicas de Baden Powell e Paulo César Pinheiro (1970), assinado por Baden e Os Cantores da Lapinha. O tal conjunto nada mais é que metade do Quarteto em Cy (Cynara e Cyva) com metade do MPB-4 (os saudosos Magro e Ruy).

A obra traz uma boa coleção de sambas, alguns mais bossa-novistas (“Falei E Disse”) outros mais macumbeiros (o propriamente intitulado “Ponto”), e a canção de hoje, “Lapinha”. Numa apresentação no programa MPB Especial (que se tornaria o Ensaio, na TV Cultura, de Fernando Faro), Baden explicou que a composição encaixa um tema folclórico da Bahia (“Quando eu morrer, me enterre na Lapinha / Calça-culote, paletó- almofadinha”), um dos prediletos do famosíssimo capoeira Besouro Mangangá – retratado no longa Besouro (2009), dirigido por João Daniel Tikhomiroff -, com uma letra de Paulinho sobre a própria jornada do lutador.

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Baden Powell: um dos grandes nomes do violão mundial, compôs afro-sambas com Vinícius e também Paulo César Pinheiro.

Luís Pini Nader, no blog Por Trás da Letra (infelizmente, descontinuado), conta com mais detalhes a origem da composição, lembrando que em 1968 a TV Record precisava dar um rumo para os festivais, sem permanecer aborrecendo os militares – já que os classificados das edições de 1967 foram subversivos do quilate de Edu Lobo, Gilberto Gil (com Os Mutantes), Chico Buarque e Caetano Veloso:

Mas como fazê-lo sem desprezar o estrondoso sucesso de público e, principalmente, de renda?

Resposta: abrindo espaço para o pessoal da chamada “Velha Guarda”. Assim surgiu a “I Bienal do Samba” […]. Primeiro porque o samba sempre foi considerado – erroneamente, a meu ver – uma música “alienada”. Além disso, os mestres de nossa música eram doutores em samba, mas não tinham lá muita familiaridade com revoluções, fossem elas estéticas, tropicalistas, ou bolcheviques.

Baden Powell, à época, já desfrutava de bastante prestígio, principalmente por suas parcerias com Vinícius de Moraes, mas, desta vez, queria sangue novo para o novo Festival. Foi à casa do primo, João de Aquino, e roubou-lhe o parceiro, o precoce e já maduro letrista Paulo César Pinheiro, então com 16 anos e ainda imberbe.

Baden mostrou-lhe um samba de roda que aprendera na Bahia com seu amigo e capoeirista, Canjiquinha. O tema havia sido composto pelo lendário Mestre de Capoeira Besouro Mangangá, ou Besouro Cordão de Ouro, famoso tanto por suas composições quanto pela coragem de enfrentar a polícia e revoltar-se contra os desmandos dos Senhores.

Paulo César Pinheiro já havia lido no romance “Mar Morto”, de Jorge Amado, algumas histórias do Mestre capoeirista que voava como um besouro para escapar da polícia.

Percebendo que o momento era propício para aquele resgate, os compositores fizeram uma segunda parte para a música do Besouro, exaltando o homem que, mesmo só, contra o erro lutava e, ante a derrota, gritava. E assim nasceu uma das mais brilhantes parcerias da música brasileira.

Inscrita no festival, por absoluta ignorância dos organizadores, “Lapinha” quase foi desclassificada por plágio. Obviamente, tratava-se de uma citação literal, uma homenagem explícita ao canto do Besouro, sem a malícia que caracterizaria o plágio.

Depois de alguma argumentação, a canção pode seguir no festival, defendida por Elis Regina, até ser premiada com o 1º lugar da “I Bienal do Samba”.

Dentre os argumentos utilizados para convencer os organizadores a manterem “Lapinha” no páreo, deve estar o fato de outra canção do Besouro Mangangá ter sido citada numa música de Noel Rosa.

Eis os versos do Besouro: “Quando eu morrer, disse Besouro/ Não quero choro nem vela / Também não quero barulho / Na porta do cemitério / Eu quero meu Berimbau / Eu quero meu Berimbau / Com uma fita amarela / Gravado com o nome dela”.

Qualquer semelhança com “Fita Amarela” não é mera coincidência. Ao que se saiba, no entanto, o Poeta da Vila jamais foi acusado de plágio.

Assim, graças ao Besouro Cordão de Ouro, o abacaxi voltou intocado ao colo dos diretores da TV Record, já que, na Globo, os Festivais mantiveram seu formato tradicional e o ano de 1968 acabou com Tom Jobim e Chico Buarque vaiados durante a apresentação da vencedora, “Sabiá”.

Ainda que, para alguns, como dito acima, 1968 não tenha acabado.

Sem mais.


“Lapinha” foi regravada por muita gente, destacando-se a já mencionada interpretação de Elis Regina, registrada num compacto de 1968, e talvez a versão definitiva:

Destaco também a versão cheia de molejo cantada por Marcos Sacramento (e Clara Sandroni, nos vocais) no álbum 6º com passo – samba e choro (2002); a de Virgínia Rodrigues, em Mares profundos (2004), disco que rende tributo aos afro-sambas tanto da dupla Vinícius-Baden, quanto de Baden-Paulinho; e a de Marianna Leporace que, com seu timbre, lembra um pouco Elis, na homenagem Marianna Leporace canta Baden Powell (2007), com o herdeiro Marcel Powell tocando violão e assinando o arranjo.

Em 2010, o próprio Paulo César Pinheiro lançou o já antológico álbum Capoeira de Besouro, com várias capoeiras que compôs em homenagem ao lendário mestre baiano. (Exibo minha cópia com orgulho para todos que me visitam!). O encarte traz um release de Luciana Rabello (esposa de Paulinho), narrando a origem do álbum:

Paulinho Pinheiro faz aqui um resgate emotivo da sua própria história que, misteriosamente, teve inicio com Besouro, quando o poeta e Baden Powell venceram a Bienal do Samba com “Lapinha” – samba imortalizado na voz de Elis Regina, composto sobre refrão de Mestre Besouro Preto. Sim, são do capoeirista os versos “Quando eu morrer me enterrem na Lapinha / Calça-culote, paletó-almofadinha.” Assim, sem ter idéia da carreira que iniciava e da grandeza do que iria construir na nossa música, Paulinho adentrava os portais da música e da poesia, aos 16 anos, conduzido pelas mãos de Mangangá.

“Lapinha”, assim foi incorporada à faixa de encerramento do álbum, o animado “Samba De Roda”, que traz o refrão “Quando eu morrer…” cantado pelo coro, entremeado pelos novos versos de Paulinho, como “Quando eu morrer / Eu não quero enterro caro / Quero samba em vez de missa / Na matriz de Santo Amaro / Oi Camará”. Ouça e se delicie:

Por fim, como curiosidade, trago a incrível versão instrumental do violonista carioca Daniel Murray, presente no recente 14-37 (2018). O tema ganha contornos modais na parte referente ao refrão (bem ao feitio do contexto santo-amarense do próprio Besouro), e ares mais clássicos no que seriam os versos de Paulinho. Escute com atenção:

5 comentários

  1. A versão ao vivo da Elis é mais animada,inclusive o trecho que ela declama,enfim,um grande momento da Bienal do Samba.

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