349. Paulo César Pinheiro: “Toque De Cavalaria”

Já chegou o sargento
Da capitania
Vamos tocar cavalaria
Ele quer documento
É a ordem do dia
Vamos tocar cavalaria
Trouxe o seu regimento
Pro cais da Bahia
Vamos tocar cavalaria
Todo o destacamento
Da delegacia
Vamos tocar cavalaria


Passando um fim-de-semana em São Carlos, eis-me com a coleção de CDs (que saudade deles!) à minha frente, divididos nas gavetas de meu velho guarda-roupas, separados por gênero e, neles, a ordem alfbética: internacionais, new-age/instrumental/étnico, rock nacional, MPB e coleções especiais. Não é muita coisa (ainda não cheguei na casa do milhar), mas tenho um tremendo orgulho tanto do conjunto, quanto da forma como os preservo.

Com efeito, não deixo as caixinhas muito à mostra, justamente para garantir que durem. De cada uma, recolhi o disco propriamente dito, e o coloquei num dos inúmeros estojos de CDs. Quando de uma nova aquisição, há todo um ritual: devorar o encarte e a própria obra por mais ou menos um mês, até saber de cor todas as faixas; daí, guardar a caixa, com o encarte quase imaculado (e, quando tem, nota fiscal da compra), dentro do plastiquinho que embrulhava originalmente o produto; e o dispor em alguma das categorias de minha classificação elementar, mas funcional.

Pois bem, tenho aqui em mãos um disco especialíssimo, envolto em estórias e significados: trata-se de Capoeira de Besouro (2010), de Paulo César Pinheiro. Sim, finalmente, ele – talvez o maior compositor da canção popular brasileira, ou ao menos seu mais prolífico representante –, tantas vezes mencionado aqui no blog, praticamente sem que ouvíssemos sua voz (na verdade, lá está ela em “Sublime Primavera”).

A nota fiscal está dentro do encarte, e nela constam duas informações importantes. Primeiro, que paguei o (a princípio) inaceitável preço de R$42,90 pelo produto, que nem CD duplo é. E, em segundo lugar, que a compra foi realizada em 30 de outubro de 2012.

O fato de eu ter pago tão caro pela mercadoria já diz muita coisa: não gastaria um valor alto assim, não fosse o disco um verdadeiro objeto de desejo.

Já a data me remete a várias recordações de um ano muito bom, que havia me trazido, desde maio, uma nova alma companheira. Não sei se namoramos mesmo ou se apenas tínhamos uma amizade forte e insuspeita, dadas as origens de cada um: eu, moço do interior que nunca havia saído da própria casa; ela, da Bahia profunda, procurando uma nova oportunidade de trabalho em minha terra. Sei que nos afinizamos imediatamente, trocamos declarações de amor, vivemos boas aventuras e passamos alguns perrengues, e tudo isso quase secretamente. Mas sabíamos que aquilo não duraria para sempre, pois o mundo pediria de volta aquela existência errante, dad que o Brasil não seria o bastante para aquela filha de Oxum. Por isso, aproveitamos cada segundo dos pouco mais que seis meses de nossos encontros, nem sempre frequentes, mas intensos e celebrativos.

A questão é que minha amiga-parceira faz aniversário em novembro, e quis presenteá-la com algo que pudesse matar suas saudades da Bahia. Por isso, escolhi para ela Anel de aço (2011), reedição de Santo e orixá (2007) de Gloria Bomfim, disco com afro-sambas de Paulinho Pinheiro (no qual constam duas faixas já abordadas aqui, “Sultão Do Mato” e “Encanteria”, esta, na versão de Maria Bethânia). E, para aproveitar a compra, presenteei-me com o Capoeira de besouro.

Nem preciso dizer que ambos adoramos os regalos.


Capoeira de besouro traz, no belíssimo encarte (ilustrado com xilagravuras de Ciro Fernandes), um release assinado por Luciana Rabello, a célebre cavaquinista casada com Paulinho. Ali, a instrumentista narra a origem do álbum-projeto:

Paulinho Pinheiro faz aqui um resgate emotivo da sua própria história que, misteriosamente, teve inicio com Besouro, quando o poeta e Baden Powell venceram a Bienal do Samba com “Lapinha” – samba imortalizado na voz de Elis Regina, composto sobre refrão de Mestre Besouro Preto. Sim, são do capoeirista os versos “Quando eu morrer me enterrem na Lapinha / Calça-culote, paletó-almofadinha.” Assim, sem ter ideia da carreira que iniciava e da grandeza do que iria construir na nossa música, Paulinho adentrava os portais da música e da poesia, aos 16 anos, conduzido pelas mãos de Mangangá.

Em 2006, foi montado o musical “Besouro Cordão de Ouro”, também escrito pelo poeta, com direção de João das Neves e direção musical minha. Essas são as músicas dessa peça. Recebemos o Prêmio Shell de Teatro por esse trabalho, na categoria Melhor Música e Direção Musical! E o Besouro continua seu voo.

Discípulo direto do Mestre, aluno do também lendário Mestre Bimba e hoje forte referência da capoeira em todo mundo, Mestre Camisa não só participa das gravações tocando o berimbau gunga, como generosamente conduz nossos passos por essas veredas cheias de fundamentos, mistérios e verdades da capoeira. São dele os textos descritivos dos toques, imprescindíveis para o mergulho do ouvinte e leitor nessa arte. Mas esse trabalho não pretende ser um tratado sobre a capoeira. Carece ser recebido com a suavidade e a liberdade que o olhar da poesia de Paulinho vislumbra.

Então, deixe a emoção comandar e venha bater palma com a gente nessa roda de capoeira!

Pois então, o projeto colige 15 capoeiras de Paulinho que, a bem da verdade, criou temas para/sobre a “luta regional brasileira” durante toda a sua trajetória como compositor, desde os tempos em que foi casado com Clara Nunes (a exemplo de “Jogo De Angola”, em parceria com Mauro Duarte), até muito recentemente (como “Berimbau De Angola”, com Pedro Amorim, lançada em seu Voz nagô, de 2017).

Das faixas de Capoeira de Besouro, escolhi tematizar o “Toque De Cavalaria”, cujo toque é assim descrito, no encarte, pelo Mestre Camisa:

Toque tradicional também conhecido como AVISO. No tempo da repressão, era executado para alertar sobre a proximidade da polícia ou de algum indivído estranho à roda de capoeira.

O motivo de ter selecionado justamente esse toque tem a ver com o contexto mencionado pelo Mestre: numa época de proibição da ginga (pública ou privadamente), um toque de aviso era imprescindível para se disfarçar a luta como dança, ou para preparar os capoeiras para a dispersão forçada.

Bom, quase cem anos depois, nos vemos novamente frente à iminência do endurecimento do regime político. E qual deve ser a postura do povo frente à truculência que se avizinha? O “Toque De Cavalaria” avisa: “O militar que tome tento / Porque vai ter pancadaria / Se extrapolar no tratamento / Vamos tocar cavalaria / O povo segue o ensinamento / Que Mestre Mangangá dizia / Pra quem é bravo e violento / Vamos tocar cavalaria”.

Recado dado.

paulo-cesar-pinheiro.jpg
Paulo César Pinheiro: nome superlativo da canção brasileira, seguindo os passos guerreiros de Besouro Mangangá.

2 comentários

    1. E eu achando que este seria o último post do ano com canção de autoria dele… realmente ele está em tudo, impressionante. Merece todas as homenagens em vida, pois um cancionista desses não nasce duas vezes!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s