305. Samba de Fato e Cristina Buarque: “Sublime Primavera”

Tem um dia que a gente sempre espera
A chegada da sublime primavera
Só não pode é desistir nem blasfemar
Que vai chegar
Que vai chegar


Falo sobre canção porque, afinal, canção me emociona.

Um arranjo clássico, reproduzido ao vivo; plateias cantando em uníssono uma melodia sedimentada no imaginário; a epifania de encontrar o fio da meada, que desamarra os nós do entendimento e da ressonância no coração: são todos fenômenos que, se não me desequilibram ao ponto de marejar os olhos ou gerar reações eufóricas – porque, como vivo dizendo neste blog, sob esse aspecto sou o verdadeiro “homem de gelo” –, certamente provocam em mim uma reação fisiológica que salta aos olhos de quem está por perto, o arrepio.

Pois fiquei arrepiado, do topo da cabeça aos pés, ao ter confirmada uma impressão musical que guardava em meu íntimo, mas que não havia ousado compartilhar com ninguém, por temer demonstrar precipitação ou falta de conhecimento.

É que conheci, por volta de 2012, um disco maravilhoso, O samba informal de Mauro Duarte (2007). Assinado pelo conjunto Samba de Fato e por Cristina Buarque, o álbum duplo colige 30 números compostos pelo eterno Bolacha, um dos mais importantes parceiros do não menos grandioso Paulo César Pinheiro. (Aliás, uma famosa composição de ambos, mais o saudoso João Nogueira, já foi trazida ao blog, “Um Ser De Luz”, a belíssima homenagem de Alcione a Clara Nunes). Entre canções inéditas, parcerias completadas postumamente por Paulinho e o resgate de números obscuros difusos pela discografia de muita gente, o registro tem como características a coesão em termos de arranjo e execução – apenas o Samba de Fato garante o suporte instrumental –, a marca da afetividade (já que, além de avalizado por Paulo César Pinheiro, o projeto materializa uma intenção antiga de Cristina, amiga próxima de Mauro, com quem dividiu um álbum em 1985) e um resultado impecável em termos artísticos e, sobretudo, históricos.

Bem, ali encontrei uma canção singela, um dos tantos sambas inéditos de Bolacha e Paulinho presentes no projeto, “Sublime Primavera”, que me conquistou à primeira escuta. O Samba de Fato, sem querer se sobressair demais – com a competência costumeira de Alfredo Del-Penho (violão de 7), Pedro Miranda (percussão), Paulino Dias (percussão) e Pedro Amorim (bandolim) –, segura o andamento para que a voz particularíssima de Cristina (e perceba como seu timbre ecoa o do irmão mais famoso, Chico Buarque) cante uma letra melancólica mas, afinal, esperançosa.

Bom, o mencionado arrepio me veio quando, anos após ter conhecido a canção, li uma resenha de O samba informal de Mauro Duarte, escrita por Luiz Fernando Vianna (que você pode acessar aqui). E não é que no texto, a certa altura, o crítico relacionava “Sublime Primavera”, por seu tom filosófico e sua cadência sofrida, aos sambas de Nelson Cavaquinho? Pois fora justamente o que mais despertou minha atenção, quando me flagrei buscando interpretar o significado da canção: essa influência cavaquiniana.

Parece algo bobo e talvez seja mesmo. Mas, quando esse tipo de convergência interpretativo-genalógica ocorre, não consigo deixar de me emocionar – e, como disse, arrepiar. É como se sentir autorizado a participar da história da canção, ingressando, ao menos como coadjuvante, numa narrativa criadora que remonta a um passado distante, e se estende até o momento único em que, ativamente, se decodifica a obra artística.

Pois no início era Nelson, e o mangueirense se fez influência, e Mauro/Paulinho compuseram “Sublime Primavera” por ele inspirados, e o Samba de Fato tocou, e Cristina cantou, e ouvimos a canção gravada, e construímos – ativa e subjetivamente – o sentido da obra, e (por fim… mas será mesmo o fim?) a obra se torna, de certa forma, nossa também.

E, se você acha que isso tudo é delírio, procure “adentrar” nessa narrativa. Lembre que, para Elton Madeiros (quantos sambistas finados neste post!), Mauro Duarte era imbatível nos sambas em tom menor – informação que encontrei, justamente, na mencionada resenha de Vianna –, por sinal, marca registrada dos tristíssimos sambas de Nelson. E então, leia “Sublime Primavera” como uma composição que dialoga com “Juízo Final”: se, para Nelson, a maldade há de desaparecer no Dia do Julgamento, para Mauro e Paulinho a primavera, teimosamente, não tardará a florir nossos caminhos, pois “também não custa nada se sonhar / Que vai chegar”.

Deixo uma dica final: como Bolacha e Paulinho parecem ter se inspirado em Nelson, inspire-se, você também, em “Sublime Primavera”. Sonhe e acredite que, como decreta outra composição esperançosa de Paulo César Pinheiro (“As Forças Da Natureza”, parceria com João Nogueira, e também prenhe de relações intertextuais com “Juízo Final”), “As pragas e as ervas daninhas / As armas e os homens de mal / Vão desaparecer nas cinzas de um carnaval” – ou entre as flores de uma sublime estação.

Não tarda.

samba-de-fato-cristina-buarque.jpg
Samba de Fato, com Cristina Buarque: cantando esperanças sonhadas por Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro.

3 comentários

  1. Um dos textos mais bonitos que já li – Eu só não entendo a sua tão decantada ”frieza”,verter ou não verter lágrimas não quer dizer nada,quem nasceu pra soltar água é fonte ou cascata,rs.

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