186. Alvaro Lancellotti: “Canto De Marajó”

Canto de Marajó
Canto de Marajó
Diz
É pra se protejer sem deixar de ir
Em si
Diz
É de lá que se tem pra sempre devir
De si


No post de ontem, falei sobre minha experiência como professor de História da Educação.

Apesar de ter produzido alguma coisa nesse campo de pesquisa, seria minha experiência inaugural com ele numa situação didática. Na verdade, sequer havia estudado essa disciplina durante a graduação. Reunira várias leituras, especialmente sobre a história da educação brasileira, é verdade. Mas as semanas que antecederam o início do curso me deixaram não menos que aflito: o que abordar e como?

Na dúvida entre dirigir o curso para a história da educação geral, para o foco na educação europeia ou para um panorama da educação brasileira, resolvi incluir tudo isso na disciplina. Inicialmente, falaria sobre as práticas educativas de diversos povos espalhados pelo globo (chineses, indianos, japoneses, judeus, indígenas brasileiros, africanos, povos da América pré-colombiana, desaguando no Antigo Egito), depois estabeleceria uma linha que, saindo da Grécia Antiga, atravessasse Roma, falando da patrícia, da escolástica e das contribuições dos povos “bárbaros” e árabes, até chegarmos à educação na transição da época feudal para o Renascimento. A partir daí, o curso seguiria duas linhas paralelas: os desenvolvimentos da Europa na Modernidade e na Contemporaneidade, de um lado; e de outro, o nascimento da educação brasileira, a partir da atuação dos jesuítas, seguindo-se a criação das escolas superiores a partir de 1808, a educação no Império, na Velha República, o Manifesto dos pioneiros de 1932, as reformas do ensino do século XX, até os nossos últimos grandes filósofos da educação (Paulo Freire e Dermeval Saviani).

Imagine como estava minha cabeça, com esse plano mirabolante de ensino: a mil por hora. Não sabia, de fato, se teria fôlego para criar esse curso assim, do nada. (Que eu saiba, uma tal abordagem em História da Educação, como uma única disciplina – quadrimestral, ainda por cima – não existe em nenhum lugar do mundo). Estava apreensivo.

E o que me acalmou nesses momentos de desassossego? Canções.

Mais especificamente, as obras de um jovem cantor e compositor carioca chamado Alvaro Lancellotti. Nunca tinha ouvido falar dele, até ler uma resenha do jornalista Mauro Ferreira, a respeito do lançamento de seu segundo álbum, Canto de Marajó (2016). Foi quase um ano até que eu resolvesse escutar esse som. Mas a afinidade foi imediata.

Como bem descreve Mauro, em Canto de Marajó temos uma tentativa de atualizar a perspectiva instrumental e composicional dos afro-sambas de Vinícius de Moraes e Baden Powell. Assim, o som do álbum é, embora plácido, embalado por ótimas percussões, que garantem a filiação das canções aos preceitos do Poetinha e de seu colega violonista. Abundam delicados dedilhados de violão e de uma guitarra com timbre limpíssimo. As melodias, embaladas pelas atmosferas instrumentais, fazem o ouvinte se sentir verdadeiramente despachado à beira-mar.

Em alguns momentos, o álbum soa como se uma banda indie estivesse buscando se apropriar da estética brasileiríssima do clássico Os afro-sambas (que não se resume ao universo propriamente sambista, trazendo faixas mais batucadas, como “Bocochê”, ou mais bossa-novistas, como “Tristeza E Solidão”), amalgamando-a com os temas praianos de Dorival Caymmi, numa grande celebração de Iemanjá. Mas outras influências são identificáveis em Canto de Marajó: se “O Passo”, por exemplo, é puro Jorge Ben, “Nossa Horta/Merinha” e “Marejou” remetem a temas do domínio público.

A canção de hoje é justamente a que intitula o álbum. Construída sobre uma fórmula de compasso complexa e incomum (7/8), baseia-se em sons das regiões graves e médias do violão, com sutis intervenções de guitarra, criando uma sensação de vastidão marítima.

A letra é simples e está inteiramente exposta na epígrafe do post. Após a enunciação do “canto de Marajó”, aparecem apenas duas estrofes “Diz / É pra se protejer sem deixar de ir / Em si” e “Diz  / É de lá que se tem pra sempre devir / De si”.

São dois conjuntos semanticamente opostos: o primeiro fala sobre o mergulho em si; o segundo, sobre o mergulho , no próprio mar. Na alquimia musical de Alvaro, o que está no alto é como o que está embaixo. Mas, numa outra leitura, esse  remete, justamente, à profundidade do mergulho em si – redundando na descoberta que, pelo autoconhecimento, nos deparamos com o puro devir de nossa personalidade; é como se, sob a superfície das águas rasas, estivesse escondida verdadeira riqueza do nosso dinâmico psiquismo. Talvez esteja aí a razão de “Canto De Marajó” ter contribuído tanto para me acalmar, naquele momento de apreensão que relatei acima: seu efeito catártico.

Ainda, as duas estrofes, cuja concisão contribui para acentuar o caráter mântrico da composição, podem ser lidas como dois haicais – embora não o sejam em sentido restrito, por não respeitarem a métrica 5-7-5.

Canção simples e linda. E não deixe de conferir o restante de Canto de Marajó.

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Álvaro Lancellotti: mergulhos profundos num oceano de musicalidade.

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