13. Inocentes: “Cidade Chumbo”

De repente me vejo sozinho na noite
Mastigando palavras que me escapam entre os dentes
E o vento joga de volta na minha cara
Não há estrelas neste céu cinza
Como posso acreditar?
As nuvens parecem feitas de chumbo
Acho que vão desabar


Este post não fará nenhuma análise mais pormenorizada, dessa vez, até por uma questão de coerência com a canção escolhida: “Cidade Chumbo”, da banda punk paulistana Inocentes. A faixa encerra o álbum Adeus carne, de 1987, e foi composta pelo vocalista Clemente Nascimento e pelo baixista André Costa Parlato.

Como diversas das canções punk brasileiras dessa época, “Cidade Chumbo” é direta e possui uma harmonia simples. Mas, à primeira audição, tive uma impressão que, passados muitos anos, nunca foi possível abandonar: ela se parece demais com “Música Urbana”, do Capital Inicial, lançada um ano antes, no LP de estreia da banda brasiliense:

Poderíamos até usar esse caso para trazer essa discussão ao blog: até que ponto, no contínuo entre a cópia e a referência, temos a caracterização de um plágio? Quando a letra de uma canção parafraseia a de outra? Quando o tema é muito semelhante? Quando há evidentes inspirações quanto ao arranjo?

No caso “Cidade Chumbo” versus “Música Urbana”, acontece quase tudo isso ao mesmo tempo. Vou tentar listar algumas das coincidências:

“Cidade Chumbo” (1987) “Música Urbana” (1986)
andamento: 162 bpm andamento: 173 bpm
ordem de aparecimento dos instrumentos: baixo/bateria, guitarra, piano, vocal ordem de aparecimento dos instrumentos: bateria, guitarra, piano, baixo, teclados, vocal
Tom: Em – sequência principal Em7, Bm7, C, D Tom: Gm – sequência principal Gm7, Gm7, Cm7, Dm7
tema: passeio noturno, pela cidade (São Paulo), narrado em 1ª pessoa tema: passeio noturno, pela cidade (Brasília), narrado em 1ª pessoa
o vento: “De repente me vejo sozinho na noite /
Mastigando palavras que me escapam entre os dentes / E o vento joga de volta na minha cara”
o vento: “Contra todos e contra ninguém /
O vento quase sempre nunca tanto diz / Estou só esperando o que vai acontecer”
a sinestesia: “Luminosos iluminam a noite / Tão tensa que se pode cortá-la com uma faca / Alguém canta uma canção desesperada” a sinestesia: “As ruas têm cheiro de gasolina e óleo diesel / Por toda plataforma, toda a plataforma / Por toda a plataforma você não vê a torre”

Assim, as duas canções se assemelham quanto ao andamento, quanto aos instrumentos presentes, quanto à harmonia (apesar da diferença de tom) e quanto ao tema. Nas duas, existe um sujeito que percorre uma cidade à noite e reflete sobre sua experiência urbana.

As posturas diante desse passeio é que são diferentes. O sujeito de “Música Urbana” aceita a realidade degradada ao seu redor (“Tudo errado, mas tudo bem”) e a considera como o contexto apropriado para construir sua identidade punk (“Não me importam os seus atos / Eu não sou mais um desesperado / Se eu ando por ruas quase escuras, as ruas passam”). Já o narrador de “Cidade Chumbo” não vê na cidade senão suas distorções e o seu caráter excludente (“Perdido neste labirinto entre prédios concretos / E arranha-céus eretos e disformes / Portas de aço se fecham na minha cara”), que o sufocam até uma ânsia insuportável, donde emerge o escapismo do refrão (“Quero cair fora daqui, quero ir para outro lugar / Quero cair fora daqui, tenho de escapar”).

Essas diferenças de posturas, curiosamente, são bastante representativas do tipo de movimento jovem que os integrantes dos Inocentes e do Capital Inicial, respectivamente, compuseram. Os punks paulistas eram garotos precocemente iniciados no mundo do trabalho (e das profissões subalternas), viviam uma rotina estafante, marcada pela violência urbana (e pelos conflitos das próprias gangues punks, principalmente entre aquelas de São Paulo e as do ABC Paulista) e sentiam na pele o pertencimento às camadas mais populares. Já os garotos de Brasília, incluindo os compositores de “Música Urbana” (Renato Russo, o sul-africano André Pretorius e os irmãos-cozinha do Capital, Fê e Flávio Lemos), eram jovens de classe média, com amplo acesso à cultura, e seus inimigos principais eram os (demais) playboys, cujas festinhas faziam questão de invadir e barbarizar. Em resumo, a turma de Brasília era presa, mas só por desacato; já a de São Paulo, só por existir. (Essas informações provêm de duas fontes bibliográficas: o clássico O que é punk, de Antonio Bivar, pela Coleção Primeiros Passos da Editora Brasiliense; e O diário da Turma – 1976-1986: a história do rock de Brasília, de Paulo Marchetti, publicado pela Editora Pedra na Mão).

inocentes.jpg
Inocentes: punks que viviam (e reproduziam) o pânico em SP.

Minha hipótese é a seguinte: ao gravar Adeus carne, o produtor do disco – ninguém menos que Roberto Frejat – enxergou em “Cidade Chumbo” a vocação para um hit. Aproveitando-se das semelhanças de andamento e temática, a produção acabou propondo que a canção dos Inocentes se revestisse de um arranjo próximo ao de “Música Urbana”, que havia estourado em todas as rádios no ano anterior. Por isso “Cidade Chumbo” tem o mesmo acento meio rhythm & blues, meio ska, da canção do Capital Inicial. Lembremos que, a essa altura, o pessoal do Barão Vermelho e as bandas de Brasília já mantinham uma relação de cumplicidade e respeito mútuo. Atento aos sons dos candangos, Frejat pode ter proposto essa aproximação musical entre os universos brasiliense e paulistano, emergindo “Cidade Chumbo” como resultado.

Infelizmente, procurei em todas as referências ao BRock que possuo e não encontrei nada que fortalecesse ou indicasse a precisão dessa hipótese – que fica, portanto, como uma estória a se averiguar por quem tiver algum contato com Frejat ou com Clemente.

2 comentários

  1. A música do Capital Inicial eu conheço,a primeira,pra variar,não.Muito interessante essas coincidências sonoras,dá pano pra manga.

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