22. Ira!: “Flores Em Você”

De todo o meu passado
Boas e más recordações
Quero viver meu presente
E lembrar tudo depois
Nessa vida passageira
Eu sou eu, você é você
Isso é o que mais me agrada
Isso é o que me faz dizer
Que vejo flores em você


Por ter morado até os 30 anos no interior, não tive tantas oportunidades de assistir a shows como tenho hoje. Mesmo assim, por uma somatória de grandes coincidências, compareci a nada menos do que cinco apresentações do Ira!, todas em São Carlos.

A primeira vez foi em 2001, no Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira (CAASO), da USP. Àquela época, ainda não havia o Salão de Eventos da universidade, de modo que os grandes eventos do centro acadêmico aconteciam dentro do restaurante universitário. Quando conto essas estórias para o pessoal que não morava em São Carlos antes de 2002, ninguém acredita. Mas é verdade! Meu primeiro show do Ira! foi no bandejão da USP, dia 23 de março de 2001, e tenho provas:

Os outros shows foram, nessa sequência: em 2003, no Sesc; em 2004, nas festividades de inauguração do Ginásio Milton Olaio Filho, num show aberto ao público na Avenida Getúlio Vargas; em 2015, no Sesc novamente; e em 2018, em outra apresentação ao ar livre, no Mercado Municipal, junto de meu amigo Macaco. Aliás, acho que vi a todos esses shows muito bem acompanhado: os três primeiros com meu pai, sempre parceiro na hora de conferir sons dos anos 80, e junto com a Cris em 2015.

Cada apresentação flagrou um momento diferente do conjunto: em 2001, na turnê revisionista do MTV ao vivo; em 2003, após o disco Entre seus rins; em 2004, antecedendo a calmaria do Acústico MTV; em 2015, após o fim da treta entre Nasi e Edgard Scandurra; e em 2018, com a banda firme e forte, excursionando por todo o país.

Assim, cada show teve um repertório, e é difícil imaginar se alguma canção esteve presente em todos eles. Nos primeiros shows a que fui, não lembro de “Rubro Zorro”; “Pobre Paulista” foi tocada em 2003, acho, mas não nos demais shows; “Pecado” era exclusiva da turnê de Entre seus rins; “Eu Quero Sempre Mais” pintou após o disco acústico ter redescoberto a canção – e por aí vai. Mas arrisco um palpite: “Flores Em Você” é um hit obrigatório em todas as apresentações, e devo tê-la escutado, ao vivo, cinco vezes.

ira.jpg
Ira!, em sua formação clássica: a presença mod no rock nacional.

Não há muito o que interpretar sobre essa canção singela e direta. A letra é curta (está reproduzida integralmente na epígrafe do post) e tem um pouco do no future punk, combinada com certa marrentice identitária mod nos versos “Eu sou eu, você é você / Isso é o que mais me agrada”.

A composição, de Edgard Scandurra, foi lançada no disco Vivendo e não aprendendo (1986), um dos grandes clássicos do BRock, obra simplesmente obrigatória para qualquer roqueiro nascido em terras tupiniquins. Destoando do restante do disco, em que impera um clima elétrico, recheado por camadas e camadas de guitarras (só em “Dias De Luta” identifiquei quatro canais do instrumento!), “Flores Em Você” tem ambiência acústica, com violões e um acompanhamento de cordas. A orquestra de câmara desenha floreios que ajudam a sustentar a simples harmonia, baseada nas tétrades de Dó Maior. O mérito vai para o maestro Jacques Morelenbaum, quem preparou o arranjo erudito.

Existem duas influências principais nesse arranjo: “Eleanor Rigby” dos Beatles e “Smithers-Jones”, do The Jam – uma das bandas favoritas de Edgard e companhia. Na biografia do Nasi (Mauro Beting e Alexandre Petillo, A ira do Nasi. Caxias do Sul: Belas Letras, 2012) há um fragmento interessante sobre essa influência:

A maior exposição da banda também fez com que pipocassem em alguns lugares uma das características mais apregoadas ao Ira!: a de cópia do The Jam. Jornalistas de vários lugares repetiram isso, mesmo aqueles que nunca tinham ouvido Jam na vida – princpalmente, esses. “Flores em você,” que tem o arranjo central de cordas semelhante ao de “Smithers-Jones”, do Jam, era o carro-chefe do comentário. Edgard se emburrava no começo, mas depois começou a achar tudo aquilo mod. Dentro do coneito de que a imitação, por vezes, poderia ser mais interessante que o original.

Aliás, é de se perguntar se a própria canção do Jam já não seria produto de muita audição de “Eleanor Rigny”. (Aproveito para indicar a leitura dessa biografia citada acima, que investiga uma das personalidades mais interessantes – e indomáveis – do rock nacional).

Confira “Smithers-Jones” e compare com o arranjo com “Flores Em Você”:

Mas veja só: assim como “Smithers-Jones” possui uma versão elétrica, com a banda toda tocando (essa, de 1983, lançada quatro anos após o arranjo orquestrado original), o Ira! também revelaria um surpreendente registro guitarreiro de “Flores Em Você” na reedição remasterizada de Vivendo e não aprendendo, de 2000.  Trata-se da versão demo da canção:

Baseando-se nessa versão original é que a banda executou a releitura que foi prensada no MTV Ao Vivo (2000), com bons riffs de guitarra e andamento acelerado:

Já para as gravações do Acústico MTV (2004), o arranjo orquestrado voltou à cena, agora com participação da eficiente cozinha formada por Ricardo Gaspa (baixo) e André Jung (bateria):

Mais recentemente, durante a investida de Nasi e Edgard em releituras folk para os clássicos do conjunto, o arranjo original recebeu uma interpretação mais minimalista:


“Flores Em Você” foi tema de abertura da novela global O outro. Há várias estórias sobre esse fato e outros referentes ao Vivendo e não aprendendo, numa bela reportagem do portal Não é só música, que você acessa aqui.

Como curiosidade sobre meu primeiro show do Ira!, uma imagem que vale mais do que mil palavras: o autógrafo que peguei do Nasi em uma nostálgica nota de um real. Isso eu precisava mostrar pra alguém:

autografo-nasi.jpg
Esse rabisco a caneta é o autógrafo do Nasi. Eu não tinha outro papel no bolso, pois sequer imaginava que fosse chegar perto da banda naquele dia.

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