26. Elis Regina: “Cartomante”

Nos dias de hoje é bom que se proteja
Ofereça a face pra quem quer que seja
Nos dias de hoje esteja tranquilo
Haja o que houver, pense nos teus filhos


Elis foi uma das mais importantes intérpretes da música popular brasileira. É possível apontar vários motivos de ordem técnica que expliquem esse sucesso: a potência vocal da cantora gaúcha, o fato de estar rodeada por músicos e arranjadores competentes, a qualidade das próprias canções e dos cancionistas que a Pimentinha privilegiava em suas gravações, entre outros e outros.

Para mim, tudo isso se combina em uma única afirmação: Elis tomava as canções de outrem para si. Não consigo compreender quem prefira a versão do próprio Belchior para “Como Nossos Pais” ou “Velha Roupa Colorida”, as gravações do próprio João Bosco para “O Bêbado E A Equilibrista” e “O Cavaleiro E Os Moinhos”, ou a versão do próprio Chico Buarque para “Atrás Da Porta”. E olha que sou mega fã desses compositores de envergadura absurda.

Com “Cartomante”, composição de Ivan Lins e Vitor Martins, se passa o mesmo. Apesar de o registro do próprio Ivan ser também um grande clássico (e igualmente clássico o é seu videoclipe), desde que apresentada no disco Elis (1977), a canção já não poderia mais pertencer ao seu autor.

Talvez seja isso o que distinga os intérpretes grandes dos ordinários. Veja que o mesmo fenômeno ocorre com as releituras de Cássia Eller, como bem disserta o colega Túlio Villaça, do blog Sobre a Canção.

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Elis Regina, a voz fantástica que tomava para si, eterna e irreversivelmente, o repertório alheio.

“Cartomante” é iniciada com bons solos de guitarra, o que hoje soa irônico, dada a participação de Elis na infame “Marca contra a guitarra elétrica”, dez anos antes da gravação de Elis. Após a introdução mais rocker, aparece o piano do próprio Ivan Lins, que participa da faixa tocando e compondo o coro do refrão.

A letra é formada por quatro estrofes de versos aproximadamente hendecassílabos, que não se repetem, mais o refrão que é exaustivamente reprisado até o final em fade out.

O eu-lírico parece ser uma cartomante que lê conselhos a um consulente. Mas por trás de uma situação aparentemente inofensiva e corriqueira, esconde-se uma irônica e mordaz crítica à ditadura civil-militar. Assim, a cartomante sugere: “Não ande nos bares, esqueça os amigos / Não pare nas praças, não corra perigo / Não fale do medo que temos da vida / Não ponha o dedo na nossa ferida”. O que é uma forma apenas diferente de dizer o que já fora cantado por Elis em “Como Nossos Pais”, no disco Falso brilhante, no ano anterior: “Por isso, cuidado, meu bem: / Há perigo na esquina / Eles venceram e o sinal está fechado pra nós / Que somos jovens”.

Assim, apenas aparentemente temos a cena de uma cartomante apelando para o instinto de autopreservação de um militante a quem presta seu serviço. Porque, como aposta a voz da canção – baseando-se em um conjunto de premonições atestadas por diferentes oráculos (“Já está escrito, já está previsto / Por todas as videntes, pelas cartomantes / Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas / No jogo dos búzios e nas profecias”) -, um regime tão nefasto quanto autoritário só pode estar fadado à derrota. E eis o expansivo refrão, que prevê a queda dos “reis”: “Cai o rei de Espadas / Cai o rei de Ouros / Cai o rei de Paus / Cai não fica nada”.

Quanto à harmonia, apesar de aparentemente simples, a considero bastante difícil de decifrar e de alinhar com o texto da canção. Aqui vai apenas uma tentativa. A maior parte das notas percorre os campos harmônicos de Ré, nos modos Maior e Menor, que se revezam por toda a canção, como sístoles e diástoles. Por outro lado, a melodia é triste quase sempre, exceto no eufórico final da queda dos reis. Dessa forma, penso que Ivan Lins propõe soluções harmônicas que soam tão irônicas quanto a letra da própria canção, que se vale da aura misteriosa dos arcanos para propor uma alegoria sobre a clandestinidade do pensamento subversivo nos anos de chumbo.


Além da versão original de Elis e da regravação do próprio Ivan no ano seguinte, existem diversos outros registros dignos de nota.

Ivan atualizou a canção mais recentemente, propondo algumas alterações melódicas e, na minha opinião, diluindo a pungência original da obra:

Mais interessante ficou a releitura do próprio compositor carioca em parceria com o grupo italino InventaRio, presente no disco InventaRio encontra Ivan Lins (2014). Ouça essa curiosa versão italiana de “Cartomante”:

Por último, trago a versão instrumental, conduzida pelo piano de Luiz Avellar em primeiro plano, numa atmosfera jazzy, mas incrivelmente sombria na parte da harmonia com o predomínio do tom em Ré Menor. Essa elegante releitura está presente no disco Homenagem a Ivan Lins (1994):

3 comentários

  1. Adorei o texto,definiu muito bem o talento sem igual de Elis Regina,e dissecou perfeitamente a música-letra de Ivan Lins e Vítor Martins.

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