87. Naná Vasconcelos: “Voz Nagô”

Tambor bateu na serra
Marimba retumbou no mar
O candomblé ainda é
A voz que faz o negro se juntar
O samba é canção de guerra
Não foi só feito pra brincar
Pra ser feliz inda não dá
Enquanto um negro,
Um só negro, um só chorar


Naná Vasconcelos, nascido Juvenal de Holanda Vasconcelos em Recife, foi um dos maiores instrumentistas brasileiros, granjeando renome mundial, mas nos deixando repentinamente em 2016, aos 71 anos.

Tive o privilégio de ouvi-lo ao vivo na 9ª edição do festival Chorando Sem Parar, que agita São Carlos todo ano. Naquele 2012, o percussionista ministrou uma oficina no Sesc e encerrou o festival de forma brilhante, acompanhado de Yamandú Costa. Inesquecível a performance do duo no fechamento da noite, com a bachiana de Villa-Lobos “O Trenzinho Do Caipira”. Uma alma caridosíssima registrou a apresentação e a disponibilizou no YouTube:

Defensor e divulgador da cultura afrobrasileira, estreitou as distâncias entre o erudito e o popular e, especializando-se no berimbau, contribuiu para levar o instrumento, das rodas de capoeira, para a canção brasileira.

Dono de uma ampla discografia, Naná gravou em 2002 Minha lôa, álbum que agrega influências e gêneros diversos, congregando canções mais convencionais e peças experimentais, das batidas afrobrasileiras (como o “Afoxé Do Nêgo Véio”) ao eletrônico (na climática “Estrela Negra” e na dançante “Macaco”, conduzida na levada do berimbau).

No disco, consta uma belíssima composição de Paulo César Pinheiro, “Voz Nagô”, libelo contra a exploração do negro no solo brasileiro. Obra metalinguística, cita tambores, marimbas, o candomblé e, de forma mais ampla, o samba como instrumento de luta, análogo à própria capoeira: “O samba é canção de guerra / Não foi só feito pra brincar”.

Gosto muito dos versos “Pra ser feliz inda não dá / Enquanto um negro, / Um só negro, um só chorar”. Não acho que a voz da canção esteja enunciando a partir do ponto de vista de um negro, exclusivamente. Ninguém será feliz – nem brancos, nem negros, no Brasil e no mundo – enquanto um só negro (ainda) chorar. Racismo e desigualdade andam de mãos dadas e afetam a todos, pois são aspectos estruturantes de nossa sociedade. Mensagem simples e direta, e que muita gente ainda parece ter preguiça de entender.

Dois destaques sobre a gravação de Naná. Nela, temos a participação vocal de um dos compositores da obra, Pedro Amorim, que além de realizar um dueto com o percussionista, também toca violão e cavaquinho. Também no cavaquinho, participa Luciana Rabello, esposa de Paulinho.

nana-vasconcelos
Naná Vasconcelos: a batida percussiva que fará muita falta, ao Brasil e ao mundo, não apenas no contexto musical, mas também na luta pela valorização de nossas heranças africanas.

Quinze anos após Minha lôa, “Voz Nagô” reapareceu num álbum de mesmo título de Pedro Amorim. Nas palavras do músico, no encarte,

Algumas das músicas desse disco já vinham sendo gravadas – e muito bem gravadas – pelas vozes de Maria Bethânia, Naná Vasconcelos, Ilessi e Nina Wirtti, entre outros. Mas esse repertório de afro-sambas, feito com meu querido parceiro Paulo César Pinheiro, aguardou muitos anos até que pudesse ser mostrado por inteiro e na minha própria voz de compositor.

Você pode ouvir uma palhinha de Pedro cantando “Voz Nagô”, ao violão, abaixo:

O Jornal GGN, em sua conta no SoundCloud, disponbilizou Voz nagô na íntegra, acredito que com anuência do próprio Pedro – acesse aqui. Na versão do compositor, há um novo dueto, dessa vez com Paulo César Pinheiro, ele mesmo. O arranjo, sem deixar de lado a percussão valorizada na gravação de Naná, investe em climas mais melancólicos: primeiro, pelo marcante clarone de Pedro Paes, que faz de “Voz Nagô” um verdadeiro lamento; e depois, pela participação do coro, que explode como um verdadeiro grito de libertação após o soluçar de Pedro, próximo ao fim da peça. Emocionante! Desde a primeira audição, esse arranjo me remeteu a outro clássico, “Canto Das Três Raças”, também da lavra de Paulinho, em parceria com Mauro Duarte, que se vale das mesmas soluções composicionais na gravação eternizada por Clara Nunes. “Voz Nagô”, na minha opinião, aparece com uma continuação dessa obra, denunciando sua triste atualidade, e se inscrevendo como uma das grandes canções brasileiras desse início de século.

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