101. Gabriel, o Pensador: “500 Anos De Sobrevivência”

500 anos de vida
500 anos de sobrevivência
500 anos de história
500 anos de experiência
500 anos de batalhas, derrotas e vitórias
Desordem e progresso, fracasso,sucesso,
Dor e alegria, tristeza e paixão
500 anos de trabalho
E a obra ainda está em construção
A luta continua, a vida continua
Apesar do sangue que escorre
O guerreiro não se cansa e acredita na mudança
Porque a esperança é última que morre


Há alguns dias, tive um sonho interessante. Sou uma espécie de documentarista e estou gravando um filme sobre Gabriel, o Pensador. O rapper mora em São Paulo e vou até a residência dele. Toco a campainha e sou recebido pelo próprio, que me conduz – filmado pela câmera que carrego no ombro – até uma espécie de estúdio de gravação doméstico. Lá, nos sentamos diante de um computador, quando resolvo perguntar a ele sobre a canção “500 Anos De Sobrevivência”. Gabriel fala: “Sim, lembro dessa. Está aqui, em algum lugar”. E começa a percorrer os arquivos do computador em busca da gravação original, sem sucesso. Há um violão por perto. Desisto de filmar, tomo o instrumento e perfilo os acordes da harmonia da canção, que praticamente a sustentam por inteiro: uma banal progressão I-V-VIm-IV. (Curiosamente, no sonho uso o tom de Ré Maior – gerando a sequência Ré Maior, Lá Maior, Si Menor, Sol Maior – sendo que, na verdade, a canção é em Lá Maior). Gabriel, então, começa a me acompanhar, cantando a letra, mas errando alguns trechos – o que acho perfeitamente compreensível, dado que a canção foi apenas um registro de celebração/protesto em relação aos 500 anos do Brasil, e não deve ter integrado o repertório ao vivo do cantor.

Acordo com a canção na cabeça.


Gabriel, o Pensador tocava bastante nas rádios que escutávamos, eu e minha mãe, durante as faxinas semanais em casa, à época em que meu pai se mandara para terras nipôninas como dekassegui. As letras inteligentes daquele rapper branco logo cativaram minha genitora, que o tomou como “gênio” desde então.

Influenciado pela opinião materna, passei a prestar atenção ao músico carioca, principalmente a partir do estouro de Quebra-cabeça (1997). Ao menos três de suas canções frequentaram o topo das paradas de sucesso, à época: a polêmica “Cachimbo Da Paz”, a reverente “Festa Da Música” e a descontraída “2345meia78”.

Não desperdicei a primeira oportunidade que tive de escutar o álbum completo. Na maior cara de pau, ao ver o CD largado sobre uma mesa, pedi emprestado ao Marcos (com quem treinava karatê e que, ao contrário de todos os meus amigos de então, era vizinho de casa, daí as tardes de visitas à sua casa), que o cedeu com boa vontade. Era 1999 e Quebra-cabeça bagunçou meu já eclético gosto musical, me seduzindo logo com a faixa de abertura, “Pátria Que Me Pariu”.

Em 2000, nosso país completava 500 anos de existência. Ou, pelo menos, era o que a Rede Globo queria que acreditássemos. No dia 22 de abril, a emissora transmitiu ao vivo um show comemorativo de proporções gigantescas, com muitos artistas, representando diversos gêneros. Atento ao rol de convidados, deixei uma fita virgem no videocassete e fiquei de prontidão para gravar o que interessasse.

Lembro, por exemplo, dos Paralamas do Sucesso executando “Lourinha Bombril” com o arranjo original do disco Nove luas (1996), e não a versão acústica que haviam registrado no ano anterior; e depois tocando “Que País É Este” – o que era pra lá de irônico, pois o show acontecia na Esplanada dos Ministérios, e a canção fora composta por Renato Russo ali, mas na Brasília de 1978, em plena ditadura.

Tudo isso foi devidamente gravado e, por alguma razão, a aparição de Gabriel, o Pensador também me fez levar o dedo ao botão “rec”, apesar daquele meu plantão ser dedicado, a princípio, ao rock nacional. Começara a batida do número a ser apresentado e logo percebi que não o conhecia. A sequência de acordes ao violão, entretanto, era familiar, havendo um pequeno fraseado de teclado que lembrava o riff da introdução de “Será”, da Legião Urbana. Quando Gabriel começou a cantar, notei que se tratava de uma obra produzida exclusivamente para aquela apresentação, mencionando textualmente os “500 anos”. Chegando o refrão, a confirmação: sim, o rapper construíra a canção sobre a base do sucesso da Legião, cantando seu refrão: “Será só imaginação? / Será que nada vai acontecer? / Será que é tudo isso em vão? / Será que vamos conseguir vencer?”.

gabriel-o-pensador.jpg
Gabriel, o Pensador: um intelecto genial dissecando a sociedade brasileira.

Hermano Vianna, no encarte da caixa Por enquanto (1995), que abrigava os seis primeiros discos de estúdio da banda de Renato Russo, dizia que o debute do conjunto – Legião urbana (1985) – era todo dúvidas, a começar pelo interrogativo refrão da faixa de abertura. O cantor, de fato, se perguntava se iríamos (a juventude que florescia em meio à distensão da ditadura civil-militar) “conseguir vencer”.

Por outro lado, na interpretação de Gabriel, o Pensador, tal refrão assumia ares não de interrogação, mas de perplexidade. Será que, após 500 anos tentando construir um país sobre os escombros da dizimação indígena e da escravidão africana… será que após um século XX marcado por ditaduras… será que após o primeiro presidente de fato eleito, com a redemocratização, já ter sofrido um processo de impeachment… enfim, será que seria possível, à luz de tudo isso, construir uma história vitoriosa, no novo século que se avizinhava?

E, em meio a essas questões, Gabriel vaticinava: “Não adianta ficar aqui à toa / Só esperando pra ouvir notícia boa / O que se planta é o que se colhe / O futuro é um presente que a gente mesmo escolhe / A semente ja está no nosso chão / Agora é só regar com a mente e o coração / A transformação da revolta em amor / Faz a água virar vinho e o espinho virar flor”.

Não. Tudo, exatamente tudo, indicava (ou indica) que não: não conseguiremos nunca fazer do Estado uma nação, como propunha também Renato Russo, também num rap (“Perfeição”, no álbum justamente intitulado O descobrimento do Brasil, de 1993).

Mas será? Será que não podíamos, ao menos, vislumbrar uma redenção?

Gabriel – que mostrou em inúmeras ocasiões seu amor pela Legião Urbana, citando Renato Russo como um dos donos da “Festa Da Música” e sampleando “Pais E Filhos” na linda “Palavras Repetidas”, além de executar uma incrível versão o vivo para “Geração Coca-Cola”, que juro que ouvi na Rádio Transamérica – arriscava também uma resposta que, entre o tom evasivo e o esperançoso, encerrava “500 Anos De Sobrevivência” como um convite à utopia: “Nem todos que sonharam conseguiram, mas pra conseguir é preciso sonhar”. Renato Russo teria ficado orgulhoso.

E agora entendo porque sonhei com essa canção.

2 comentários

  1. É inusitado sua mãe ser fã do rapper branco,eu sempre acho que só os mais jovens são fãs de rap,um pré-conceito meu.
    Quanto a letra,me lembrei de Caetano Veloso e Luiz Melodia cantando e perguntando quem vai fazer dessa vergonha uma nação.

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