167. Ultraje a Rigor: “Jesse Go”

Não passava de um imbecil
Até que um produtor o descobriu
Até que o imbecil não era de todo mau
Transformou-se num sucesso nacional
Apesar do discutível valor
Adotou um ar superior
Se babava quando ouvia o seu grito
Pensou na idéia de tornar-se um mito


Em BRock: o rock brasileiro dos anos 80 (4 ed. São Paulo: Ed. 34, 2015), Arthur Dapieve dedica um capítulo inteiro ao conjunto paulista que, literalmente, invadiu a praia do rock nacional oitentista – até então, cada vez mais forte no Rio de Janeiro. Nas páginas de “Ultraje a Rigor: agente provocador”, o jornalista carioca faz um elogio do álbum de estreia da banda, justamente Nós vamos invadir sua praia (1985), destacando que todas as suas faixas eram boas, exceto duas: “Jesse Go” e “Se Você Sabia”.

De fato, “Se Você Sabia” é esquecível e, mais que isso, irritante. Mas sempre gostei de “Jesse Go”, a única faixa do álbum que não era cantada pelo líder Roger Rocha Moreira, mas pelo baixista Maurício (sendo os dois os compositores da canção). Na verdade, acho bastante esquisito que eu goste tanto desse som, sendo que no álbum há, de fato, verdadeiros clássicos do rock nacional, como a faixa título, “Rebelde Sem Causa” (que quase trouxe ao blog como gancho para veicular um textão sobre o conceito de “lugar de fala”, mas achei que geraria polêmicas demais com os visitantes de esquerda – aliás, como se a mera presença do Ultraje, aqui, não seja um verdadeiro ultraje!), a cômica “Marylou”, “Mim Quer Tocar”, “Inútil” (alçada a hino da campanha das Diretas Já!, graças à figura de Ulisses Guimarães)…

Mas “Jesse Go” tem uma virulência que, em outros números do álbum, é mais sutil. A cutucada nos colegas roqueiros do Rio de Janeiro em “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, por exemplo, é leve, alegre, festiva – e um carioca como Lobão participa da faixa, encampando a brincadeira. Em “Jesse Go”, não há meias palavras: o personagem da canção é denunciado e desmascarado como uma fraude do showbiz.

Por algum tempo, circulou o boato de que o tal Jesse Go seria inspirado num personagem real: Paulo Ricardo! Ao que parece, o próprio baixista Maurício confirmou a informação, mas não se deve levar tudo isso muito a sério. Como as leituras sobre o BRock atestam, havia um perene clima de tensão entre todos os conjuntos, ao menos na esfera pública, com alfinetadas constantes em entrevistas e, como no caso da canção do Ultraje, nos próprio lançamentos. Já nas noitadas paulistas e cariocas, os artistas confraternizavam e a rivalidade era esquecida enquanto se dividam alguns copos.

ultraje-a-rigor.jpg
Ultraje a Rigor: zombeteiros no BRock.

Em 2005, quando todo o primeiro escalão do rock nacional já havia participado do Acústico MTV, foi a vez do Ultraje ser convidado para o programa. E penso que a MTV demorou demais para ter essa ideia, afinal, à época, a atração já atravessava um período de esgotamento. Os álbuns desplugados se multiplicavam desordenadamente e, assim, o formato caminhava rapidamente para a pasteurização e a banalização.

O disco acústico do Ultraje, de certa forma, ajudou a oxigenar o formato. A banda resolveu investir numa estética inspirada nos anos 1960, com muitos metais e participações vocais que nos remetem às harmonias do Beach Boys. “Jesse Go”, que em sua versão original já explicitava essa influência, tinha mesmo que ser incluída no projeto.

O cantor, dessa vez, é também o baixista, mas não mais Maurício, e sim Mingau, que ingressou no Ultraje no retorno do conjunto em fins dos anos 1990. Curiosamente, os vocais ficaram bem parecidos com aqueles da gravação original:


Uma observação: leia atentamente a letra disposta na epígrafe do post… ela lembra algum outro odiento personagem da atualidade, cujo nome também começa com “J”?

2 comentários

  1. O grupo tem músicas boas,concordo,mas o engraçado é o vocalista acreditar que tem mesmo um ”QI.elevado”,aí é de lascar.
    E quanto a palavra ”mito”,acabou ganhando uma conotação-zombeteira assim como ”celebridade”.

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