216. Chico Science & Nação Zumbi: “Manguetown”

Tô enfiado na lama
É um bairro sujo
Onde os urubus têm casas
E eu não tenho asas
Mas estou aqui em minha casa
Onde os urubus têm asas
Vou pintando, segurando a parede
No mangue do meu quintal
Manguetown


Era um dia comum, pouco antes do fim das férias, quando vivia a expectativa de retornar à vida escolar. Fazia sol e, para aproveitar o dia, planejava dar uma volta de bicicleta pelo bairro – coisa que faço até hoje, nos curtos períodos que eventualmente passo em minha terra natal.

Havíamos acabado de almoçar quando o telejornal noticiou a morte de Chico Science. Tinha 12 anos e não conhecia a figura que, tragicamente, acabava de perder a vida num acidente de carro. Minha mãe não deu muita importância; achava que o rapaz não passava de um “cantorzinho”.

Mas, na verdade, eu já havia escutado sim “Maracatu Atômico”, composição de Jorge Mautner e Nélson Jacobina gravada pelo tal Chico Science e seu conjunto, a Nação Zumbi. E, de fato, nada havia entendido nem da letra, nem do arranjo, nem das parcas imagens que guardava do videoclipe, exibido em algum programa da TV Cultura. Demoraria mais dois anos até compreender melhor a dimensão da obra de Science.

Isso porque em 1999, numa edição comemorativa do Programa Livre com os Titãs, Serginho Groisman havia organizado uma homenagem aos artistas que, tendo passado pela atração, já não mais estavam entre nós (vá para o instante 27’20”):

E nessa retrospectiva, surgiam Chico Science e a Nação Zumbi tocando “Manguetown”. Como havia gravado em VHS o programa – apesar de o SBT pegar muitíssimo mal em casa, ou seja, ter registrado praticamente um chuvisco como uma quase inaudível trilha de áudio –, pude ouvir o trechinho da canção por muitas vezes, ao longo daquele 1999.

Mais pro meio do ano, o amigo Leonardo, do karate, havia me emprestado o lançamento mais recente dos Paralamas do Sucesso à época: Hey Na Na (1998). Era um álbum impressionante, com faixas radiofônicas (“Depois Da Queda O Coice”, “Ela Disse Adeus”, “O Amor Não Sabe Esperar”) entremeadas ao melhor do experimentalismo (pop) já praticado pela banda de Herbert Vianna (“Brasília 5:31”, “O Trem Da Juventude” – esta, curiosamente, chegou a tocar nas FMs).

Uma dessas faixas experimentais se destacava frente ao todo de Hey Na Na: era “Scream Poetry”, mesclando um lirismo agreste com uma bateria pulsando como um maracatu, que às vezes cedia ao toque ska tão comum no som dos Paralamas. Adornando a faixa, Jorge Mautner tecia belos fraseados ao violino (tocado como uma rabeca nordestina) e cantava o refrão: “Grite poesias que eu te amarei / Até a minha ida, grite poesias / Que o mundo tem / A palavra que você pode escrever / Grite poesias”. E, lendo o encarte, vi que a obra era justamente da lavra de Chico Science – e fui descobrir, bem mais tarde, que “Scream Poetry” foi a última letra deixada pelo artista pernambucano, esperando que Herbert Vianna a musicasse – e, então, fiquei definitivamente convencido do enorme talento artístico que se perdera no acidente automobilístico de 1997. Ouça a canção:

Alguns meses depois, os Paralamas lançavam seu aguardado Acústico MTV, que abria com um medley que já chegava chutando a porta (e mostrando que o show não seria uma apresentação voz-e-violão para embalar namorados), “Vulcão Dub/Fui Eu”. O álbum trazia, logo em seguida, uma versão pesadíssima para “Manguetown”:

A versão citava, nas pontes, “Tukka’s Yoots Riddim”, do US3, mais uns fraseados de metais de “Dos Margaritas”, o único sucesso do incompreendido Severino (1993), o mais experimental lançamento dos Paralamas. Isso porque, desde 1997, a banda tocava “Manguetown” e “Dos Margaritas” como um animado pot-pourri em seus shows elétricos. (E essas canções, emendadas, faziam todo sentido, afinal, Severino conectava o som dos Paralamas ao regionalismo do Nordeste, com toda a propriedade, já que Herbert é paraibano. E “Scream Poetry” caberia muito bem naquele álbum mal recebido à época, mas hoje incensado como visionário).


Falemos de “Manguetown”, no arranjo paralâmico ou da Nação Zumbi, tanto faz.

O que me chamou a atenção, desde o início, foi a descrição precisa e, ao mesmo tempo, poética, de uma cena banal: catar caranguejo no manguezal de Recife. O enunciador está, sob o sol ardendo na moleira, lutando pela sobrevivência, ao mesmo tempo em que analisa o absurdo da situação: sua franca desvantagem até em relação aos urubus que o observam. Estes, ao menos possuem casa e asas; ele, nenhuma das duas coisas.

Seu lar é a cena degradada e nauseabunda que só adquire algum glamour – ao olhar alheio – quando nomeada à moda estadunidense: Manguetown. E o único alívio, diante desse cotidiano degradado, é a diversão casual, com a perspectiva de, quem sabe, encontrar a companheira ideal no passeio noturno – quem irá, apenas, ajudar a reproduzir (literalmente) a situação de miséria que o sujeito já vivencia (“E ela também vai andar / Na lama do meu quintal”).

Diante da perspectiva de uma afrociberdelia – o título do álbum que lançou “Manguetown”, em 1996, e conceito representativo dos ideais do movimento manguebeat, cujos líderes foram Science e Fred 04, do Mundo Livre S/A –, a pobreza e a animalização do ser humano só poderia ser denunciada com a transmutação da lama do mangue em arte elétrica.

Chico Science era mesmo um vanguardista.

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Chico Science e a Nação Zumbi: afrociberdelia para o progresso da humanidade.

Existem muitas versões para “Manguetown”, que Chico compôs com o baixista Dengue e o guitarrista Lúcio Maia. A canção permanece no repertório ao vivo da Nação Zumbi, sendo cantada por Jorge du Peixe.

Vou destacar aqui, apenas, a versão que uniu os Paralamas com a Nação, registrada no DVD Ao vivo no Recife (2012). Gostaria de dizer que ficou “duka”, mas de fato prefiro as outras gravações das duas bandas. Vale pelo registro histórico e, se você acelerar o vídeo para a velocidade 1.1x, o andamento fica mais próximo da boa pegada do Acústico MTV paralâmico. Experimente:

E a curiosidade fica por conta da raríssima e exótica versão de “Manguetown” que flagra Chico Science com a banda Loustal, projeto do compositor em 1989. Percebe-se que, em seus primórdios, a canção ostentava uma pegada meio punk, meio ska, que se perdeu no registro de Afrociberdelia (o ska foi citado apenas na parte dos versos “Mas estou aqui em minha casa / Onde os urubus têm asas”). E se eu disser que é minha versão favorita? Seria muita heresia, já que nela não se ouvem os característicos tambores de maracatu, tão importantes para o som da Nação e do próprio Mundo Livre? Julgue:

2 comentários

  1. Não conhecia nenhuma das gravações,de repente eu já ouvi e não me lembro.Eu acho que minha memória-musical só tem espaço pra ”Aquarela do Brasil” e ”Tico-Tico no Fubá”,rs.

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