217. Rodrigo Borges: “Outro Cais”

Me atraiu o teu encanto
Respirei o teu ar
Te arranquei do teu cais
Me lancei no teu mar
Te cobri com meu manto
Descansei nestas ondas
Misturamos nosso sangue
Juntos fomos dançar


Semana passada, fui surpreendido com uma novidade musical que me fez abrir um sorriso de orelha a orelha. Rodrigo Borges, filho de Marilton e sobrinho de Lô, Telo e Márcio, acabava de divulgar, na net, o que imagino ser uma faixas do álbum que deverá apresentar ainda este ano.

A canção em questão era nada menos que “Paisagem Da Janela”, uma das minha favoritas de Clube da esquina (1972), e já extensamente gravada: a composição de Lô Borges e Fernando Brant é tocada até hoje nos shows do primeiro (e consta em quase todos os seus álbuns de regravações), sendo famoso o registro de Beto Guedes em Viagem das mãos (1984).

A versão de Rodrigo, que ouvi atentamente com bons fones, explicita sua semelhança vocal com o tio Lô, mas segue um caminho bastante diferente do trilhado na gravação original: em vez de uma balada singela, “Paisagem Na Janela” apresenta-se, agora, como um bonito xote. O novo arranjo, assim, aproxima mais ainda a canção do contexto popular alvo da letra, que fala de um olhar (algo supersticioso) dirigido para “uma igreja, um sinal de glória”, mas também para “as torres e os cemitérios” e “os homens e seus velórios”.

Enfim, gostaria muito de abordar essa canção aqui, mas não a farei porque o 365 Canções – o original – de Leonardo Davino já o fez de forma muito apropriada. Acesse o post sobre a canção aqui. Tenho uma interpretação muito particular sobre essa que é uma das poucas faixas sem o vocal de Bituca em Clube da esquina, mas prefiro registrá-la lá, como comentário ao texto do Léo.

Aqui, vou falar mesmo sobre uma canção gravada por Rodrigo, no álbum Qualquer palavra (2012). Foi por conta desse lançamento que vim a conhecer o sobrinho de Lô, justamente na época em que acabava de sair, emocionado, de meu primeiro show desse mineiro quase septuagenário (o que é incrível, dada a jovialidade que ostenta no palco).

Conheci o álbum por conta da excelente faixa “Deixa Tudo Ser”, que o cantor apresenta como um dueto com seu tio mais famoso. Mas Qualquer palavra guarda outras referências ao contexto familiar de Rodrigo, sendo as mais explícitas – além das composições, com muitos Borges entre os autores – as canções “Carona” e “Outro Cais”.

As duas faixas integram o icônico álbum Os Borges (1980), que estabelecia a família como uma espécie de microcosmo do Clube da Esquina: ali, os filhos do falecido Salomão Borges dividiam composições e execuções, em 12 canções inesquecíveis.

“Outro Cais”, de Marilton e Duca Leal, tem dois atrativos. Primeiro, por ser cantada por uma das únicas convidadas do álbum (junto apenas de Milton Nascimento): Elis Regina. E, em segundo lugar, por renovar os laços da família com o próprio Bituca, expressão máxima da musicalidade de Minas, mas que não teria ido tão longe sem a amizade com Márcio e a parceria com Lô: afinal, “Outro Cais” se apresenta como o complemento de “Cais”, incrível composição de Milton e Ronaldo Bastos que se segue à abertura de Clube da esquina, “Tudo Que Você Podia Ser”.

Se “Cais” é uma obra disjuntiva, trazendo um enunciador carente de companhia em sua jornada solitária, “Outro Cais” representa uma resposta a esse apelo. A voz da canção parece ter escutado, de fato, a súplica solitária do outro personagem: “Me atraiu o teu encanto / Respirei o teu ar / Te arranquei do teu cais / Me lancei no teu mar”. E, a partir desse encontro, que une duas almas desejantes por dividir a noite e a solidão, a conjunção se estabelece definitiva e irreversivelmente: “Te cobri com meu manto / Descansei nestas ondas / Misturamos nosso sangue / Juntos fomos dançar”. Apesar de o sangue ser um objeto muito simbólico do que representa o conjunto de Os Borges, sabemos que o Clube é gregário; por isso, quem quiser se irmanar nessa jornada coletiva, está convidado. “Nesse clube, a gente sozinha se vê pela última vez”, já vaticinava uma canção-símbolo-manifesto, a própria “Clube Da Esquina”.

Rodrigo captou bem a mensagem da família, reapresentando uma obra que, oriunda do cancioneiro de seu pai, reafirma os valores positivos da grande fraternidade que uniu e une tantas almas – os Borges, Bituca, Elis, os Guedes, Venturinis e muitos outros.

E fiquemos atentos ao moço – quem sabe ele realize meu sonho de escutar um novo álbum coletivo, com os filhos de Beto (Rodrigo chegou a se apresentar com Ian Guedes, que vi tocando ao vivo com seu pai) e outros representantes de uma nova geração esquinense.

A cultura brasileira agradeceria.

rodrigo-borges.jpg
Rodrigo Borges: uma nova geração que mantém vivo o espírito fraterno e a delicadeza do Clube da Esquina.

Como vimos no primeiro post deste blog, Elis cantou magistralmente “Cais”, e dá um show de interpretação também em “Outro Cais” – cujo arranjo original parafraseia o maravilhoso staccato ao piano de Milton Nascimento, mas com a Pimentinha passeando livremente pela melodia do tema, em dois canais diferentes. Desatraque do cais (e do caos) e mergulhe nessa incrível performance:

3 comentários

  1. Linda música e linda análise.O cara teve muita coragem de ”regravar” Elis Regina,e não fez feio,a versão dele ficou perfeita.

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