1. Milton Nascimento e Lô Borges: “Cais”

Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de me lançar


“Cais” é a segunda faixa do disco Clube da esquina, obra coletiva assinada por Milton Nascimento e Lô Borges. Com música do próprio Milton e letra de Ronaldo Bastos, trata-se de uma das canções mais emblemáticas do Clube da Esquina.

À primeira audição, causa mesmo é estranhamento. Sem introdução, os versos iniciais são declamados sob uma atmosfera misteriosa, sustentada pelo som de um órgão, mais um discreto dedilhado de guitarra. E assim a canção prossegue.

Considerando que a faixa de abertura do disco é um samba-rock de temática militante (“Tudo O Que Você Queria Ser”), o contraste é grande. Do que se trata, afinal, “Cais”? Kristoff Silva, no artigo sugestivamente intitulado “‘Cais’: uma análise ancorada na semiótica da canção(Revista Brasileira de Estudos da Canção, Natal, n. 2, p. 253-267, 2012), traz algumas pistas:

A letra apresenta um sujeito enunciador dotado de competência, a de inventar, modalizado pelo querer (“eu quero mais”), pelo saber (o verbo “sei” aparece explicitamente em dois versos, “e sei a dor de encontrar” e “e sei a vez de me lançar”), e pelo poder (o que se pode deduzir de versos como “tenho o caminho do que sempre quis” e “e um saveiro pronto pra partir”.). Percebe-se que, se o estado atual do sujeito enunciador é indesejável, o texto mostra sua propensão e competência para a mudança, ainda que saiba “a dor” de encontrar aquilo que procura.

“Cais” é uma canção passional, de acordo com o modelo da Semiótica da Canção, elaborado por Luiz Tatit (que, ao longo dos posts, será continuamente trazido aos nossos comentários). Sendo assim, trata-se de uma canção marcada pela disjunção entre sujeito e objeto. Talvez seja essa a chave para se entender o sentimento de incompletude exposto pela voz da canção, que fala em “solidão”, em “dor” e em querer “ser feliz”, para aí inventar em si “o sonhador”. A propósito, a figura do sonho/sonhador é uma constante em toda a produção associada ao Clube da Esquina, estando bem representada por boa parte das paisagens oníricas das composições de Lô Borges.

milton (1)
O arquiteto do cais imaginário que atraca o Clube da Esquina.

Luis Henrique Garcia e Pablo Castro, no blog Massa Crítica Música Popular, são muito mais competentes que eu para fazer uma análise sobre os elementos composicionais de “Cais”; veja-se o comentário de Pablo (que você acessa na íntegra aqui):

A agonia, a hesitação e a partida são os tripé sentimental da música, que, em Dó Menor, exibe empréstimos do modo frígio [ Db7M/C  e Bbm7(9) ], acordes menores, como o quinto grau modal de Dó Menor, Sol Menor, em inusitada alternância.  O sabor dionisíaco da lua nova a clarear, em Sol Menor, prepara a volta a Dó como resolução da energia acumulada e suspensa que caracteriza o estado de espírito do narrador.

O ritmo é interessante:  temos um lento e vago 6/4 , onde a voz já entra no primeiro compasso da primeira estrofe, que tem o número ímpar e primo de 11 compassos, 9 com duas exposições de Cm7(9) e Cm6(9) como ponte ; em seguida, uma breve ponte de 4 compassos (“eu queria ser feliz”), extraída ela mesma de uma sessão interna da estrofe, e uma segunda e última estrofe que desemboca na coda instrumental final.

Além de sua riqueza melódica e de sua harmonia indecifrável, “Cais” é encerrada por um belíssimo tema martelado ao piano pelo próprio Milton (a tal coda instrumental acima mencionada). Seguindo a tradição dos discos conceituais, em Clube da esquina esse staccato reapareceria mais adiante, em “Um Gosto De Sol”. Não bastasse esse fato para assinalar a unidade temática/musical das canções do Clube, outras produções futuras trazem o mesmo tema. O blogueiro Túlio Villaça, em seu excelente Sobre a canção, apresenta um post interessantíssimo sobre essa recorrência.


“Cais” recebeu seu registro definitivo, na minha opinião, em sua gravação inicial para o disco de 1972. Mesmo assim, o leitor/ouvinte irá encontrar por aí diversas gravações ao vivo, com performances inesquecíveis desse grande compositor e intérprete que é Bituca.

Gosto muito, também, da versão de Elis Regina, que tem como característica ser iniciada, e não finalizada, pelo supracitado tema de piano. A versão conduzida no programa MPB Especial, em 1973, é um dos melhores registros que a Pimentinha faria de uma canção do Clube: 

Juntam-se a essa regravação clássica, de Elis, outras mais contemporâneas. Destaco duas: a versão de Eugénia Melo e Castro, renomada cantora portuguesa que, em 2012, lançou o disco Um gosto de sol, dedicado ao cancioneiro mineiro; a recentíssima versão da banda Samuca e a Selva, que rendem tributo às composições de Ronaldo Bastos no disco Tudo que move é sagrado (2018), revivendo “Cais” com um sabor latino e a participação de ninguém menos que Criolo.

O disco de Eugénia Melo e Castro, lançado pelo excelente Selo Sesc, pode ser ouvido e baixado aqui. Já a versão de Samuca e a Selva com Criolo segue abaixo: 

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