294. Golŏnka: “Caixa Preta”

Teu corpo é luz do que houver
Secreta fórmula
De carne crua e displicentes sais
Lençol de Salomé
Olhos de máscara
Muito além dos registros gerais
Eu gosto do teu corpo
E do que ele faz


Neste ano, tive a alegria de conhecer a banda paulistana Golŏnka, numa noite típica e igualmente paulistana. A casa era boa, estava lotada (e quem advinhar onde foi, ganha um brinde!) e, na verdade, fui parar ali por atitude impulsiva: precisava sair, apenas isso, e escolhi uma noite de sábado para desbravar São Paulo, já aos 46″ do segundo tempo – temendo, inclusive, não encontrar o metrô funcionando. Nem sabia que, naquela noite, haveria banda tocando (como, aliás, não imaginava que houvesse som ao vivo naquele lugar, que já visitara duas vezes).

Depois de uma meia-horinha na fila, como é de praxe, eis que me encontrei naquele ambiente, já ouvindo, nas conversas aqui e ali, a questão: “A que horas a banda entra?”

E, pontualmente à 1h30, o trio subiu ao palco. Com formação incomum – voz e violão, guitarra e percussão –, a banda iniciou a apresentação com uma versão incrível para “It’s A Long Way”, do antológico Transa (1972) de Caetano. Toda a plateia acompanhou a canção, dançando junto e cantando a letra. (Confesso, que ao ver isso – um bando de gente cantando uma obscura canção caetânica –, minha esperança ganhou forças). A certa altura, a letra citava o afro-samba (que não está no clássico Afro-sambas de 1966) “Consolação”, de Vinícius de Moraes e Baden Powell. A banda perguntava, a massa respondia, e foi assim o resto do show.

Não demorou para eu perceber que o conjunto fazia um tributo a Caetano, mais especificamente, ao próprio Transa. De lá saíram outras canções do show, como “Nine Out Of Ten” e uma que jamais, mas jamais mesmo, imaginei que escutaria ao vivo algum dia: “Triste Bahia”, a capoeira épica que cita Gregório de Matos.

Quanto tocaram “Reconvexo”, já estava muito claro que o som da Golŏnka mesclava afro-baianidade, rock, samba, axé e alguma influência latina. E, cá entre nós, tocada com competência, uma mistura dessas não tem como dar errado, não é?

A certa altura do show, uma canção que não conhecia botou os presentes para dançarem (mais ainda). Confesso ter me sentido verdadeiramente um peixe fora d’água, não apenas pela forma ridícula como (não) danço, mas por perceber que todos pareciam saber a letra, menos eu. Por sorte, a obra reapareceu no bis, e ali eu já tinha sacado, ao menos, o refrão. E, mais solto, também arrisquei meus passinhos.

A referida canção era “Caixa Preta”, lançada pelo cantor maranhense Bruno Batista, em seu álbum Bagaça (2016). Composta pelo próprio Bruno em parceria com Demetrius Lulo, Paulo Monarco e Dandara, a obra pode ser definida com um adjetivo: sexy. O mote da letra, que encerra as estrofes e serve com refrão, já diz tudo: “Eu gosto do teu corpo / E do que ele faz”.

Com menções a Caetano (“Teu corpo é o primeiro plano / Paixão ilícita / Minha seiva e destruição / É Cê de Caetano”, mais “Vantagem explícita / E bem mais que Tins e Bens e tais”, citando “Podres Poderes”), a canção parece ter sido feita para o projeto a que assisti ao vivo da Golŏnka: como fui descobrir depois, o show se intitulava ReTransa.

Enfim, foi uma noite de muita celebração, com esse repertório, quase todo baseado no moço de Santo Amaro, insinuando transas e o “gosto do corpo” – gosto verbo e substantivo. E como é bom sair da noite marcado – seja por um beijo ou por uma canção!

Todo brasileiro deveria ter acesso a momentos dionisíacos como esses que tive, ao som ambiente da Golŏnka. Boa lembrança desse 2019 que, ufa, já está passando. Mas fica a expectativa de reencontrar os rapazes, em alguma outra night, nessa década que virá.

golonka.jpg
Golŏnka: transando Caetano e outras brasilidades na noite de São Paulo.

Embora a Golŏnka ainda não tenha preparado seu disco de estreia (previsto para 2020), a banda já gravou um DVD, justamente do show ReTransa. Ali, “Caixa Preta” pode ser escutada numa versão idêntica à que presenciei ao vivo:

Quanto à versão presente em Bagaça (2016), de Bruno Batista, temos aí uma pegada diferente, mais moderna. Mesmo assim, vale a pena escutá-la, principalmente acompanhada das imagens do belo videoclipe:

2 comentários

    1. Também não conhecia até o início deste ano! Tá vendo como tem gente boa (e com igualmente boas referências) tocando no Brasil da atualidade?
      Grato pelo comentário.

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