295. Marcelo D2: “Desabafo”

Eu já falei que tenho algo a dizer, e disse
Que falador passa mal e você me disse
Que cada um vai colher o que plantou
Porque raiz sem alma, como o Flip falou, é triste


Há pouco mais de dez anos, Marcelo D2 recuperou uma pérola perdidíssima nos anos 1970, sampleando-a na faixa “Desabafo” (composta em parceria com o produtor Nave), para seu quarto álbum de estúdio (A arte do barulho, 2008).

Trata-se da canção “Deixa Eu Dizer”, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza. A faixa foi lançada pela cantora Cláudia, cuja carreira, entre altos e baixos – marcada também por uma suposta rixa com Elis Regina, alimentada pela mídia, mas hoje negada pela cantora carioca –, gerou obras interessantes, como o álbum justamente intitulado Deixa eu dizer (1973).

Nele, a canção surge encorpada por um arranjo meio samba-jazz, com muito balanço, sustentando uma letra passionalíssima (como atestam os versos “Se hoje canto meu lamento / Coração cantou primeiro”).

Com efeito, “Deixa Eu Dizer” é um grito de autonomia, de (re)afirmação, de necessidade urgente de comunicar o que precisa ser dito. O que está engasgado e que, por obra da repressão da ditadura civil-militar, parecia não encontrar nem espaço, nem canal para ser transmitido: “Deixa, deixa, deixa / Eu dizer o que penso dessa vida / Preciso demais desabafar”.

Que refrão forte!

“Deixa Eu Dizer” foi gravada por Ivan Lins em 1974, em Modo livre. Na gravação, o cantor explora a parte mais alta da tessitura, com um vocal agudo e quase tão feminino quanto o do registro de Cláudia. Participam da faixa o pessoal do MPB-4 no coro; confira:

Marcelo D2, se apoderando do /querer/ quase desesperado da voz de “Deixa Eu Dizer”, construiu “Desabafo” exatamente como o título da canção dá a entender: uma sucessão de pensamentos fragmentados – mas sempre coerentes – sobre um mundo em crise. Assim, o rapper permanece em sua busca pela “batida perfeita”, e aposta: “Sei que nem tudo tá certo, mas com calma se ajeita / Por um mundo melhor eu mantenho minha fé / Menos desigualdade, menos tiro no pé”.

Admiro a forma como o antenado artista parecia ter captado, ainda à época do lançamento de Tropa de elite (2007), os instintos violentos que o filme de Alexandre Padilha despertava na classe média – e que hoje são apontados como uma das causas para nossa atual situação política, em que uma família com óbvias ligações com o crime organizado (em sua forma miliciana) ocupa o poder da República, defendendo um discurso “moralista” de eliminação de seus antagônicos. Na letra de “Desabafo”, canta D2: “Ok, então vamo lá, diz / Tu quer a paz, eu quero também / Mas o Estado não tem direito de matar ninguém / Aqui não tem pena de morte, mas segue o pensamento / O desejo de matar de um Capitão Nascimento / Que, sem treinamento, se mostra incompetente / A impotência não é uma escolha também / De assumir a própria responsabilidade / Hein?”.

Com ou sem a companhia das rimas do cantor egresso do Planet Hemp, “Deixa Eu Dizer” se tornou um hit em algumas pistas de São Paulo e, como muitas das antigas “canções de resistência” já postadas aqui no blog, parece soar (infelizmente) mais atual do que nunca.

marcelo-d2.jpg
Marcelo D2: fazendo a cabeça da juventude com a redescoberta de Cláudia.

No DVD Samba Social Clube (2009), D2 se junta a Cláudia (agora Cláudya) e propõe não apenas uma versão ao vivo de “Desabafo”, mas verdadeiramente um pot-pourri em que “Deixa Eu Dizer” se insurge na íntegra, como um verdadeiro desabafo musical da cantora que saía de um longo ostracismo. Versão definitiva:

Já em Nada pode me parar ao vivo (2016), “Desabafo” é introduzida por uma citação à vinheta (em francês) jocosamente intitulada “Madame Bonfumé” – uma brincadeira em francês. Versão bacana, com participação ativa da plateia:

2 comentários

  1. Adorei a fusão de rap com MPB de protesto.E a Cláudia cantando ao vivo mostrou que sua voz continua intacta,grande cantora.

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