31. Juca Chaves: “A Cúmplice”

Eu quero uma mulher que seja diferente
De todas que eu já tive, todas tão iguais.
Que seja minha amiga, amante, confidente;
A cúmplice de tudo que eu fizer a mais.
No corpo tenha o Sol, no coração a Lua,
A pele cor de sonho, as formas de maçãs,
A fina transparência, uma elegância nua,
O mágico fascínio, o cheiro das manhãs.


Meu pai tinha guardado – “tinha” porque não mais o tem, dada minha natureza cleptomaníaca quanto a seus pertences musicais – uma pequena fita cassete, com uma capa engraçada:

o-pequeno-notável

Nessa fachada, além da caricatura de um narigudo travestido segurando um “violão”, um pequeno recado: “Rigorosamente proibido para menores de 18 anos”. Bom, eu tinha exatamente 18 anos em meados de 2004, quando encontrei a fita, e estava relativamente desocupado (leia-se sem aulas) por conta de uma greve geral na USP. A curiosidade foi grande, e o aviso da censura era praticamente um convite a escutá-la…

Pois nessa primeira audição, foram 45 minutos de muita risada e encantamento diante desse ser que é Juca, nascido Jurandyr Czaczkes Chaves em 1938, no Rio de Janeiro.

O pequeno notável (1979) é uma espécie de concerto/recital/sarau/(e o que hoje se chama)stand up. Além de piadas mais ou menos sujas, algumas datadas, outras surpreendentemente cada vez mais atuais, a gravação inclui diversas composições do nosso pequeno Juquinha.

Entre sátiras muito (“Sou Sim, E Daí?”) ou menos (“O Último A Saber”) machistas, constam ali pelo menos duas pérolas do cancioneiro de Juca dedicado às modinhas: “A Cúmplice” e “Cantiga Para Iara Dormir E Sonhar”, ambas dedicadas a sua companheira de longa data.

“A Cúmplice” foi um ponto de virada importante em minha vida, pois foi meu primeiro verdadeiro contato com esse gênero esquecido. Fiquei tão interessado que, três anos depois, juntei algumas economias para comprar o então lançamento mais recente de Juca, um disco triplo intitulado O menestrel do Brasil, com um dos CDs dedicados inteiramente a modas gravadas em diversos momentos da carreira do cancionista. Detalhe: quem remeteu o disco ao meu endereço fora a própria Iara, como atestava a etiqueta do correio. É lógico que “A Cúmplice” teria que estar presente.

juca-chaves.jpg
Juca Chaves, um menestrel contemporâneo.

“A Cúmplice” é uma canção modalizada pelo /querer/, como atestam os versos introdutórios das duas partes da canção (“Eu quero uma mulher…”), mas que se envolve com o /ser/ à medida que descreve a musa ideal. A letra é formada por quatro estrofes, duas cantadas na parte inicial, duas na parte final (entremeadas por uma repetição da bela introdução, que trabalha o campo harmônico de Mi Maior), rigorosamente compostas por versos dodecassílabos.

Juca compõe sua desejada amante com extremo romantismo, mas recorrendo a elementos prosaicos, coerentemente com a simplicidade da modinha, gênero que constrói o lirismo sobre harmonias pouco complexas. Assim, a cúmplice não é um ser de outro mundo, mas uma mulher que tenha “o cheiro das manhãs”, “que morda os lábios sempre que for me abraçar” e “que ao sorrir provoque uma covinha linda”.


Ao planejar um post sobre “A Cúmplice”, por volta de duas semanas atrás, fui surpreendido com uma versão que pensei que jamais teria a oportunidade de escutar: o registro feito para o disco Juca bom de câmera (1977), em que o cantor e compositor expõe sua formação erudita, arranjando suas composições para flautas, cravos e quartetos de cordas. Que coisa linda! Ouça:

E como a regra é compartilhar todas as versões relevantes sobre as canções aqui tematizadas, sinto-me obrigado a apresentar a inusitada releitura de Fábio Jr. para esse clássico do repertório do Juquinha. Não que tenha ficado ruim… Mas acho que a produção exageradamente esmerada não combina com a singeleza da modinha. Pra ser bem franco, é o coro da introdução o que me incomoda – de uma breguice absurda -, além da interpretação artificiosa de Fábio. Por ser um cantor competente, penso que poderia brilhar mais, com essa merecida homenagem ao Juca, caso interpretasse a canção de forma menos afetada e sob uma produção despojada. Veja se tenho razão:


E conseguimos completar um mês de postagens ininterruptas! Faltam só mais 11… vamos seguindo.

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