37. Engenheiros do Hawaii: “O Sonho É Popular”

A pampa é pop
O país é pobre
É pobre à pampa
(O Pib é pouco)
O pove pena mais não pára
(Poesia é um porre)
O poder
O pudor
VÁRIAS VARIÁVEIS
O pão
O peão
GRANA, ENGRENAGENS
A pátria
À flor da pele
Pede passagem… PQP


Pelos Engenheiros do Hawaii, nutro não apenas admiração mas, verdadeiramente, um interesse acadêmico. Publiquei alguns artigos razoáveis (um sobre a banda, na Revista Brasileira de Estudos da Canção; e outro sobre a obra Psicologia da arte, do russo L. S. Vigotski, de onde extraio conceitos para analisar algumas expressões artísticas, entre elas, a produção cancional de Humberto Gessinger. Você pode acessar os textos aqui e aqui) e ao menos um bom trabalho sobre um conjunto amplo de canções – neste, que você acessa aqui, levantando os abundantes temas de ciência e tecnologia que permeiam os álbuns dos gaúchos.

Pensei em usar o post para divulgar essa produção (e, a bem da verdade, acabei de fazê-lo no parágrafo acima!), mas percebi que caberia, aqui, tratar de uma obra que não fora tematizada nos meus artigos.

Hoje, vamos falar de uma canção atípica, e até pouco conhecida, “O Sonho É Popular”.


Era 1991 e os Engenheiros do Hawaii, após o lançamento de O papa é pop (1990), haviam sido alçados ao primeiro escalão do rock nacional. O disco estourara canções como a faixa título, a regravação de “Era Um Garoto Que, Como Eu, Amava Os Beatles E Os Rollings Stones” e a bela “Exército De Um Homem Só, I”.

Mas a incessante produção de novas canções, por parte do compositor Humberto, conduzira a banda novamente aos estúdios, mal desfrutando do repentino sucesso de um disco que, a rigor, nem era tão pop assim, como o título dava a entender. Na verdade, em O papa é pop os Engenheiros atravessariam, irreversivelmente, uma fronteira tida como proibida no contexto do BRock: o rock progressivo. É certo que tal reorientação – em termos líricos, musicais e artísticos, de forma mais ampla – já havia se insinuado aqui e ali nas criações da banda gaúcha, sendo testada de forma mais explícita nas duas canções inéditas do disco ao vivo Alívio imediato (1989), “Nau À Deriva” e a própria “Alívio Imediato”.

Com Várias variáveis, o disco gravado em 1991, o progressivo continuaria sendo a forma de expressão adotada como bandeira do conjunto, se podemos dizer assim, mas com acenos também ao período inicial de sua construção identitária, iniciada com A revolta dos dândis (1986) e concluída em Ouça o que eu digo: não ouça ninguém (1987) – os discos amarelo e vermelho. E veja o que afirma o próprio Gessinger, em sua autobiografia (Pra ser sincero: 123 variações de um mesmo tema. Caxias do Sul: Belas Letras, 2009):

Gravamos, no Rio, Várias Variáveis, o disco com capa verde que fecharia a trilogia da tricolor bandeira pampeana. Paradoxalmente, é nosso disco mais paulista. A beleza de flutuar num país do tamanho e com a diversidade do nosso é que os centros gravitacionais vão se alternando, girando pelo salão. Além de Rio e São Paulo, Belo Horizonte entraria nesse bailado em breve. E Fortaleza. E Porto Alegre voltaria…

Paradoxalmente, no nosso disco mais paulista, gravamos Herdeiro da Pampa Pobre, do Gaúcho da Fronteira. Não é bem o filtro pelo qual a inteligência gaúcha gosta de se ver, mas sempre me amarrei nos tradicionalistas mais populares, como Gildo de Freitas. […]

Paradoxalmente, somos mais gaúchos fora do RS. No estado de origem, somos só mais um. Se não te deixar insensível, a distância pode colocar tudo em perspectiva. Na capa, estou de bombacha. Fiz toda a turnê assim. Um gaúcho “para exportação”, ainda assim, um gaúcho (p. 62).

Várias variáveis estourou com a regravação de “Herdeiro Da Pampa Pobre”. “Muros & Grades” (minha favorita da banda) também tocou bem nas rádios – coisa que, incrivelmente, me lembro, quando tinha apenas 6 anos. Diferentemente de O papa é pop, predominam no disco as guitarras e, em alguns casos (“Sala Vip”, “Sampa No Walkman”), a atmosfera é realmente heavy.

engenheiros-do-hawaii-1.jpg
Os Engenheiros do Hawaii como o trio clássico (Humberto Gessinger, Augusto Licks e Carlos Maltz) que gravaria Várias variáveis: gaúchos tipo exportação invadindo o BRock.

Mas, ao contrário da maior parte das faixas do álbum, “O Sonho É Popular” é curta e acústica, sendo levada apenas aos violões, acompanhados de belíssimos fraseados no baixo fretless de Humberto. O riff da introdução, no baixo, reapareceria em diversos momentos do álbum: ao final de “Sampa No Walkman”, em “Descendo A Serra” e nas duas faixas emendadas que encerram o disco, “Não É Sempre” e “Nunca É Sempre”. Assim, Várias variáveis acaba como começa (“O Sonho É Popular” e “Nunca É Sempre” têm a mesma levada, mudando-se apenas a letra), o que já fora antecipado na própria capa, com uma engrenagem mesclada ao símbolo do ouroboros, a serpente que morde o próprio rabo. Bem ao feitio dos discos conceituais do rock progressivo.

A letra da canção tem duas assinaturas de Humberto Gessinger: as aliterações com “p” (também presentes em “O Papa É Pop” e “Parabólica”) e as autorreferências. Parte da letra já estava, aliás, antecipada na faixa de encerramento do LP de O papa é pop, “Ilusão De Ótica”, num trecho em que o vocal é reproduzido numa colagem ao contrário: “Mal entendido/bem intencionado / Mal informado/bem aventurado / Jesus salva/salve as baleias/leia livros / Safe sex/relax / O papa é pop/o país é pobre/ O PIB é pouco / O meu pipi no seu popô / O seu popô no meu pipi / Poesia é um porre / O futebol brasileiro são várias camisetas com a mesma propaganda de refrigerantes / A juventude brasileira… sem bandeiras, sem fronteiras pra defender”. Além dessa referência, há a menção aos versos de “Alívio Imediato” (“O poder / O pudor”) e à própria iconografia da banda (“GRANA, ENGRENAGENS”).

Após o início aliterante e abstrato, a canção envereda por um caminho histórico: irá narrar os fatos relativos à Campanha da Legalidade, o “golpe de 61” mencionado na letra. Trata-se de um momento tenso da história do Brasil, quando o então presidente Jânio Quadros renunciou e a tentativa de posse de seu vice, João Goulart, quase conduzira a uma guerra civil. O golpe acabara abortado já em seus bastidores, mas não sem resistência: e aparece aí a incrível figura de Leonel Brizola, que ergueu barricadas em Porto Alegre, usando inclusive bancos de concreto da Praça da Matriz, e transmitiu discursos inflamados pela Rádio Guaíba, insuflando a população a garantir a posse de Jango.

A canção mobiliza recursos criativos para desenvolver essa narrativa: enquanto a voz “oficial” é cantada no primeiro canal, há uma voz distorcida praticamente recitando outros versos em um canal separado – como que bradada por um megafone, ou transmitida pelas ondas da Rádio Guaíba.

A primeira voz é reflexivo-descritiva, comparando as barricadas brizolistas ao movimento modernista das arquiteturas brasileira e mundial: “O sonho é popular / Eu li isso em algum lugar / Se não me engano, é Ferreira Gullar / Falando da arquitetura de um Oscar / O concreto paira no ar / Mais aqui do que em Chandirgarh / O sonho é popular”. Há duas referências arquitetônicas nesses versos: à cidade indiana projetada por modernistas, entre eles, o franco-suiço Le Corbusier; e ao poema “Lição de Arquitetura” (1976), que Ferreira Gullar escreveu para seu amigo Oscar Niemeyer. O poema é este (Poesia completa, teatro e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008):

Lições da arquitetura (para Oscar Niemeyer)

No ombro do planeta
(em Caracas)
Oscar depositou
para sempre
uma ave uma flor

(ele não faz de pedra
nossas casas:
faz de asa)

No coração de Argel sofrida
fez aterrizar uma tarde
uma nave estelar
e linda
como ainda há de ser a vida

(com seu traço futuro
Oscar nos ensina
que o sonho é popular)

Nos ensina a sonhar
mesmo se lidamos
com matéria dura:
o ferro o cimento a fome
da humana arquitetura

nos ensina a viver
no que ele transfigura:
no açúcar da pedra
no sonho do ovo
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do novo
Oscar nos ensina
que a beleza é leve

Já a outra voz é subversiva, militante, falando sobre passagens subterrâneas e segredos arrancados (pela tortura?), trazendo a máxima fascista da “mentira repetida até virar verdade”.

Ao final do momento canto-contracanto, a ambiguidade é máxima: “O sonho é popular” ou “O sonho é uma mentira repetida… repetida!”?


Em 2011, aos 50 anos da Campanha da Legalidade, a Folha de S. Paulo produziu um bom artigo sobre o contido (ou adiado?) golpe de 1961, para o caderno “Ilustríssima”. O texto é de Eleonora de Lucena e pode ser conferido aqui.

Além da parte escrita, há uma pequena HQ de Rafael Campos Rocha, que ilustra os fatos do golpe fracassado. Clique na imagem abaixo para ampliá-la:

charge-rafael-campos-rocha.jpg


Este post vai pro meu grande amigo MP, com quem dividimos várias vezes os vocais de “O Sonho É Popular”, nas rodinhas de violão da turma. Nem preciso dizer que, nessas ocasiões, nunca ouvimos alguém pedir bis!

11 comentários

  1. Que abordagem precisa, consciente e acadêmica. Parabéns, Rafael! Um deleite de leitura, uma leitura para além do deleite. Obrigado pelos duetos inesquecíveis. Que a vida nos permita o bis. Forte abraço!

    Curtir

  2. Grande Mário, faltava sua presença aqui no blog! Que bom que gostou do post sobre a banda que costurou nossa amizade. Seu comentário é que é incrível e emocionante. Espero contar com a honra de suas visitas durante 2019! Abração!

    Curtir

  3. Olá Rafael, não sei se lembrará de mim, mas trocamos algumas ideias sobre o Humberto quando escrevi um artigo sobre ele com um viés de sua identidade gaúcha. Agora estou me planejando para escrever um artigo complementando algumas ideias do primeiro artigo, na qual essa música é primordial e encontro esse seu texto. Ele ficou muito bom. Abraços!

    Curtir

    1. Poxa, Gustavo, pode parecer mentira, mas pensei em você dia desses, acho que ao trombar seu artigo quando fiz alguma busca no Google.
      Estou bem envergonhado por você ter descoberto o blog por acaso! Eu avisei amigos e colegas, sobre o projeto, ao final de 2018. Só que usei meu e-mail do Bol pra fazer isso, e você é praticamente a única pessoa que conversava comigo pelo Gmail, então acabei deixando de incluir seu endereço naquela mensagem original. Perdão pelo lapso.
      Também acabei não visitando Dourados desde 2018 e nosso contato arrefeceu, mas é uma alegria reencontrá-lo aqui!
      Que bacana que você irá escrever um novo texto, complementando o anterior. Quando estiver pronto, quero ler. E obrigado pelo elogio! “O Sonho É Popular” é praticamente uma vinheta introdutória dos conceitos do álbum Várias variáveis, mas é incrível como uma faixa tão curta reúna tanta informação.
      Navegando pelo Sumário do blog, você irá encontrar os outros posts que tematizaram canções de Humberto Gessinger. Fica o convite para você conhecê-los também.
      Grande abraço!

      Curtir

  4. Ola Gustavo, como vai?

    Recentemente 03/01/2021 completei 45 anos e montei um canal no YouTube onde, por 45 domingos seguidos postarei 45 videos com 45 memórias da minha vida. Sendo muito fã dos Engenheiros do Hawaii, banda da qual me fez aprender a tocar alguns instrumentos, não poderia faltar historia deles. Pois bem, uma das histórias envolve a musica O Sonho é Popular. Em 1999 entrei na livraria saraiva do shopping D&D em São Paulo e me dei de cara com um livro escrito O Sonho é Popular e dentro dele o nome de Ferreira Gular. queria muito achar esse livro, não para comprar mas apenas para mencionar com mais certeza essa parte da minha historia. voce por acaso conhece esse livro?

    Parabéns pelo blog e sucesso…

    Curtir

    1. Oi, Luciano. Acho que você me confundiu com meu chapa Gustavo, que comentou acima.
      Bom, primeiramente, parabéns pela iniciativa! É um projeto muito bacana e tenho certeza que você se orgulhará dele, ao final do resultado.
      Sobre sua dúvida, nunca ouvi falar desse livro. Dei uma pesquisada aqui em alguns catálogos bibliográficos, e nada encontrei. Se você conseguir alguma informação, peço a gentileza de avisar-me também.
      No mais, orbigado pelo elogio e fique à vontade para conhecer outras de nossas postagens. Sugiro que consulte a guia Sumário. Pra você que gosta dos Engenheiros, tematizei várias outras canções de H. Gessinger, na voz de diversos intérpretes.
      Abraço!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s