155. Dona Inah: “Velho Ateu”

Um velho ateu
Um bêbado cantor, poeta
Na madrugada cantava essa canção-seresta
Se eu fosse Deus
A vida bem que melhorava
Se eu fosse Deus
Daria aos que não têm nada


Dona Inah nasceu em Araras, no interior de São Paulo, uma agradável cidade com pouco mais de 100.000 habitantes, e onde já passei há alguns anos. Ainda jovem, mudou-se para Santo André, tendo trabalhado em São Caetano do Sul – tudo aqui pertinho de casa.

Seu talento para o samba, embora reconhecido informalmente, só veio a receber maior projeção com o disco Divino samba meu (2004), quando já era quase septuagenária. Alguns anos depois, gravou um álbum inteiramente dedicado ao repertório do paulistano Eduardo Gudin, Olha quem chega (2008), onde consta a faixa de hoje, “Velho Ateu” (composta por Gudin com Roberto Riberti).

No DVD gravado com as diversas formações do conjunto Notícias dum Brasil, 3 tempos (2012), o compositor descreve a natureza desse clássico do samba paulista, lançado originalmente em Coração marginal (1978):

“Velho Ateu”… é um samba que encerra meus shows até hoje, que eu tenho paixão por esse samba. Às vezes fico pensando, se as pessoas tivessem… se alguém tivesse falando assim: “Você só tem direito a uma música das que você fez”, eu escolheria o “Velho Ateu”. […]

Agora tem uma curiosidade, como é que essa letra… como é que essa música foi feita. Eu fiz a melodia, a primeira parte, meio andando pela rua, sem instrumento. Aí terminei a segunda parte com instrumento em casa e ficou pronta, assim, né. E um dia, eu dormindo na casa de minha mãe, eu tive um sonho: na Baixada Fluminense, uma multidão cantava a melodia que eu tinha feito, assim pra mim – “Se eu fosse Deus, a vida bem que melhorava / Se eu fosse Deus, daria aos que não têm nada”. E por sorte eu acordei. Depois é que eu fui ver o que eu tinha feito, achei legal e mostrei pro Riberti. O Riberti, como sabe tudo de letra, ele falou assim: “É muito legal, mas não pode abrir a música, tem que ser uma… uma estrofe do meio”. Aí ele bolou essa estrofe “Um velho ateu / Um bêbado cantor, poeta…” E foi assim que foi feito.

A canção, então, fala desse personagem boêmio que, certa noite, sai entoando ébrio pela rua uma canção-seresta, que assusta toda a vizinhança. Enquanto canta, as janelas à rua se fecham, “Talvez por medo das palavras / De um velho de mãos desarmadas”.

Sinto que a letra soa tão atual, nesse momento em que o pensamento conservador, em sua faceta mais primitiva e irracional, parece enxergar a ameaça comunista em tudo que se mova… Pois o velho, apesar de desarmado, brada um canto que soa mais perigoso que um revólver, ao menos para o cenário urbano da canção. Versos que atacam duas instituições sagradas àquela pacata vizinhança que só quer viver sua vidinha: a igreja (pronunciando o nome de Deus, aparentemente, em vão) e a propriedade privada (ao propor que, tivesse todos os poderes do universo, repartiria a riqueza existente com os “que não têm nada”).

Acho curioso como o canto de Dona Inah, e seu timbre com uma beleza tingida pelo passar dos anos, foi capaz de dar a “Velho Ateu” sua forma definitiva. Talvez por transmitir a sensação de que estamos ouvindo o testemunho de alguém integrado àquela paisagem – coisa que a voz jovem e pequena de Gudin, no registro original, não consegue proporcionar.

E talvez mais curioso seja o fato de que, durante essas minhas últimas férias, eu tenha também sonhado com uma multidão cantando “Velho Ateu”. Lembro, aliás, de ter escutado a canção inteirinha no sonho, linearizando o tempo onírico (que é caracterizado, justamente, pelos saltos e pela fragmentação). Só coincidência (mais uma a ser registrada neste blog)? Ou eu apenas acessei um conteúdo inconsciente, dado que já havia assistido ao depoimento de Gudin sobre a canção, embora não me recordasse de suas palavras?

Entre Freud e Jung, para onde ir?

dona-inah.jpg
Dona Inah, a voz da experiência renovando o samba de Eduardo Gudin.

Todas as versões de “Velho Ateu” são antológicas, embora nenhuma transmita a força do registro de Dona Inah, na minha humilde opinião.

Assim, temos a clássica abertura de Coração marginal:

Quase à mesma época, o MPB-4 registrou a canção no imperdível Bons tempos, hein?! (1979). É de se tirar o chapéu ao conjunto pela coragem em registrar essa canção, nesse disco, com essa capa (se bem que eram tempos de “abertura”):

Já na década de 1990, Beth Carvalho gravou uma apresentação no Sesc Pompéia totalmente dedicada ao cancioneiro do samba paulistano. A gravação gerou o álbum Beth Carvalho canta o samba de São Paulo (1993), com uma versão partideira para “Velho Ateu”:

Entre os tributos mais recentes, temos a aparição de “Velho Ateu” encerrando o álbum de Gudin com a carioca Fátima Guedes (Luzes da mesma luz, 2001), com um arranjo meio jazzy:

Gudin também gravou um álbum com outra cantora, mais recentemente: a paraense Leila Pinheiro, Pra iluminar ao vivo (2009). Lá está, novamente, a belo samba fechando o álbum, sendo conduzido na levada ao piano de Leila:

Como curiosidade, temos a versão instrumental do Milton Banana Trio, em Sambas de bossa (1984):

4 comentários

  1. Eu quase nunca gosto de voz ”cansada”,mas o registro de Dona Inah ficou bom mesmo;outra voz tingida pelo tempo que eu gosto é a do Nelson Sargento.

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