192. Guinga: “Contenda”

Sou a dobra de mim sobre mim mesmo
Nesse afã de ganhar de quem me ganha
Tento andar no meu passo e vou a esmo
Tento pegar meu pulso e ele me apanha
Eita, sombra rival que me acompanha
Artimanha de enconsto malfazejo


Após passar alguns dias em São Carlos, acabei por reencontrar alguns poucos amigos e, por coincidência, vários deles me foram apresentados por um elo chamado Ernesto “Magrão”. Um grande cabra que conheci durante as aulas de yoga com a querida Dinha, em 2009, e que logo se tornaria um bom trocador de prosas.

Passando em frente à residência onde ele viveu em seus últimos meses em São Carlos, lembrei de outras situações mais recentes, como um delicioso jantar vegetariano na casa de nossa amiga Maria Paula, sua despedida sob o sabor de um não menos delicioso cassulê que sua mãe Silvia preparou e, no ano anterior a esses eventos, o furto de sua bicicleta onde acontecia o churrasco comemorativo de minha defesa de doutorado. Pois é, toda amizade enfrenta momentos difíceis e, embora eu não tenha tido culpa diretamente pela perda da magrela, me senti bastante responsável pelo acontecido, e também me arrependo por não ter me esforçado mais para reparar o dano causado.

Até cheguei a contar essas frustrações para o Magrão numa de suas raras vindas para São Carlos, acho que no festival Chorando Sem Parar de 2018. Meu amigo apenas lançou-me um sorriso tranquilizador: “Relaxa”.

Foi na época desses eventos gastronômicos que Ernesto me apresentou um som que mexeu muito comigo. Não sei o motivo dele ter enviado aquele e-mail isolado com um link para o YouTube e um lacônico “dá uma ouvida”. E também não sei por que razão a canção sugerida me envolveu tanto. Talvez o público do blog possa me ajudar a esclarecer esse mistério, por isso a tomo como nosso tema de hoje: “Contenda”.

O intérprete e compositor (ao lado de Thiago Amud) é o célebre violonista carioca Guinga, um dos maiores nomes associados ao instrumento. Um talento de outro mundo, que ganhou notoriedade por suas parcerias com Paulo César Pinheiro, hoje, meio que renegadas pelo artista, nascido Carlos Althier de Sousa Lemos Escobar. Como eu gostaria de ver esses dois reconciliados!

E a precisão de Guinga, com as mãos, não se limita ao ofício de instrumentista. Desde 1975, o artista exerce também a odontologia. Meu chapa Gabriel, que toca seu maravilhoso 7 cordas no conjunto que abandonei ao me mudar de São Carlos, participou de uma oficina ministrada por Guinga, quando o violonista fora escalado para o Chorando Sem Parar, e ouviu boas estórias sobre dentes e arcadas de seus pacientes famosos, incluindo Baden Powell. Inacreditável!

Mas falemos de “Contenda”. A canção aparece no álbum Casa da villa (2007) e é uma capoeira. Aliás, me surpreendo por ainda não ter trazido nada desse gênero aqui no blog, já que tenho um envolvimento afetivo com a luta regional brasileira, como definia o lendário Mestre Bimba. Embora a instrumentação não traga o óbvio som do berimbau, a percussão não deixa dúvidas de que estamos no universo marcial. A letra explicita o teor do combate narrado – a luta mais difícil de ser ganha, o combate que os combatentes evitam prudente ou covardemente: a batalha consigo mesmo. A poesia é lindíssima: “Meu sangue arredio, arrevesado / Arranco e derramo em oferenda / Mas não ponho fim nessa contenda / Com meu coração esconjurado”. Já a melodia, amarrando o gênero, a instrumentação e o tema lírico, segue a harmonia, toda mobilizada para um suspense climático que participa de toda luta (e quem já praticou artes marciais sabe do que estou falando): quando os oponentes se encaram, fintam e se movem, antes de investirem suas energias nos ataques e defesas.

“Contenda” é uma obra complexa que, inserindo elementos de erudição no ritmo popular da capoeira, apenas dignifica o legado dos mestres que lutaram para preservar essa tradição que hoje é Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Vida longa a Guinga.

guinga
Guinga: a mão que toca um violão (e conserta incisivos e molares), se preciso, vai à luta… capoeira!

“Contenda” reapareceu em dois álbuns de 2015, mas num mesmo registro.

Trata-se da versão voz-e-violão que Guinga gravou com a portuguesa Maria João, em Mar afora, e que reaparece em Porto da madama (álbum de Guinga com a participação de diversas intérpretes). A cantora acerta em cheio ao investir numa interpretação que reforça o suspense da faixa:

3 comentários

  1. O Guinga é mais um gênio genioso que vai deixando parceiros para trás,Aldir Blanc,Paulo César Pinheiro,uma pena.
    Quanto à música,eu sempre gostei da sonoridade e brasilidade,não saberia definir melhor.

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