210. Uns e Outros: “Canção Em Volta Do Fogo”

Se o amor então se cansou
Durma que a lua eu vigio
Se o céu te parece em ruir em pedaços de vidro
Dançaremos em volta do fogo
Subiremos com a maré
E amanheceremos de novo


Para muitos, a banda carioca Uns e Outros não passa de uma versão genérica da Legião Urbana. Isso é fácil de refutar: genérico da banda de Brasília, mesmo, é o som do Catedral. (E se eu trouxer a ex-banda gospel aqui no blog, será por motivo de desespero, sinal de que não consegui pensar em nenhum tema realmente digno de ser pautado).

Para outros, Uns e Outros é somente o nome do conjunto que fez sucesso com “Carta Aos Missionários” – cantada a plenos pulmões, por exemplo, nos shows do Biquíni Cavadão, que tratou de resgatar a (boa) canção em seu disco de covers oitentistas, 80 (2001), e a mantém em seu repertório ao vivo até hoje.

Essa afirmação também é fácil de refutar pois, além de “Carta Aos Missionários”, “Dias Vermelhos” foi uma canção com relativa exposição em fins dos anos 1980, e podem ser enumeradas outras faixas da banda que são ao menos interessantes, como a bonita “Anjo Negro”, “Pra Nunca Mais Partir” (versão para “Love Vigilantes”, sucesso do New Order) e, mais recentemente (ou nem tanto – há quase 20 anos…), “Tarde Demais” (com uma sonoridade bem diferente do pós-punk que caracterizou os primeiros álbuns do conjunto).

Além dessas, gosto muito – e muito mesmo – de uma singela canção do álbum A terceira onda (1990): “Canção Em Volta Do Fogo”. A faixa é exatamente o que o título dá a entender: uma peça adequadíssima para um luau noturno, à luz de uma fogueira. Composta pelo vocalista Marcelo Hayena e pelo então baixista Cal, “Canção Em Volta Do Fogo” tem uma letra simples, mas repleta de imagens que evocam um belo anoitecer, incrementado com o estalar da lenha em chamas.

O sujeito enunciador pouco fala de si; dirige a palavra, mesmo, à pessoa amada, surgindo como uma voz tranquilizadora diante das dores do mundo – assim como a noite é, quase sempre, a garantia de um mínimo de descanso, após um longo dia.

Nesse sentido, a segunda estrofe é lindíssima: “Se o nosso olhar se perder / Em horizontes tão estranhos / E o mundo insistir em girar como numa ciranda / Deixaremos as luzes acesas / E abriremos as portas da casa / Para termos então a certeza / E toda noite será / Eterna como um sonho / Que insistimos em ter”.

Como diria Renato Russo, música para acampamentos.

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Uns e Outros: se esforçando para superar o rótulo de “Legião genérico”.

Em seu retorno com nova formação e certas ousadias musicais em Tão longe do fim (2002), o álbum que traz “Tarde Demais” (comentada cima), o Uns e Outros apresentou quatro regravações acústicas produzidas em estúdio. As canções foram escolhidas pelos fãs, numa enquete online: “Carta Aos Missionários” e “Dias Vermelhos” não poderiam faltar, ao lado de “Dois Gumes” e, para minha alegria, “Canção Em Volta Do Fogo”. Nessa nova versão, o refrão passa a trazer o acompanhamento da bateria de uma (bonita) steel guitar. Prefiro a original, mas vale a audição:

Eliana Printes, cantora de Manaus, gravou “Canção Em Volta Do Fogo” em seu álbum O próximo beijo (1998). O arranjo, baseado na levada dos violões e com belíssimas intervenções de acordeom, é reverente à versão original, sem se reduzir a reproduzi-la. Uma grata surpresa… aprecie:

3 comentários

    1. Depoimento do Renato em 1989 sobre os Uns e Outros (mais tarde, o músico se arrependeria do que disse – até porque, nessa entrevista, suas palavras atingiram outras duas bandas, os Inimigos do Rei eo Nenhum de Nós): “O que mais me incomoda não é nem a mídia, mas o receio de que o público coloque tudo no mesmo saco. Se eu desconfiar que tem um garoto que não sabe a diferença entre Legião Urbana e Uns e Outros, aí eu vou ficar realmente preocupado. Já imaginou alguém não perceber a diferença entre Titãs e Inimigos do Rei? As pessoas não percebem que estamos trabalhando para caramba, e acham que rock’n’roll é fazer versão de David Bowie e aparecer no Globo de Ouro. Ou fazer copiazinha de música de generais, como aquela horrorosa do Uns e Outros. Não tenho nada a ver com aquilo. Já fiz coisas parecidas quando era mais jovem, mas, quando você é jovem, realmente faz certas asneiras. Mas aparecer na Xuxa cantando aquilo? Até a próxima geração, nós somos realmente a última geração.”

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