219. Luiz Carlos Paraná: “Capoeira Do Arnaldo”

Quando eu vim da minha terra
Passei na enchente nadando
Passei frio, passei fome
Passei dez dias chorando
Por saber que de tua vida
Pra sempre estava passando


“Capoeira Do Arnaldo” foi a primeira composição de Paulo Vanzolini que me foi apresentada como tal. À época, já conhecia canções como “Volta Por Cima” e “Cuitelinho”, mas simplesmente não ligava o nome à pessoa – ou melhor, a obra ao autor.

Foi a renomada capoeira do clássico Onze sambas e uma capoeira (1967) que me fez desejar imergir no cancioneiro do zoólogo mais boêmio do mundo (ou seria o contrário?). O livro de Sônia Marrach (Música e universidade na cidade de São Paulo: do samba de Vanzolini à Vanguarda Paulistana. São Paulo: Unesp, 2011) traz um pequeno fragmento que explica a origem da cançã:

Paulo Vanzolini é mestre no desafio, aprendido na juventude: cinco versos, um em cima do outro sem refrão, com um detalhe: o primeiro verso de um cantador tem de rimar com o último do outro. Na década de 1950, ele publicou o livro Cinco careiras do caruru, que considera hobby também, e inventou muitas quadras em roda de cana verde. Paulo Vanzolini não deixava ninguém sem uma resposta certeira. A canção “Capoeira Do Arnaldo” partiu de um desafio do amigo Arnaldo Pedroso d’Horta; e desafio para Paulo Vanzolini “é fácil”, ele fez a música no ônibus e mostrou no dia seguinte […] (p. 64).

A estrutura lírica de “Capoeira Do Arnaldo” é formada por cinco estrofes, com versos em redondilha maior. O esquema de rimas do desafio se mantém por todas as estrofes, sendo representado pela forma ABCBDB…. Também conversando as marcas dos improvisos populares, todas as estrofes são iniciadas com o mesmo verso, “Quando eu vim da minha terra…”. Partindo dessa evocação, o sujeito enunciador se vale do poema para narrar suas proezas, intercalando a narrativa com o pedido de licença, de forma a continuar sua jornada: “Vamo-nos embora, ê ê / Vamo-nos embora, camará / Pr’esse mundo afora, ê ê / Pr’esse mundo afora, camará”.

Além da referência ao ouvinte como “camará”, a canção traz outras elementos que aludem ao universo da capoeira – veja, por exemplo, a terceira estrofe: “Quando eu vim da minha terra / Num sabia o que é sobrosso / Sabença de burro velho / Coragem de tigre moço / Oração de fechar corpo / Pendurada no pescoço”. A propósito, chamam a atenção as marcas da oralidade do povo sertanejo se insurgindo entre os versos, especialmente os neologismos, como no fragmento citado.

A versão de Onze sambas e uma capoeira foi interpretada por Luiz Carlos Paraná, que morreu aos 38 anos, em 1970. É o próprio Vanzolini quem esclarece quem foi esse personagem da canção popular brasileira:

A versão de Paraná fora lançada também como um compacto pelo próprio intérprete, em 1967. Já o autor de “Capoeira Do Arnaldo” levaria mais de uma década para decidir interpretar sua própria obra, o que ocorreu em Paulo Vanzolini por ele mesmo (1979). O registro autoral da capoeira pode ser conferido no vídeo abaixo, no instante 23’44”:

Os dois arranjos investem em climas que ressaltam a aridez dos ambientes pelos quais passou o personagem-narrador. A versão do próprio Vanzolini traz violões, bandolim e, claro, berimbau. O refrão é cantado por um coro que sobreleva vozes femininas. O registro de Paraná, por sua vez, destaca fraseados de flauta (também presentes na gravação de Vanzolini) que, intercalados aos versos, preparam o ouvinte para os fatos vindouros da narrativa. Nesse sentido, e considerando sua economia de recursos, opera de forma mais eficiente (e coerente) a transmissão de sua mensagem, dado que o próprio protagonisa da canção também enfrentou privações e precisou transformar a escassez material em fortuna espiritual.

luiz-carlos-parana.jpg
Luiz Carlos Paraná: quem primeiro deu voz (e vida) à saga narrada em “Capoeira Do Arnaldo”.

“Capoeira Do Arnaldo” é a típica canção que cai bem no repertório de qualquer intérprete de bom gosto.

Além das versões de Paraná e de Vanzolini, a obra foi cantada por ninguém menos que Rolando Boldrin, no álbum Cantadô (1974). A base percussiva, nesse registro, aclimata melhor o ouvinte no contexto da capoeira:

A versão definitiva, em minha modesta opinião, coube aos cearenses do Bando de Macambira, que defenderam “Capoeira Do Arnaldo” na coleção Acerto de contas, organizada e 2004 pela Biscoito Fino para celebrar a obra de Vanzolini. Caiu como uma luva:

Quando assisti a um show de Renato Braz, fiquei pasmo com a qualidade das canções que não conhecia, mas confesso que lindo mesmo foi ver o cantor paulistano epunhar um berimbau e cantar a capoeira de Vanzolini. O músico registrou a canção em Papo de passarim (2010), que prensa uma apresentação em conjunto com o cantor Zé Renato:

E considerando que a versão de Rolando Boldrin, disposta acima, está com uma qualidade sonora pobre, deixo a curiosidade abaixo: o apresentador do programa Senhor Brasil declamando “Capoeira Do Arnaldo” (e interpretando, de brinde, duas marchas-ranchos, que não vou antecipar aqui, para estimular o leitor-ounvite a apreciar por si só). Para se emocionar e dar risada também… e viva a cultura popular brasileira:

2 comentários

  1. Adorei,o texto e a música.Eu acho que minha caipirice passa por aí (Elomar e Xangai são outros exemplos).A música-sertaneja-radiofônica nunca me agradou.

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    1. Existem muitas formas de ser caipira. A forma hegemônica, infelizmente, é a que menos tem a ver com o Brasil – representado pelos regionalismos de Vanzolini, por Xangai, pelas duplas do interior paulista, pela brejeirice de Minas, pela música do cerrado centro-oestino, pelo tradicionalismo gaudério. Ou seja, caro Ademar, não tem jeito, somos mesmo caipiras! E com orgulho.

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