220. M.M.D.C.: “Ébrio De Deus”

A verve vive em cada verso que eu amei
O verso que inverte o verbo agora eu sei
Qual é o gosto do céu da boca de Deus
Um beijo exposto para crentes e ateus


Quando me aproximei do som da banda de Guarulhos 365 (que já foi tema do blog, como você confere aqui), foi uma surpresa descobrir que, em meio a sua trajetória, o conjunto havia mudado de nome. Mas não foi exatamente isso.

Como relata Carlos Finho, vocalista e principal compositor do grupo, em entrevista a Cesar Gavin, em 1995 o 365 atravessava uma turbulência interna, motivada pelos desentendimentos dos integrantes com o baterista Miro de Melo. Finho decidiu debandar, já com o projeto em mente de uma nova banda. No fim das contas, os outros integrantes do 365, à época, acabaram aderindo à ideia, restando apenas o renegado Miro. E assim surgiu o M.M.D.C. 

Quem andou pelo bairro Butantã, em São Paulo, deve ter passado por uma rua com essa sigla, que se refere aos nomes de quatro jovens que morreram durante os eventos relacionados à Revolução de 1932: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Eles também intitulam, individualmente, quatro ruas aproximadamente paralelas no Butantã, cortadas, justamente, pela M.M.D.C. (onde meu chapa MP já ocupou um AP, e paro aqui com as siglas). Uma quinta rua, nessa sequência, é a Alvarenga: esse é o nome de uma quinta baixa do conflito, que morreria aproximadamente três meses depois que seus quatro colegas. Também já passei bastante por essa, que leva ao Portão 1 da USP, onde cursei uma disciplina da pós-graduação, sentindo por breve período o gostinho de morar na cidade grande – e sem imaginar que dali a meros cinco anos estaria vivendo nessa babilônia que é a Grande São Paulo.

Pois bem, à parte a conotação nacionalista fanática que a iconografia de 1932 veicula, o M.M.D.C. fazia um som interessante, essencialmente punk, tendo gravado um único álbum, Non ducor duco (1997). Ali, há canções clássicas do 365 – “Berço Esplêndido”, “São Paulo”, em versões mais toscas – junto de sete novas obras, mais uma espertíssima (e pesada) cover de “Asa Branca”, de Gonzagão.

Entre as composições novas, algumas viriam a integrar o repertório do 365 nos (incontáveis) retornos da banda, como “Manhã De Domingo” (em homenagem aos conterrâneos Mamonas Assassinas, com os versos “Tão perto das estrelas / Onde os astros / Devem estar / Agora tão distante / Onde está? / Um sorriso jamais”), “Paixão E Tempestade”, “Cristo Anistiado” e “Adeus Pra Sempre”.

No meio das canções esquecidas, está minha favorita do álbum: “Ébrio De Deus”, um punk-rock que, como toda boa canção do gênero, se estrutura em apenas três acordes.

Se nos primeiros álbuns do 365 imperava o ataque sonoro militante e marcial – daí o conjunto ser reconhecido como um legítimo representante do rock de combate –, no M.M.D.C. Finho parece ter encontrado um espaço maior para cantar seus poemas e tratar de temáticas menos politizadas e mais focadas na experiência subjetiva (nesse sentido, seus depoimentos sobre a origem de “Cristo Anistiado” são extremamente comoventes). E um dos interesses do compositor é a teologia – como atesta o título e o caráter das canções de seu primeiro álbum solo, Paramita (2015).

“Ébrio De Deus” é isso: um poema-cantado que chama a atenção por sua expressão lírica (com rimas pobres, mas inusitadas – antropofágico/trágico, gosto/exposto –, além de assonâncias e uma bela sequência aliterante com a letra “v”) e por seu tema absolutamente incomum no gênero punk. E ouçamos as palavras de Finho sobre a canção, ainda em depoimento a Cesar Gavin:

Esse disco tem… coisas, assim, muito interessantes. Por exemplo, “Ébrio…” eu fiz quando eu tinha uns 16 anos e… quando você começa a encher a cara, por exemplo […] E eu tava lendo coisas sobre o islamismo, né? E os poetas sufis, eles dizem que o crente (é aquele que crê), ele está embriagado pela divindade. Então é isso que eu tô falando aí. Não tô falando de cachaça!

Outro destaque, no finalzinho da faixa, são duas menções incidentais ao repertório do 365, mais especificamente, de seu primeiro LP, 365 (1987): os versos de “Fúria” (“Chore a perda do seu grande amor / Reze sempre pro seu salvador / Eu não sigo mais o teu caminho / Minha fúria é o meu espinho”) e “Futuro” (“Outros mares…”).

Gosto muito também da parede de guitarras proporcionada pelo excelente Ari Baltazar, que permanece no 365 e, volta e meia, convida Finho para tocar novamente na banda. Espero vê-los ao vivo, e sonho com “Ébrio De Deus” no repertório. Seria embriagante, pra não dizer divino.

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Carlos Finho à frente do M.M.D.C.: um poeta cantando Deus no punk rock.

“Fúria”, a canção incidental de “Ébrio De Deus”, é tão boa (e representa tão precisamente o que é, de fato, o rock de combate) que merece ser compartilhada. Outra favorita minha:

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