234. Vinícius & Odete Lara: “Samba Em Prelúdio”

Eu sem você
Não tenho porquê
Porque sem você
Não sei nem chorar
Sou chama sem luz
Jardim sem luar
Luar sem amor
Amor sem se dar


Vinícius de Moraes sempre esteve cercado por parceiros, e um título de 1963, de sua discografia, é bastante ilustrativo do espírito gregário do Poetinha: Vinícius & Odete Lara. O álbum é constituído exclusivamente por composições dele com um de seus parceiros mais renomados, Baden Powell – e é ali que consta, como faixa de abertura, um dos afro-sambas inaugurais da dupla, “Berimbau”.

Não são todas as faixas que trazem os vocais de Odete que, mais reconhecida como atriz, não deixava nada a desejar como cantora. Mas ao menos a mais bonita do álbum, na opinião deste humilde blogueiro, traz esse dueto imperdível: “Samba Em Prelúdio”.

Baden Powell, num tributo a Vinícius em 1994, contou como surgiu esse clássico. No início dos anos 1960, o violonista havia composto um samba com aura amorosa, exibindo-o ao amigo poeta, que teria se animado em escrever uma letra igualmente romântica para o tema instrumental. Mas, após algumas garrafas de uísque, Baden percebeu que a tal letra não saía. Perguntando a Vinícius sobre o motivo de seu entusiasmo inicial ter minguado, eis que este confessou, constrangido: não poderia escrever sobre um tema plagiado de Chopin. Baden repeliu a acusação: “Eu conheço os prelúdios, os noturnos de Chopin… isso não tem nada a ver com Chopin!” E a discussão prosseguiu, com as acusações mútuas, até Vinícius ter uma ideia que poderia resolver, de uma vez por todas, a contenda: acordar a então esposa Lucinha (Maria Lúcia Proença), pianista e conhecedora do repertório do compositor polaco, para dar seu veredito. Eram seis da manhã, a moça teve seu descanso interrompido, escutou pacientemente a melodia apresentada por Baden e deu seu parecer:

– Isso não é Chopin, não!

Vinícius ficou sem graça, silenciou por alguns instantes, mas não se deu por derrotado:

– Então, Baden, Chopin se esqueceu se fazer essa!

E o poeta, assim, se entregou à máquina de escrever e, de uma só vez, escreveu a letra por inteiro.

Mas o mundo dá muitas voltas, as estórias são contadas e recontadas, e eis que hoje sabemos que Vinícius de Moraes, com seu bom ouvido musical, não poderia estar completamente errado. E o tema em questão, que teria inspirado Baden, não era de Chopin, e sim de Heitor Villa-Lobos! Ouça o Prelúdio da quarta Bachiana Brasileira:


Ignorando-se a inspiração erudita do tema instrumental de Baden, e o próprio título da canção, “Samba Em Prelúdio” traz um outro elemento que alude à música clássica: sua constituição enquanto composição polifônica, para canto e contracanto. Com efeito, em suas diversas gravações, a obra traz duas vozes que dialogam.

No registro de Vinícius & Odete Lara, a voz masculina começa a cantar, traçando a melodia “bachiana”, levemente tematizada, modalizada pelos efeitos da disjunção amorosa no /ser/: “Eu sem você / Não tenho porquê / Porque sem você / Não sei nem chorar / Sou chama sem luz / Jardim sem luar / Luar sem amor / Amor sem se dar / Em sem você / Sou só desamor / Um barco sem mar / Um campo sem flor / Tristeza que vai / Tristeza que vem / Sem você, meu amor, eu não sou ninguém”.

A seguir, vem a voz feminina, que canta uma melodia passional e sinuosa, mais próxima do /fazer/, da ação ausente: “Ah, que saudade / Que vontade de ver renascer nossa vida / Volta, querido / Os meus braços precisam dos teus / Teus abraços precisam dos meus / Estou tão sozinha / Tenho os olhos cansados de olhar para o além / Vem ver a vida / Sem você, meu amor, eu não sou ninguém”.

Por fim, na terceira vez em que as vozes entram em ação, as duas melodias são entoadas simultaneamente, como se o convite feminino para a conjunção amorosa (“Vem ver a vida”) fosse prontamente atendido pelo parceiro masculino. Nesse momento, é ainda mais lindo o desfecho das estrofes: se anteriormente soavam como queixa dolorosa e solitária, agora se trata, efetivamente, de uma declaração de amor, olho no olho – “Sem você, meu amor, eu não sou ninguém”, pronunciam juntos os cantores.

Uma obra prima, inigualável.

vinicius-odete-lara.jpg
Vinícius e Odete: cantos que se encontram e celebram o amor em “Samba Em Prelúdio”.

Existem muitas, muitas gravações para “Samba Em Prelúdio”, e destacarei aqui apenas dois registros.

A primeira é a gravada com Toquinho e a cantora Maria Creuza, em Vinicius de Moraes at “La Fusa” with Maria Creuza, Maria Bethânia and Toquinho (1970). Com um andamento mais lento, a performance aproxima “Samba Em Prelúdio” da bossa-nova. Prefiro a original, mas vale pelo encontro entre três grandes artistas:

Escutei muito “Samba Em Prelúdio” em 2012, quando descobri uma coletânea de Vinícius e Toquinho perdida entre minhas coisas. No ano seguinte, conversava sobre música com Hirono num dia muito frio, por volta de julho, na USP São Carlos (e parte desse diálogo já foi relatada aqui). Em algum momento, meu amigo lembrou: “Ah, você precisa escutar o Paulinho Nogueira tocando ‘Samba Em Prelúdio’. Ele faz as duas vozes da canção sozinho! Tipo… ao mesmo tempo!”.

Apesar do apelo de meu amigo, permaneci cético, e até pensei que ele se enganou; Paulinho deveria estar tocando outra canção de Vinícius.

Bom, ouvintes e leitores, meu chapa estava corretíssimo, como vim a perceber logo que cheguei em casa, naquele mesmo dia. Sim, o lendário e saudoso mestre, com injustificada humildade, conseguiu essa proeza. Com vocês, Paulinho Nogueira e a quadratura do círculo (em versão musical):

4 comentários

  1. Eu sempre achei que as gravações fossem de duas músicas-cruzadas e de Tom Jobim.Heitor Villa Lobos inspirou boa parte de nossos músicos,e no caso em questão parece que foi mais do que uma simples inspiração.

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  2. Essa música me marcou muito numa época em que ouvia bastante Villa-Lobos, mas não teria percebido essa proximidade entre “Samba em Prelúdio” e “Bachianas brasileiras 4 – Prelúdio” se não tivesse ouvido uma em seguida da outra! Apesar da similaridade na frase inicial, parece que elas soam com um “pesos” diferentes, ou apontando para direções diferentes, não sei… E ainda a performance do Paulinho Nogueira? Fiquei chocada! Passar por aqui hoje e ouvir essas músicas à luz da sua contextualização foi um deleite! Obrigada!

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    1. Oi, Carol!
      Muito bem reparado, e acho que é um pouco das duas hipóteses que você aponta. Tem essa similaridade inegável entre as frases iniciais das duas melodias, mas elas logo divergem:
      1) O samba tem um percurso extenso que, enfim, se resolve na declaração de amor mútua, como que se “fechando”;
      2) Já o prelúdio adquire um enorme peso a partir do quarto compasso (com os movimentos da mão esquerda no piano), antecipando as tensões tipicamente villalobianas que marcam a metade da obra (até o compasso 33), e que desestabilizam totalmente os temas iniciais, culminando num desfecho quase não se resolve (até por ser apenas um prelúdio), ou se resolve de forma quase trágica!
      Quanto ao Paulinho Nogueira, é chocante mesmo, não? Não tem outra palavra para definir!
      Eu é que agradeço pela visita e pelos comentários que sempre acrescentam tanto!

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